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5 PRESENTASJON AV ELDRE GENERASJON

5.1. Eldre generasjon A og B

5.1.7 Aktelsesforhold: Forventninger og håp for gården

1- As implicações histórico-sociais do riso no Teatro Contemporâneo: o retorno das festas carnavalescas

Já que estamos falando de dramaturgia, convém pormos em pauta o lembrete de que o teatro medieval tem como mestre o teatro grego e toda a filosofia deste, motivo que nos obriga, ao abordar agora a face histórica do riso, a retomar a origem deste para depois estabelecermos o encadeamento com o significado que se produz nos séc. XII e XIV.

O primeiro contato que se tem do riso é com a mitologia. Os deuses riram, e os homens nasceram. Tal acontecimento é bastante narrado em mitologias de povos do Oriente Médio quanto a essa questão do mito da divindade e da gênese do universo. É o caso do riso ritual da antiga Fenícia, usado no sacrifício das crianças; no Egito, durante a colheita do Nilo, os sacerdotes dão intensas risadas para saudarem o ganho obtido com o próprio trabalho (MINOIS, 2003, p. 21 – 23). O principal objetivo disso está no desejo de crer num futuro mais promissor, o qual possa adiar o prenúncio da morte, alimentando igualmente o gosto pela vida. A recorrência aos mitos gregos só demonstra a incerteza quanto à verdadeira origem do riso, o que leva o mundo ocidental, por ausência de métodos científicos bem mais precisos, a buscar explicações no divino, no sobrenatural. Resultado: acaba se deparando com mais questionamentos do que respostas.

A produção do riso através do mito pode ser vista também sob a perspectiva do profano. Este não se separa do sagrado em hipótese alguma, o que faz qualquer um pensar que parte dos fenômenos históricos e científicos, possíveis causas da existência dos seres humanos na Terra, tenham fundamento, se articulados à outra parte, a abstracionista. Mas, nesse caso, o ato de rir, quando ocorre, promove mais uma volta à vida profana; e a atmosfera divina é por completo esquecida, ou seja, todos os limites que ela impõe à humanidade são ultrapassados em prol de uma maior liberdade de ação e pensamento na busca das verdades que regem o cotidiano. Acontece que nos homens a risada tem um preço: assumindo uma forma incontrolável, conduz à loucura, pois frágeis como são deixam o riso dominá-los instantaneamente. Com os deuses, senhores

dessa força ilimitada, não existem conseqüências avassaladoras. Tudo isso quer dizer que, segundo a mitologia, o riso dos deuses não tem entraves e desencadeia-se de forma ritualística, revelando um significado violento, deformador e sexual ao julgar a moral uns dos outros. Assim, é também forte a sua associação à obscenidade e ao retorno da vida, caracterizando o seu lado divino como inquietante. Para que o homem possa levar uma existência tranqüila, em alguns momentos, o seu riso precisará se afastar um pouco dessa inquietação divina; caso contrário, correrá o risco de se sentir obrigado a conhecer a fundo certos mistérios que envolvem o além e o futuro, e essas explicações fogem inteiramente ao alcance de sua condição humana.

O riso surgiu com os deuses nos mitos gregos, porém, tamanha alegria não é pura nos mortais. A consciência da morte supre uma parcela de energia destinada a ele, porque desperta intuições sobre o desconhecido, ou, para todos, o nada. É claro que essa idéia do riso associado ao fim é relativa em certas culturas. Tem-se um bom exemplo na Trácia, onde se comemora a morte com entusiasmo e boas doses de hilaridade, ao passo que o nascimento é celebrado com tristeza (MINOIS, 2003, p. 27). Viver é sempre sofrer, e o alívio chega após o fim de tudo. Na Sardenha, no séc. III, ria-se durante os sacrifícios, assim como na antiga Fenícia, quando os pais sacrificavam os próprios filhos. Daí, possivelmente se colha a justificativa para a denominação riso sardônico, muito cultuada inclusive em alguns textos literários gregos, dentre os quais, a Odisséia, de Homero, como no episódio em que Ulisses, ao livrar-se do golpe de projétil lançado por Ctésipo, zomba do próprio ferimento.

