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A questão da integração dos Sistemas de Orientação Apoiados por Computador nos serviços de intervenção vocacional é polémica e complexa. É uma problemática em torno da qual se debruçam muitos dos autores que se interessam pelo desenvolvimento destes sistemas, sendo que nenhum apresenta para esta questão uma resposta simples ou linear. Apesar dos diferentes contributos prestados por cada um dos autores, há um aspecto em relação ao qual as suas opiniões não se distinguem: os Sistemas de Orientação Apoiados por Computador podem ser usados de diversas formas.

Sampson (1997b) definiu a Orientação Apoiada por Computador como sendo “um sistema integrado por um conjunto de subsistemas inter-relacionados de

avaliação, elaboração de opções e disseminação de informação, frequentemente acoplados a processos de consulta e vários recursos escritos, que são usados no seio de uma organização, para apoiar os indivíduos a tomar decisões, bem como a promover a sua capacidade para tomar decisões no futuro” (p. 2).

Assim, para este autor, os Sistemas de Orientação Apoiados por Computador, constituem-se como um recurso que, a par de outros, como sejam os recursos escritos e os processos de consulta, podem ser utilizados pelos profissionais com o objectivo de apoiar os clientes no processo de tomada de decisão.

Por sua vez, segundo Watts (1986; in Gati, 1996), os Sistemas de Orientação Apoiados por Computador podem assumir três papéis, no seio dos serviços de orientação: a) constituir uma ferramenta de trabalho para os profissionais da orientação, b) substituir os profissionais de orientação e c) serem um agente de mudança que estimula melhorias na teoria e na prática vocacional.

O uso dos Sistemas de Orientação Apoiados por Computador pode ocorrer no contexto de uma consulta, devendo contar, neste caso, com a presença de um profissional da orientação. Os Sistemas de Orientação Apoiados por Computador podem ser utilizados, também, a título individual, por um cliente, sem que este tenha recorrido a uma ajuda mais personalizada. Em qualquer dos casos, a utilização destes sistemas tem sempre como fim último o apoio à tomada de decisão, seja através do fornecimento de informação, seja através do apoio dado aos clientes no domínio do próprio processo de tomada de decisão (Gati, 1996).

Embora alguns Sistemas de Orientação Apoiados por Computador tenham sido construídos de forma a serem utilizados sem o apoio de um profissional, muitos especialistas no uso destes sistemas advogam as vantagens da sua integração em sistemas mais compreensivos (Taveira, 1987; Gati, 1996; Rayman, 1990; Watts, 1996a, 2001).

Taveira & Campos (1989) defendem a utilização destes sistemas preferencialmente em contexto de consulta, particularmente, na consulta psicológica individual. No entanto, a consulta psicológica de grupo, os seminários de orientação vocacional, as actividades em sala de aula e a própria auto-administração também se constituem como contextos de utilização dos Sistemas de Orientação Apoiados por Computador.

Watts (1996a) apresenta, a este propósito, quatro modelos de integração dos Sistemas de Orientação Apoiados por Computador: Independente, Apoiado,

Incorporado e Progressivo. O primeiro modelo consiste na utilização dos Sistemas

de Orientação Apoiados por Computador sem integração com nenhuma outra forma de intervenção. No segundo modelo, o Apoiado, o cliente é visto, geralmente, por um breve período de tempo, antes e/ou depois de ter usado o sistema. No modelo

Incorporado, o sistema é usado com outro tipo de intervenção, no contexto de

consulta, em que o cliente e o profissional trabalham com o sistema, lado a lado. Embora este modelo possa ser muito eficaz, também implica que, em vez de reduzir o tempo que o cliente passa com o profissional, o aumente, o que eleva, de certa forma, os custos em termos de tempo, investimento e dinheiro, por parte do cliente e do profissional. No quarto modelo, o Progressivo, o uso do sistema é precedido

e/ou seguido de outras intervenções, entrevistas, sessões de grupo e intervenções baseadas na experiência, respeitando uma sequência desenvolvimental.

A opção por um destes modelos reflecte a política adoptada por parte das pessoas responsáveis pela administração e organização dos serviços de orientação. Se a política for na linha da prestação de serviços ao menor custo, então, o modelo adoptado será, certamente, o Independente. Se a preocupação é prestar o apoio necessário aos utilizadores, de forma a aumentar a possibilidade de este realizar um processo de tomada de decisão bem fundamentado, então, a opção será por um dos outros modelos. No caso dos modelos Incorporado e Progressivo, estes têm a vantagem de maximizar a relação custo-benefício quando são utilizados em intervenções em grupo e de potenciar a criação de sinergias entre os diferentes recursos e serviços existentes, o que será possível graças a uma integração sistemática dos Sistemas de Orientação Apoiados por Computador nos serviços (Sampson, 1997a).

Na tentativa de contribuir para a adequação do tipo de modelo a adoptar em função de cada contexto em particular, vários autores salientam a importância de avaliar o nível de prontidão dos clientes no que concerne à sua capacidade para usufruir de uma intervenção apoiada por computador (ex. Alston & Burkhead, 1989; Dungy, 1984; Harris-Bowlsbey, 1985; Peterson, Sampson & Reardon, 1991; Sampson & Pyle, 1993; Walz & Benjamin, 1984).

A este propósito, Peterson, Sampson, Reardon e Lenz (1997, in Sampson, 1997b) defendem que, para obter uma maior rentabilização destes sistemas, há que adaptar a sua forma de utilização às características dos clientes, nomeadamente, no que respeita à sua prontidão para a tomada de decisão, isto é, à capacidade cognitiva e afectiva de um indivíduo para encetar um processo de tomada de decisão. Estes autores advogam a necessidade de realizar, antes de qualquer processo de orientação, uma intervenção diagnóstica (ex. através de entrevista), que permita avaliar as características do cliente e, em função disso, escolher a intervenção mais adequada.

