Essa classe descreve as questões sociopolíticas. Enfatiza-se a temática da educação sociopolítica de forma ampla, bem como o papel do Estado por meio das intervenções públicas, dos serviços e dos equipamentos públicos. A distribuição do poder aparece como uma subclasse que descreve a organização popular para a influência em políticas públicas. As relações do macrossistema são abordadas nessa classe e serão contempladas na discussão. Segue a descrição dos resultados dessa classe e suas subclasses: educação e intervenção pública, e poder.
Quadro 09: Classe 6 – Sociopolítica
SOCIOPOLÍTICA CONHECER A PROPOSTA I Papel do Estado; Direitos; Política; Cidadania e Sustentabilidade. Organização popular; Controle social;
Influência em políticas públicas; Ética;
Recursos;
Empoderamento
Na subclasse Educação e Intervenção Pública percebe-se um discurso que remete à preocupação em informar-se para obter resultados voltados ao bem-estar coletivo. Essa educação, por sua vez, contempla uma pedagogia ativa, uma educação participativa e reflexiva em relação à política, aos direitos, à cidadania e à sustentabilidade. Os discursos também apresentam a educação sociopolítica se refletindo nos serviços e intervenção pública.
[…] pela informação abrir precedentes para uma atuação mais coletiva, participativa, política, assim iniciamos uma cultura de atuação mais responsável, engajada, ética e política, fazendo enfrentamento a uma postura mais comodista. (sujeito 13)
[…] meus objetivos são aprender mais sobre controle social, educação popular de direitos, movimentos populares e educação política. Institucionalmente, tais atuações abrem precedentes para iniciativas dos servidores e funcionários para que não foquem apenas em ações individuais, pois elas têm uma abrangência muito menor que atividades com foco na sociedade ou na cultura atual. (sujeito 13)
[…] na área escolar há a dicotomia entre educação/formação privada e pública. No âmbito da economia, a acumulação liberalista de capital e a lógica do consumo e do desenvolvimento sustentável. (sujeito 13)
[…] em equipamentos públicos estamos iniciando também o planejamento de intervenções de resolução pacífica de conflitos em comunidades. Vamos atuar em prol de demandas coletivas, do coletivo, do público ou de ideais. (sujeito 13)
[…] uma das atribuições decorre da missão institucional, do equipamento público, de ser escola de direitos, abrindo possibilidade de palestras e formações para a comunidade. (sujeito 13)
Quanto à subclasse Poder, percebe-se um discurso que remete às questões de organização popular para influência em políticas públicas e garantia de direitos. O coletivo, o empoderamento e o controle social são encontrados na fala dos sujeitos. A reflexão em relação ao comportamento ético, ao direcionamento de recursos públicos e à articulação da rede socioassistencial, também aparecem nessa subclasse, conforme os discursos a seguir:
[…] engajar em políticas públicas além do modelo individual de acumulação de capital e seus interesses, assim como de interesses particulares ou egocêntricos. O centro, a meta, assim seria algo maior como as questões do Estado, a cultura de não violência, a erradicação de preconceito, as políticas públicas, etc. (sujeito 13)
[…] minhas intervenções na comunidade aproximam-se da contribuição para o empoderamento das pessoas ou dos coletivos, comunidades ou entidades, para alcançar tais metas. Do mesmo modo, tentamos criar estratégias para direcionar a instituição para participação em conselhos municipais de direitos. (sujeito 13)
[…] sou contra o cultivo de mono culturas, entendendo-as como interesses pessoais e econômicos, como tentar conseguir recursos financeiros a partir de posturas pouco éticas ou usando a participação para isto. (sujeito 13)
[…] devemos nos articular com a rede socioassistencial, acompanhar e participar de conselhos de direitos tendo em vista a formação para articulação e organização da população, para regulação das políticas públicas e direcionamento dos recursos. (sujeito 13)
4.3.6.1. Ação Sociopolítica: participação e distribuição de poder
Na classe de discurso sociopolítica encontrou-se a temática referente aos elementos sociais e políticos. O papel do Estado, com as intervenções, serviços e equipamentos públicos se fizeram presentes nos discursos dos integrantes da Rede Social Taubaté. Essa classe e/ou conjunto de discursos demonstra a influência das relações do exossistema, conforme mencionado, na classe de discurso 5, e do macrossistema, pontuado pela teoria bioecológica do desenvolvimento humano.