Esse tipo de riso é inquietante e preocupa muito mais em função de seu sentido indeterminado. Por desconhecer-se o porquê de sua atuação, ele provoca mal- estar, ausência, como se trouxesse em si um presságio ameaçador sobre a condição humana. Vítima dele, o homem sente-se prisioneiro do que supõe ser algo vindo do além, do outro mundo, por causa da imprecisão passada. O sarcasmo com o qual João Grilo em Auto da Compadecida, chamando o Encourado de “promotor, sacristão, cachorro e soldado de polícia” e enfrentando situações muito temidas do outro lado da vida, sustenta bem a lógica do cômico como questionador de toda uma crendice em torno do tema da morte. Farsa da Boa Preguiça coloca-se, outrossim, na mesma posição ao exibir no último ato o poeta e protagonista Joaquim Simão à frente de um

pequeno exército de diabos, lutando contra os seres demoníacos pela salvação cristã do mundo. A Pena e a Lei retoma a estética da morte, pondo os personagens mortos se comunicando num jargão científico às avessas, risível, e cuja escatologia comprova o fim de cada um por culpa do outro. A necessidade de que o Cristo morra mais uma vez parece evidente nessa passagem do texto, posto que os homens continuam se matando competitivamente em total ignorância às lições dos Evangelhos. Assim, o papel da justiça na terra acaba perdendo em credibilidade para a justiça de Deus.

A performance do mito com um sentido profano na formação do riso se fortifica a partir das festas que a iluminam com maestria. As festividades populares encenam os mitos que acabam se inserindo na consciência do povo. Na Antiga sociedade grega, as celebrações dionisíacas, as bacanais (festim em honra do deus Baco), as panatenéias (estas, em Atenas, em honra da deusa Palas Atena, padroeira da cidade) e demais festas de cunho religioso serviam para a reatualização dos mitos e lendas, respeitados pelos que os ouviam apreensivos. Em seguida, tinha-se uma mascarada que encantava a todos com sua tentativa de manter o ilusionismo ou a magia da estória contada. Novos rituais aparecem e passam a fazer uso da prática da inversão, através da qual as hierarquias e convenções sociais tinham seus valores invertidos. Os excessos e normas eram combatidos, e tudo virava uma verdadeira desordem em detrimento de uma nova ordem sociocultural, além da renovação do contato com o plano divino. É para isso que o riso entra em cena.

Se for verdade que o riso garante a guarnição dos deuses por simbolizar a volta ao caos e, depois da orgia, a criação do novo mundo, será discutindo o escárnio existente por trás da gritaria, as danças, os cantos e demais brincadeiras, que se verificará, ademais, como se instalará o processo de tal desordem. A conversa entre os clérigos e os seres celestiais em Auto da Compadecida se desenrola de maneira bem humorada, com ofensas ao Encourado e até mesmo pondo em dúvida a legitimidade da verdadeira raça à qual pertenceu o Cristo. Na seguinte cena, confirma-se tal argumentação quando os mortos da cidade de Taperoá, após serem fuzilados pelos cangaceiros, ficam petrificados com a aparição do filho de David. Já, no terceiro ato, ao requerer um autêntico tribunal de apelação, João Grilo trava diálogo com Manuel, e o tom dele gera o riso festivo:

JOÃO GRILO

Apesar de ser um sertanejo pobre e amarelo, sinto perfeitamente que estou diante de uma grande figura. Não quero faltar com o respeito a uma pessoa tão importante, mas se não me engano aquele sujeito acaba de chamar o senhor de Manuel.

MANUEL

Foi isso mesmo, João. Esse é um de meus nomes, mas você pode me chamar também de Jesus, de Senhor, de Deus... Ele gosta de me chamar de Manuel ou Emanuel, porque pensa que assim pode se persuadir de que sou somente homem. Mas você, se quiser, pode me chamar de Jesus. JOÃO GRILO Jesus? MANUEL Sim. JOÃO GRILO Mas, espere, o senhor é que é Jesus?

MANUEL Sou.

