Durante estes dias, apareceu, também, na capital uma comissão de políticos do PSD de Uberlândia, reivindicando junto ao Secretário de Segurança mais equipamentos e um melhor aparelhamento para a Delegacia da cidade. insistindo, ainda, no envio de mais um investigador para substituir Luiz Dias e, assim, continuar as buscas pelas jóias roubadas no assalto de A Royal, pedido este que foi atendido, sendo enviado o investigador Vicente
Ribeiro Veiga.
Desta comissão participaram: Elpidio Aristides de Freitas (predidente do PSD), Antônio Tomaz Rezende (lº Vice-presidente do partido), Walter Testa (2° vice-presidente
do partido e vereador sob esta sigla), Odilon Custódio Pereira (Presidente do Sindicato Rural), Abalém Moruta (membro do partido), Antônio Fernandes de Oliveira (vereador do PSD) e Gleides Lemos (membro do partido), juntando-se a essa comissão em Belo Horizonte o Deputado Estadual Tubal Viela da Silva (eleito deputado pelo PSD).
Dia 29 de Agosto de 1956 - (Quarta feira)
No dia anterior, retorna da capital o delegado, acompanhado dos dois investigadores Napoleão e Veiga. Neste dia, o carcereiro Filogônio de Alcântara recebeu ordens para que os presos Antônio Valentino e João Relojoeiro fossem entregues aos investigadores para mais uma "diligência de averiguação das jóias".
Segundo os depoimentos do carcereiro, os presos foram retirados da cadeia por volta das 13 h da tarde, sendo conduzidos pelo investigador Napoleão Alves, Vicente Veiga e Roberto Testa (Bebé), que dirigia o carro em "traje de passeio". O carcereiro, considerando aquele procedimento incomum, já que os presos estavam sob a guarda da justiça para proceder o devido julgamento, não justificando uma atitude como aquela em que a polícia administrativa depois de haver encerrado o Inquérito Policial, reiniciar as
buscas no sentido de captura dos objetos furtados, principalmente sem haver uma autorização assinada pelo Juiz de Direito, único capaz de autorizar a saída dos presos. Nesse sentido, Filó procurou o delegado que lhe tranqüilizou. afirmando que havia recebido autorização verbal do juiz para assim proceder. Ainda, com uma certa resistência, o carcereiro telefonou ao Dr. Costa Carvalho para confirmar tal autorização; como o mesmo não se encontrava no fórum naquele momento. Filó foi atendido pelo escrivão que lhe aconselhou a obedecer sem questionar a ordem de seu superior, "que deveria saber o que fazia". O carcereiro cedeu, entregando os presos aos investigadores e a Bebé, e segundo informou em juízo, Antônio Valentino estava em perfeito estado de saúde e João Relojoeiro reclamava de dores pelo corpo e estava com os pés um pouco inchados. Saíram na quarta feira à tarde.
Posteriormente, ficou esclarecido que a autorização verbal do juiz foi acompanhada de conselhos para que o delegado tomasse cuidado com os réus que estavam sob a sua guarda pois caso houvesse qualquer problema, seria ele o responsabilizado e poderia ter que enfrentar esta questão judicialmente.
A caravana seguiu neste dia para a fazenda "Água Limpa'', propriedade de Vadico Bernardes (ex-delegado da cidade e amigo íntimo de Geraldo Malaquias), composta pelos investigadores Veiga e Napoleão. os acusados João Relojoeiro, Antônio Valentino e Roberto Testa em um veículo, e em outro. foram seguidos por Geraldo Malaquias Marques, acompanhado de um empregado, carregando cobertores e mantimentos. Ao que tudo indicava, esta diligência não seria rápida como as outras e poderia durar alguns dias.
Chegaram à fazenda Água Limpa no final da tarde e foram recebidos por Outra, empregado de Vadico Bernardes e .. tomador de conta" do local. Este lugar seria o cenário
dos mais infelizes e atrozes acontecimentos que os réus iriam passar. Antônio Valentino é a testemunha ideal para narrar estes episódios: segundo ele. lá chegando:
º'(..) Bebé pegou em um dos braços de João Relojoeiro e o investigador Veiga no outro. levando-o para dentro da casa; que Bebé entregou o préso aos investigadores, Napoleão e Veiga, que logo passaram a espancá-lo; que o investigador Veiga bateu com um 'rabo de tatú' lá encontrado e o investigador Napoleão com uma revista dobrada; que 'o
samba dêles lá· durou uns vinte minutos; que logo após, o sr.
Bebé ·garrou · e lhe meteu a mão, na cara, tendo caído, Bebé meteu-lhe o pé no braço esquerdo (..) que depois, ainda no mesmo dia, à noite, os investigadores referidos 'arrumou' um cabo de (..) um cabo de enxada. guatambú, e 'pôs' João Relojoeiro no pau de arara. dentro de um quarto, o que viu da porta, onde se achava, em pé (..) que ainda despejaram, água na bôca de João Relojoeiro; que eles mesmos 'diz' que joão Relojoeiro ficou cinco horas no dito pau de arara; que êle, interrogado. durante ditas cinco horas, ficou sentado de castigo; que João Relojoeiro foi tirado do pau de arara lá pelas treis quatro horas da manhã; que, fogo após, deitaram João Relojoeiro numa cama; que foram êle, depoente, e o investigador Napoleão, que carregaram João Relojoeiro para
cama; que êle depoente, também deitou noutra cama, à ordem do investigador Veiga, tendo sido amarrado a João
Relojoeiro. por meio de um corrente: que todas as noites
foram amarrados com dita corrente (..)"
Dia 30 de agosto de 1956 - (Quinta-feira)
Quando amanheceu o dia, foi ordenado a Antônio Valentino que preparasse um
banho de folha de fumo para João Relojoeiro; assim o fez, levando-o para fora da casa
aplicou-lhe o remédio pois estava muito debilitado e não conseguia andar. Depois do
banho, o investigador Veiga ainda deu uma surra em João com pau de mamona. Passadas
duas horas, a vítima apresentava alguma melhora, mas arrastava-se ao chão "como uma
criança". A Antônio Valentino foi dado o direito de se alimentar com umas "raspas" que lhe deram, porém João nada pode comer e nem beber. Na noite deste dia saíram. Veiga e Antônio para pescar nas imediações, sendo que este último estava sempre ameaçado por
uma arma que lhe era apontada.
Dia 31 de agosto de 1956 (Sexta-feira)
Neste dia. João acordara com muita dificuldade de andar e então o investigador
Veiga fez-lhe uma muleta de mamona. João procurou andar amparado, e, segundo Antônio Valentim