No macrossistema, segundo Bronfenbrenner (2011), encontram-se os protótipos gerais de uma cultura e subcultura que estabelecem o padrão das estruturas e atividades em um determinado nível. Os macrossistemas englobam também os sistemas de valores e crenças culturais submersos em um corpo de conhecimento, recursos materiais, costumes, estilo de vida, estruturas de oportunidades, barreiras, obstáculos e opções no curso da vida.
Os padrões de comunicação e de atividades são regulados por normas, valores e atitudes intrínsecas ao ambiente e que podem possuir peculiaridades e similaridades em cada sociedade. Na subclasse Educação e Intervenção Pública percebeu-se, no discurso dos sujeitos, a preocupação com o bem-estar coletivo que eles pretendem sanar por meio de uma pedagogia ativa, uma educação participativa e reflexiva sobre política, direitos, cidadania e sustentabilidade.
Na subclasse Poder, por sua vez, percebeu-se no discurso dos integrantes da Rede Social Taubaté uma reivindicação de participação por meio da organização popular para influenciar políticas públicas e garantir direitos. Um discurso que se
entende constituir os sistemas de valores e a cultura política do macrossistema social, no qual se inserem os sujeitos e suas comunidades, como evidenciado no significado de participação na visão da psicologia social comunitária, estudado no capítulo 3. Atualmente se vê, com frequência, o uso indiscriminado do conceito de abordagem participativa nos discursos, tanto governamental, como de ONGs e de agências internacionais de desenvolvimento humano e social.
Na maioria desses casos, a participação é vista como uma tábua de salvação, ao permitir a criação de novos canais e mecanismos de relação entre a sociedade civil e a esfera pública. A participação social pode ser considerada um processo de redefinição dos relacionamentos entre o público e o privado, dentro da perspectiva de redistribuir o poder e visando à tomada de decisões e à gestão local. (PERUZZO, 1995; VALLA, 1998; DEMO, 2001; MUÑOZ, 2004; GOHN, 2008; CAMPOS, 2010)
Em escala mundial, conforme influência das relações do macrossistema, organizações envolvidas com a área de desenvolvimento passaram a incluir a participação social como parte fundamental de seus processos. Em decorrência disso, os organismos internacionais de financiamento reforçaram o incentivo à participação comunitária como o meio de alcance do desenvolvimento socioeconômico, porém “numa visão transformadora da sociedade que disfarça relações de poder” (SAYAGO, 2000, p.47).
Cabe um alerta sobre como tais organismos incentivam os países em desenvolvimento a implementar a participação que, em muitas ocasiões, funciona como substituição de responsabilidades. A interferência de agentes externos na orientação das ações coletivas locais é evidente, transformando a chamada participação em estratégia de dominação, e não um caminho ao exercício pleno da cidadania.
A questão do poder também pode ser abordada da perspectiva da autonomia. Peruzzo (1995) afirma que a participação pode ser controlada, e que ocorrer muitas vezes oriunda de pressões sociais, sendo conquistada pelos grupos ou oferecida pelos detentores do poder de uma maneira vertical, de cima para baixo. Nesse caso, é preciso lembrar tanto do apoio educacional da Instituição proponente como do discurso encontrado na subclasse Educação e Intervenção Pública sobre os serviços oferecidos pelo Estado.
Essa participação é oferecida somente até o limite que as instâncias detentoras do poder permitem: até o ponto que não ameace as estruturas de poder
vigente. A participação é manipulada e visa adaptar as demandas aos interesses de quem possui o poder. (FOUCAULT, 1979; PERUZZO, 1995; VALLA, 1998; DEMO, 2001; GANDIN, 2002; MUÑOZ, 2004; GOHN, 2008; CAMPOS, 2010; entre outros).