JOÃO GRILO Aquele Jesus a quem chamavam Cristo?

JESUS

A quem chamavam, não, que era Cristo. Sou, por quê? JOÃO GRILO

Porque... não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era menos queimado.

BISPO Cale-se, atrevido.

MANUEL

Cale-se você. Com que autoridade está repreendendo os outros? Você foi um bispo indigno de minha igreja, mundano, autoritário, soberbo. Seu tempo já passou. Muita oportunidade teve de exercer sua autoridade, santificando-se através dela. Sua obrigação era ser humilde, porque quanto mais alta é a função, mais generosidade e virtude requer. Que direito tem você de repreender João porque falou comigo com certa intimidade? João foi um pobre em vida e provou sua sinceridade exibindo seu pensamento. Você estava mais espantado do que ele e escondeu essa admiração por prudência mundana. O tempo da mentira já passou.

JOÃO GRILO

Muito bem. Falou pouco mas [sic] falou bonito. A cor pode não ser das melhores, mas o senhor fala bem que faz gosto.

MANUEL

Muito obrigado, João, mas agora é sua vez. Você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça? (SUASSUNA, 2001, p. 146 – 149)

Ficou claro que o objetivo da risota aí é reordenar o planeta, promovendo a reintegração do homem à sua própria espiritualidade. Trata-se de um breve rompimento com o corriqueiro, o comum, o que põe o sujeito longe do profano e em contato com a dimensão dos deuses e dos demônios, ambos guardiães de nossas vidas. Não se discute, pois, o retorno às origens para que os indivíduos possam relembrar sua verdadeira missão na Terra, regenerando-se e livrando-se da ruína que sua condição humana pode sofrer. A coletividade dos rituais festivos, acrescentada à comicidade, faz o indivíduo sair de si, permitindo-se participar da festa coletiva e romper com o conformismo. A maior libertinagem desse sentido ritual do riso se dá porque as divindades exigem dos homens maior desapego ao que lhes é imposto pelas comunidades e demais organizações territoriais, instituídas ao longo dos milênios. Chega a um ponto dessas aglomerações em que certos padrões de convivência precisam abandonar os excessos, conforme já discutido; do contrário, aqueles, que não mostrarem sua abnegação a eles, poderão sentir a ira dos deuses. A repreensão de Manuel ao bispo, no fragmento anterior, condiz com tal influência, uma vez que dirigir-se amigavelmente ao amarelinho Grilo e apoiar a postura íntima com que este o tratara é, no mínimo, um reconhecimento pela personalidade inconformista do pobre sertanejo à procura de dias melhores. Aliás, brincadeiras de caráter festivo, diálogos que mais lembram pilhérias, acompanharão todo o julgamento celestial, desenvolvido no decorrer do último ato da peça.

Para se entender que o poder e a magia do riso vão além de um mero folguedo coletivo, há que se conhecer o figurativismo da mascarada grega, também

influenciadora do burlesco e do popular. Esta tem vários sentidos; como por exemplo, o de alteridade. Tudo consiste em fazer-se passar por outro durante a celebração da praça pública para realizar-se um autoconhecimento. Uma máscara que caricatura alguém na qualidade de tipo social, redargüindo algumas vezes a hierarquia política, configura seu efeito de máquina do riso. É notável aí o que Ariano Suassuna constrói no personagem Manuel, apresentando-o desmistificado da visão renascentista que considera Jesus uma pessoa de pele branca. Mudando a cor da epiderme, o Cristo põe em discussão o tema do racismo enquanto problema cultural sério e conduz todo o tribunal a condições, nas quais os outros personagens, através de suas caricaturas expostas pelo diabo e por João Grilo, venham a tomar ciência do que foram em vida. O riso, então, exorciza a desordem plantada pelas imperfeições humanas e depois promove o nascimento de uma nova ordem. Tanto isso é verdade que a Compadecida reforçará, logo depois, esse alter- ego dos condenados, e a história acaba se encaminhando para o perdão de todos os pecados.

