Em seu prefácio, o historiador apresentou considerações acerca das origens da cidade de Roma, sobre a época em que o compunha e quanto às aspirações e concepções com relação ao ofício e ao tema de sua história (SEBASTIANI, 2002, p.21). Assim, Tito Lívio destacou claramente seu objeto na primeira oração, indicando ao leitor, de imediato, o gênero literário abordado em sua obra (EARL, 1972, p.843), como veremos abaixo, na transcrição integral do prefácio:
(1) Se relatar toda a história do povo romano desde as origens da cidade valerá a pena, não sei e, ainda que soubesse, não ousaria dizê-lo, (2) pois que vejo ser isso coisa antiga e divulgada, e os novos escritores sempre crêem que contribuem com algo mais preciso em relação aos fatos, ou que superam a rude antigüidade pela arte do escrever. (3) Como quer que seja, agradar- me-á ter contribuído para a história dos feitos do principal povo da terra; e, se em meio a tamanha multidão de escritores, minha reputação permanecer na obscuridade, consolar-me-ei com a nobreza e grandeza daqueles que ultrapassaram meu nome. (4) Ademais, o tema é coisa de obra imensa, pois remonta a mais de setecentos anos; de inícios modestos o império cresceu a tal ponto que hoje se curva sob sua própria grandeza; e à maioria dos leitores não duvido que menos apreciarão as origens e as coisas próximas a elas, apressando-se rumo a estas novidades em meio às quais atualmente as forças de um povo há muito valoroso se voltaram contra si próprio. (5) Quanto a mim, ao contrário, pedirei esta recompensa pelo meu trabalho: que eu me afaste da observação dos males que nossa época presenciou durante tantos anos, durante tanto tempo quanto retomo na memória todas aquelas coisas
antigas, desprovido de todo o cuidado que, embora não possa desviar do que é verdadeiro o ânimo de quem escreve, pode todavia perturbá-lo.
(6) Quais honras são contadas antes de a cidade ter sido fundada ou no ato de sua fundação mais com fábulas poéticas do que com documentos incorruptos dos fatos, essas coisas não pretendo confirmar nem refutar. (7) Dá-se licença à antigüidade para que, misturando as coisas humanas às divinas, faça mais augustos os primórdios da cidade; e se a algum povo é lícito consagrar suas origens e remontar seus fundadores aos deuses, o povo romano tem essa glória de guerra. Tal como este diz que Marte muito poderoso é seu pai e também de seu fundador, assim também isso os outros povos suportem com o mesmo ânimo com que suportam o império. (8) Mas não questionarei tais opiniões ou as que lhes forem contrárias: (9) cada um por si as analise agudamente, qual vida, que costumes existiram, devido a que homens e por quais artes interna e externamente o império tenha sido alcançado e aumentado; depois, paulatinamente afrouxando-se a disciplina, primeiro degenerando, por assim dizer, os costumes, acompanhados dos ânimos e depois de terem decaído cada vez mais, quando então começaram a se precipitar para esses tempos em que nem nossos vícios nem remédios para eles podemos suportar. (10) Sobretudo é salutar e frutífero no conhecimento dos fatos: que tu contemples todo tipo de exemplos que são testemunhos dispostos em um claro documento; a partir de então o que imitarás para teu benefício e o de tua república, e aquilo que, vergonhoso pelo início ou pelo resultado, evitarás. (11) Contudo ou o amor pela empresa me engana, ou jamais uma república foi maior, mais sagrada e enriquecida por bons exemplos, nem para outra cidade migraram tão tarde a avareza e o luxo, nem há lugar onde existiu tanto e por tanto tempo reconhecimento à pobreza e à parcimônia. (12) Ademais, quanto menor era o número de coisas, tanto menos desejo havia: em nossos dias a avidez da riqueza e as veementes vontades arrastaram os ânimos para o caminho do luxo e do capricho em arruinar e perder todas as coisas. Lamentações, entretanto, nunca agradáveis nem quando necessárias, estejam ausentes dos inícios de tamanha empresa: (13) antes com todos os bons votos e rogos para os deuses e deusas, se nosso costume fosse como entre os poetas, de boa vontade pediríamos que já nos inícios da obra concedessem um próspero sucesso (trad. B. B. Sebastiani, com modificações).
Ao selecionar “toda a história do povo romano desde as origens da cidade” (Pref. 1) como objeto da narrativa, Tito Lívio indica que organizaria a obra à maneira analística, tal qual boa parte de seus predecessores. A amplitude do tema o impediria de abordá-lo, por exemplo, como uma monografia; assim, tradicionalmente, a escolha do objeto resultaria na forma de estruturar o conteúdo reportado (RICH, 1996)16.
16 Devemos, no entanto, matizar esta posição de Rich. O relato da história da urbe desde os primórdios não
demandava, necessariamente, o emprego de um quadro narrativo analístico, haja vista as Origenes (Origens), trabalho composto por Marco Pórcio Catão, o Censor (243-149), cujo relato remontou aos inícios de Roma e de outras cidades itálicas e findou nos meses anteriores ao falecimento do próprio autor. Conforme Badian (1966, p.7-8), Catão dispensou a seqüência cronológica imanente aos anais, organizando seu material de acordo com os temas abordados.
Com tal sentença, Tito Lívio iniciou a seção de sua obra em que mais expôs considerações pessoais. Interconectadas, as orações componentes deste prólogo evidenciam o emprego de recursos retóricos por parte do autor (retomando, reiterando e retificando determinados pontos abarcados nas sentenças, elaborados de forma tal a afetar ou persuadir o público leitor) e expressam o ponto de vista a partir do qual Tito Lívio concebe o fruto de seu labor e almeja que seu público assim proceda, isto é, um monumento literário.
Como bem esclarece Cardoso (2007), o termo latino monumentum, empregado pelo historiador em Pref. 10, significa “o que traz alguma coisa à lembrança”, “lembrança” ou “penhor”, donde passou a referir-se a “edificação”, na medida em que esta evocasse a recordação de algo17. Na medida em que o historiador propôs a construção de uma obra destinada a preservar do olvido a memória dos eventos, expondo-os à apreciação dos leitores, julgamos que o documento (monumentum) liviano partilharia de uma função inerente, sobretudo, aos monumentos edilícios dispostos no espaço urbano ao alcance do olhar de toda a coletividade (MILES, 1995, p.17), ou seja, ambos configurariam mecanismos perpetuadores de res gestae nos interstícios da cultura romana, transmitindo uma representação do passado. Neste sentido, cremos na licitude do emprego da concepção de monumento literário à história elaborada por Tito Lívio, ainda que o autor não a tenha definido explicitamente nestes termos18.
17 Informação fornecida pela Profª Dra. Zélia de Almeida Cardoso, por ocasião do Exame de Qualificação do
presente trabalho, em maio de 2007.
18 Wheeldon (1990, p.57) aprofunda a hipotética ligação entre a obra liviana e os monumentos físicos, avaliando
que as referências efetuadas por Tito Lívio à grandiosidade de sua empresa (como a afirmação tecida no Pref. 4, segundo a qual a história romana seria “tema [...] de obra imensa”), bem como à relevância do material a ser trabalhado (“[...] a história dos feitos do principal povo da terra”, tal qual asseverado no Pref. 3) igualariam a amplitude e o conteúdo da narrativa à construção de uma edificação.