Assim, quando um cliente apresenta um elevado nível de prontidão para a tomada de decisão, os serviços prestados podem ser de auto-ajuda, sendo dado

apoio individualizado apenas no caso de ser requerido pelo sujeito. Se a entrevista inicial demonstrar que o indivíduo tem um nível de prontidão para a tomada de decisão moderado, então, é provável que o sujeito necessite de uma intervenção individualizada, breve, pelo menos antes e depois da utilização do sistema. Quando os indivíduos acusam um baixo nível de prontidão para a tomada de decisão, é recomendável uma intervenção altamente individualizada, em que o indivíduo é acompanhado durante a utilização do sistema, até que este seja capaz de o utilizar de forma mais autónoma ou, então, deve ser feito o encaminhamento do indivíduo para outro tipo de intervenção (ex. consulta psicológica) (Sampson, 1997a; Sampson & Reardon, 1997, in Sampson, 1997b).

Neste sentido, Sampson (1997a) propõe um modelo de intervenção que pretende servir de estrutura aos modelos de integração dos sistemas referidos por Watts (1986a), o Apoiado, o Incorporado e o Progressivo. O autor pretende que, através da utilização deste modelo de intervenção, se assegure que a utilização dos Sistemas de Orientação Apoiados por Computador seja adequada a cada um dos clientes (Diagnóstico), que os clientes tenham uma visão realista dos benefícios, limitações e funcionamento do sistema, tendo em conta as suas necessidades (Orientação) e, por fim, que usem o sistema de forma adequada, tendo respondido às suas necessidades iniciais e elaborado um plano de acção para o futuro (Seguimento).

A literatura parece unânime em afirmar que um modelo integrado, aquele em que os Sistemas de Orientação Apoiados por Computador são utilizados como complemento de um outro processo de intervenção (ex. consulta psicológica vocacional), é o modelo mais eficaz (Garis & Bowlsbey, 1984; Taveira & Campos, 1989). No entanto, segundo Rayman (1990), a adopção deste modelo é escassa. Este autor, sendo um defensor da integração, apresenta algumas razões que, segundo ele, explicam o facto de raramente os Sistemas de Orientação Apoiados por Computador figurarem, de uma forma integrada, nos serviços que prestam apoio vocacional.

Em primeiro lugar, os Sistemas de Orientação Apoiados por Computador podem ser, facilmente, vistos pelos administradores como uma forma de “alargar” os recursos sem aumentar as despesas com o pessoal. Um computador ocupa menos

espaço, não coloca problemas, nem faz exigências. Este tipo de pensamento leva, muitas vezes, a assumir-se que a implementação de um Sistema de Orientação Apoiado por Computador apenas implica a sua existência. Quando isto acontece, não raras vezes, os sistemas acabam por ser esquecidos, até pelos próprios alvos da intervenção, e os computadores acabam por ser utilizados para outros fins (ex. processamento de textos, jogos, entre outros). De facto, o sucesso de um sistema desta natureza passa, em boa parte, pelo comprometimento e pelo empenho que as pessoas que trabalham com ele colocam na sua aplicação. O sucesso de um Sistema de Orientação Apoiado por Computador exige o dispêndio de muito tempo, energia e dedicação por parte dos profissionais responsáveis pela sua implementação.

Por outro lado, os próprios profissionais de orientação resistem, muitas vezes, ao uso dos sistemas, defendendo que o processo de consulta é um processo eminentemente humano, não podendo ser feito através de uma máquina. Estes profissionais chegam a sentir-se ameaçados pelo facto de o computador ser mais eficiente na realização de algumas tarefas do que eles próprios. Esta dificuldade pode ser ultrapassada se esta temática for incluída nos planos de formação destes profissionais.

Uma outra razão apontada por Rayman (1990), prende-se com os custos associados à implementação e manutenção de um Sistema de Orientação Apoiado por Computador. Apesar dos custos associados serem, normalmente, muito mais baixos do que seria de esperar se os mesmos conteúdos fossem difundidos através de consulta psicológica (individual ou de grupo), muitas instituições optam por uma via ainda mais económica: não prestar nenhum tipo de serviço. Este é o caso de muitas escolas e de outras instituições que, supostamente, deveriam prestar algum tipo de intervenção vocacional aos seus beneficiários.

Um outro aspecto apontado por Rayman (1990) como sendo uma causa da relativa falta de sucesso na implementação dos Sistemas de Orientação Apoiados por Computador, diz respeito à falta de assistência pós-venda por parte das entidades que desenvolvem os sistemas. Embora esta realidade tenha melhorado com o passar do tempo, muitas vezes não é dada qualquer formação sobre o funcionamento dos sistemas ou sobre possíveis estratégias de integração dos

mesmos, numa política mais abrangente de prestação de serviços integrados, o que leva as próprias instituições a descurarem este aspecto.

Assim, apesar dos autores serem unânimes na convicção de que a utilização dos Sistemas de Orientação Apoiados por Computador beneficia, claramente, da sua integração em serviços de intervenção já existentes, sendo, simultaneamente, importante o acompanhamento por parte de profissionais especializados no domínio da intervenção vocacional, a realidade parece estar, ainda, um pouco aquém do desejável. Este facto deve-se quer a factores de cariz económico, quer a algum desconhecimento que parece existir quando se trata da utilização deste tipo de recursos em prol da intervenção psicológica vocacional. Estes dados justificam, por si só, a necessidade de investigar e divulgar os contornos que caracterizam a utilização do computador na Psicologia Vocacional.

3.5. Benefícios e Limitações dos Sistemas de Orientação Apoiados por