Outro aspecto interessante que define o riso da mascarada ou festa coletiva é o uso da agressividade. No entanto, é preciso não se pensar nesta ligada à gargalhada estrondosa como puro antagonismo que, porventura, viria a ser tachada, caso se falasse em ação trágica. No cômico, a agressão é usada para libertar-se a brutalidade bestial que existe em cada um de nós. É assim que agem as pessoas com suas máscaras, quando estas são também de animais, representando a renúncia ao proibido. A hostilidade seria uma necessidade vital para o homem vencer a força das limitações que o mundo de certa forma lhe impõe. Mascarado, no total anonimato, tem a chance de sacrificar o injusto, purgando-se dos vícios corruptores, e aproximar-se do divino. Na verdade, percebe-se aí um ritual carregado de muita alacridade em que riso e violência se complementam, a fim de que haja um melhor controle do nosso instinto violento, liberando um convívio social mais satisfatório.

Partindo dessa linha da festa coletiva, é conveniente detalhar-se a simbologia que esta denota ao riso popular desde civilizações antigas, a começar por Roma com as suas Saturnais, festas feitas em honra do deus Saturno, e as Lupercais, celebradas em 15 de fevereiro em honra do deus Luperco ou Pã, para assegurar a fertilidade. Rir nelas era indispensável, porque a pretensão estava em pregar o regresso a um tempo mítico feliz,

em que a união e a igualdade entre os povos pudessem prosperar. Para que esse fim fosse atingido, todos os rituais, consoante explanações anteriores, necessitavam de uma inversão de valores, ou seja, tudo deveria ocorrer ao contrário. Isso implicava: luzes artificiais acesas durante o dia; homens vestidos de mulheres; a louvação a um sol à meia-noite; subordinados dando ordens a seus patrões e, sobretudo, o emprego de uma linguagem, cujo vocabulário deveria conter palavras de efeito cômico. O riso toma toda a comemoração, movido por obrigatoriedade. O seu combustível, é claro, está também na licença para o evento ritualístico acontecer, na inversão, nas máscaras e no vinho. Nas Saturnais, a risada cuida apenas em reviver o lado ilusório da vida, evadindo-se do mundo real, interrompendo o tempo deste. Com base nessa informação, o entendimento é de que o ato de rir seleciona os simpatizantes com a festividade, excluindo os que se opõem a ela. Como diz Minois, ainda em seu trabalho História do Riso e do Escárnio, no capítulo 3, que fala do riso satírico e grotesco: “É preciso sugá-los, lambuzá-los, zombar deles, submergi-los no riso dissolvente” (2003, p. 99).

Diferente das Saturnais, cujo riso visa à volta a uma época harmoniosa e pacífica, nas Lupercais, a finalidade dele está no renascimento de uma vida nova. Enquanto se submetem a rituais excêntricos, os participantes são invadidos por uma explosão de jovialidade, significando o renascer para um novo tempo da existência, totalmente revigorado, conforme ensina a tônica do evento. É plausível o motivo de que o renascimento do riso nas Lupercais tenha se composto a partir dos mitos gregos. Vem daí o conceito de reatualização dos mesmos que deixa o poder político pouco à vontade para atuar. À medida que os folguedos ganham tamanho durante as celebrações, as autoridades têm seu poder de ação limitado, sem conseguirem conter as conseqüências do espetáculo. Mas este, consciente do exagero que pode causar, controla a si mesmo, promulgando um regulamento que assenta regras para a realização dos entretenimentos típicos. Um exemplo está no fato de ele ter uma cronologia fixa, a qual se resume a alguns dias da semana e procura, como já exposto, ignorar a ordem existente, condenando-a ao fim.

