A análise consistiu no estudo dos desenhos e histórias, contadas a partir deles, buscando interpretá-los à luz da Abordagem Histórico-Cultural. Tendo em vista a aplicação do método explicativo de Vigotski (1998), evidencia-se a peculiaridade dos fenômenos psicológicos dos sujeitos pesquisados, mostrando que o que está aparente nem sempre é o que originou tais fenômenos; por isso, a análise científica deve ser objetiva, procurando mostrar a “a essência dos fenômenos psicológicos ao invés de suas características perceptíveis” (p.83).
Combinato e Queiroz (2011) corroboram ao afirmarem que a análise desse fenômeno deve abranger o processo histórico e social que o constitui, através do método explicativo, buscando a sua essência e conhecendo as suas origens e as relações dinâmico-causais que o constituem, compreendendo-o em sua totalidade.
Zanella et al. (2007), estudando questões de método em Vigotski, afirmam que, consiste em um processo dinâmico, a transformação do pensamento em palavra; aquilo que é falado, escrito ou gesticulado não corresponde ao pensamento direto que o criou e sofre
mudanças no momento da comunicação. Assim, o pensamento se constitui por meio das palavras e necessita do outro, presente ou ausente. A fala, por sua vez, expressa possibilidades e impossibilidades da comunicação, “(im)possibilidades essas que transcendem as intencionalidades e constituem a arena das interlocuções [...] para o que se diz ou se deixa de dizer” (ZANELLA et al., 2007, p. 31). É preciso ir além das palavras e do pensamento que as motiva na busca da compreensão da linguagem do outro, procurando os sentidos como expressão dialética e histórica.
Para o alcance dessa análise, procedeu-se ao trabalho das transcrições, realizadas pela própria pesquisadora, logo após o término da construção dos dados com as crianças. As gravações foram ouvidas exaustivamente e, a partir daí, foram feitas as transcrições, mantendo em sigilo a identidade dos participantes, tendo sido utilizados nomes fictícios, para preservar a identidade dos mesmos.
A pesquisadora transcreveu em um computador, pelo editor de texto Word, as falas das crianças e dela própria, apoiando-se no diário de bordo, em que foram anotadas reações por parte dos sujeitos e a forma como as crianças se portavam perante a atividade. Essas transcrições seguiram a ordem em que cada criança participou da atividade, e cada uma recebeu um nome fictício.
Enquanto transcrevia, a pesquisadora já buscava relacionar, com as falas das crianças, o que estava mais evidente de imediato com o que também vinha construindo no referencial teórico. Terminadas as transcrições das falas de cada sujeito/participante e, focando nos objetivos de apreender os significados de saúde e o modo como as crianças constroem esses conceitos, procedeu-se à análise dos dados construídos, a fim de responder às questões que guiaram esta pesquisa.
Assim, numa aproximação dos dados construídos durante a pesquisa, foram constituídas unidades de análise, definidas a partir das relações entre temas das falas das crianças, os referenciais da promoção da saúde, e os temas trazidos por Vigotski.
Ao longo da análise dos dados, procurou-se apresentar as falas das crianças bem como seus desenhos, discutindo a significação e a formação dos conceitos sobre saúde realizados pelas mesmas. Dessa forma, algumas considerações sobre o desenho em Vigotski e em outros autores que o corroboram auxiliarão a entender a análise.
Ferreira (2001), ao explicar a análise do desenho segundo a teoria histórico-cultural, ressalta que essa abordagem vê a criança como simbolista; portanto, seu desenho indica a necessidade que possui em fazer significações sobre os objetos, figurando o maior número de traços possível. Desse modo, ao analisar esse processo, é permitido a quem analisa uma
leitura que ultrapassa as objetividades das figurações, de forma a considerá-las como indicadoras de vestígios e não como representações exatas do objeto, visto que as crianças desenham aquilo que conhecem e não o que estão vendo.
As figuras desenhadas têm significados atribuídos pela criança/autora, apresentam indícios dos objetos e não a exatidão de suas formas. Assim, a criança desenha para significar seu pensamento, sua imaginação, seu conhecimento, criando um modo simbólico de objetivação de seu pensamento. [...] sua figuração procura explicitar seu pensamento, traz implicados significados e sentidos, e essa possibilidade está inexoravelmente articulada à palavra. [...] Portanto, a palavra perpassa todos os momentos de produção do desenho. [...] As figurações evocam imagens, provocam significações (FERREIRA, 2001, p. 104).
Aielo-Vaisberg (1995) aproxima-se da Abordagem Histórico-Cultural quando enfatiza que os procedimentos de pesquisa não devem apenas propiciar a apreensão dos dados, mas também permitir mudanças no sujeito pesquisado, a partir de sua própria elaboração reflexivo-vivencial. O estudo das significações dos sujeitos de uma pesquisa acerca de um tema de interesse investigativo, como a saúde na concepção de crianças, deve preocupar-se com os processos mentais pelos quais o sujeito significa esse tema, a partir de suas relações e da mediação que estabelece com outros sujeitos de sua cultura. Essa proposta está em concordância com o referencial teórico deste estudo que aponta a ressignificação de conceitos pelos sujeitos, a partir de suas próprias vivências lembradas e registradas, no decorrer da construção dos dados da pesquisa.
No entanto, a característica de “diálogo lúdico” conferida às técnicas projetivas, como o D-E com Tema é destacada não só no instante de sua aplicação, mas também na interpretação que o pesquisador faz, em que a teoria à qual se funda “é vista como uma construção possível neste momento, como produto de trabalho humano que pode facultar uma aproximação esclarecedora da complexidade fenomênica [...]” (AIELLO-VAISBERG, 1995, p. 121).
Ainda segundo Aiello-Vaisberg (1997), pela versatilidade do procedimento de D-E com Tema, é possível tratar e analisar os dados construídos ao longo da pesquisa, a partir de outros referenciais teóricos que não a psicanálise, como foi originalmente concebido. O importante, nesta pesquisa é apreender como as crianças significam saúde, a partir de sua construção dos conceitos sobre esses temas no contato com outros sujeitos de sua cultura.
Portanto, segundo Ferreira (2001):
Interpretar o desenho da criança implica considerar os múltiplos fatores constitutivos de seu conhecimento, de sua figuração e de sua imaginação. [...] O desenho da criança é o “lugar” do provável, do indeterminado, das significações. Estas se tornam múltiplas e indefinidas pela própria possibilidade de interpretação (p. 105).
A partir dessas considerações, as histórias e os desenhos foram organizados por unidades temáticas, analisados, segundo o método explicativo de Vigotski (1998), e interpretados a partir do olhar histórico-cultural.