O retorno mítico, efetivado para representar-se o mundo ao avesso, não só elimina o supérfluo, como garante a manifestação das vontades reprimidas. Nas festividades populares, tudo é permitido, desde que o teor da diversão não ultrapasse as

fronteiras do estabelecido. O rei é a autoridade no período festivo a ser destronada; rejeitando-o, rejeita-se a ordem. Naturalmente que aí está imersa a concepção de negar a hierarquia sociopolítica e a reorganização do real. A moralidade na superfície desse ponto de maior realce da festa é bem trabalhada por Suassuna em Farsa da Boa Preguiça, ao termos ali as alegorias dicotômicas entre a riqueza e a pobreza. No final da peça, a segunda recupera seu lugar de destaque no centro da grande celebração à cultura do povo, muito marginalizada, expulsando do trono a cultura opressora e preconceituosa dos dominantes fazendeiros, os autênticos reis cômicos executados pelos demônios. Depois de tudo, o bem-estar social e a ordem do universo se rejuvenescem, como se o respeito aos instintos humanos e a correção da excessividade finalmente resolvessem o problema do não-reconhecimento do espaço das camadas mais carentes no processo histórico de um país ou comunidade.

E por falar em festas, é importante frisar que o riso veste o manto paródico, ou seja, já na Idade Média encontra o sentido de paródia. A razão dessa metamorfose está no próprio contexto histórico da Europa dos séculos XII e XIII, marcada pela procura de sua estabilidade social. Num quadro geopolítico caótico, no qual a guerra, a indigência e as doenças aterrorizam a população, o fim da vida está cada vez mais perto de abraçar o homem, fazendo com que a sociedade encare os valores e a confiança nos seus governantes como um enorme folguedo infantil. É quando a gargalhada passa a incorporar o perfil do jogo. Por meio das festividades, os povos medievais copiam as hierarquias e valores fundamentais e os deformam. O desejo está não na contestação dos mesmos, mas em preservá-los, invertendo-os num longo ritual burlesco.

O carnaval, o dia dos bobos, a festa do asno ambientam o riso, vivificando-o. Ora, estas são comemorações de caráter popular, sem qualquer tipo de formalidade ou influência da cultura oficial, isto é, toda a arte modelada pelos padrões estéticos clássicos, ensinados pela aristocracia do momento. O talento popular em si é deixado de lado pela maioria dos estudiosos, que desconsideram o humor do povo na praça pública e o folclore como dignos de alguma representatividade histórico-cultural. Porém é preciso enxergar o aspecto cômico da cultura popular tal qual uma unidade de estilo que não sofre divisões, em especial, o estilo carnavalesco. Sem prender-se a toda a normalização da cultura erudita, os ritos, as categorias e os diversos personagens

cômicos, integrantes das celebrações públicas, compõem a cultura cômica popular. Analisaremos cada uma das seguintes categorias para a construção do riso na dramaturgia suassuniana: as formas dos ritos e espetáculos e os diferentes feitios e gêneros do vocabulário familiar e grosseiro.

Nos ritos e agremiações carnavalescas, o ato de rir era companheiro de todas as cerimônias civis ou religiosas do cotidiano. Certos ritos com a participação de bobos e bufões eram parodiados, e uma eleição para a escolha de vencedores de corridas, cavalgadas e outros torneios articulava toda a organização cômica do festejo. Reis e rainhas, excentricamente caracterizados, intensificavam a risota. O que mais impressionava na Idade Média era o fato de essas solenidades erguerem um novo mundo paralelo, onde tudo funcionava diferente daquilo que se edificava no ambiente palaciano, oficial. Uma outra vida submerge, e dela poder-se-ia extrair a “dualidade do mundo” para o claro entendimento da periodização da história da cultura européia, desde a “Idade das trevas” até o Renascimento. Logo que estivermos com esse material seqüenciado no tempo e no espaço, seguiremos a sua apreciação no gérmen do texto de Suassuna, que é representante das repercussões da medievalidade na cultura brasileira e nordestina. Voltando cronologicamente o olhar para o passado, a “dualidade do mundo” surpreende por ser uma herança ritualística das civilizações primitivas, e o folclore delas convive lado a lado com as cerimônias sérias das igrejas, aliadas ao Estado.

Em nada, é claro, os rituais carnavalescos da Idade Média se parecem com as cerimônias religiosas da liturgia cristã, celebradas nas igrejas; antes diferem por seu gênero paródico, para que a comicidade não se perca ao longo do espetáculo de rua. A mística dogmática é ignorada, bem como a magia e o encantamento do culto religioso. Localizam-se numa dimensão paralela às fronteiras da Igreja e do Estado,