5 Litteratur
5.2 Samfunnsansvar
5.2.1 Aktørbildet i et teoretisk perspektiv
Se, como visto, a bibliografia que se ocupa de Manoel Joaquim de Macedo por vezes apresenta pontos conflitantes, todas as fontes são unânimes em registrar os estudos do compositor no prestigiado Conservatório de Bruxelas. Essa informação, todavia, não se sustenta quando contraposta a fontes primárias de documentação. Não há absolutamente nenhum registo de Macedo nos arquivos do Conservatório Real de Bruxelas. É certo que, do período em que o compositor supostamente lá estudou, a instituição não possui mais os registros de matrícula dos alunos – estes foram perdidos e só constam a partir de 1876. De todo modo, há diversas outras maneiras de confirmar sua passagem por lá. Uma delas é conferindo a lista de alunos presentes aos exames finais. Estes constam de livros que trazem detalhes das provas de cada ano, separadas pelo instrumento e por matérias teóricas. Durante nossa pesquisa em Bruxelas, examinamos 11 volumes de “Examen” correspondentes aos anos de 1860 à 1871. Em cada um desses volumes, foram confrontadas não apenas as classes de violino como também as de leitura musical, solfejo, harmonia e contraponto.
Também foram examinados os três tomos da “Composition de la Comission
Administrative & Comission de Surveillance” correspondentes aos anos de 1832 à 1870. Trata‐se de uma espécie de ata resumida, com todos os assuntos discutidos em cada reunião dessas comissões. Entre outros temas, elas se ocupavam da admissão de alunos estrangeiros: todos os alunos não‐belgas que pleiteavam uma vaga no Conservatório tinham seu nome, sobrenome e nacionalidade anotados e discutidos. Uma vez aprovado, o nome do aluno voltava a aparecer em reunião posterior. Nessa documentação, o nome de Macedo igualmente não foi encontrado. A biblioteca do Conservatório também não possui partituras (editadas ou manuscritas) do compositor.
A reforçar estes dados – ou melhor, a ausência deles – uma consulta a diversos volumes do “Conservatoire Royal de Musique de Bruxelles – annuaire pour l’année
scolaire”44, correspondentes ao período em que Macedo teria estudado na instituição, não
traz em seus diversos documentos – que incluem, por exemplo, programas de concerto dos recitais de alunos – nenhuma menção a ele45.
Finalmente, uma simples conferência de datas já fragiliza a ideia de que Manoel Joaquim de Macedo teria estudado com Léonard e, principalmente, Vieuxtemps, durante seus anos no Conservatório. Hubert Léonard de fato deu aulas no período em que Macedo lá estaria, mas pede demissão em 1866. Assim, ele poderia ter estudado com este artista durante seis anos (supondo que tenha ido para Bruxelas em 1860). No entanto, embora fosse vontade da direção da escola contratar Vieuxtemps imediatamente para o posto (conforme se verá no próximo capítulo), este só passa a dar aulas no Conservatório de Bruxelas em 1871 – lembremos que Macedo retorna ao Brasil entre 1869 e 1871. Portanto, está descartada a possibilidade de Macedo ter tido aulas com Henri Vieuxtemps em Bruxelas. O compositor brasileiro, no entanto, poderia ter se dirigido a Paris, onde o mestre vivia e dava aulas antes de se estabelecer em Bruxelas. Mas teria que disputar a atenção de um artista requisitadíssimo, que alternava as aulas com longos períodos de viagens de concerto. Já Fétis era diretor do Conservatório neste período e também ministrava aulas. Todas as suas turmas do período, no entanto, foram conferidas por esta pesquisa através
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Esta coleção foi consultada na Biblioteca Real de Bruxelas.
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Antes mesmo de nossa ida a Bruxelas, fomos auxiliadas pela bibliotecária do Conservatório, Olivia Wahnon de Oliveira. Na pesquisa remota feita por meio de e‐mails, Olivia já acenava para a total ausência de documentação referente a Macedo. Adonhiran Reis, em consulta semelhante, obteve o mesmo resultado. Uma vez no Conservatório, e atestando pessoalmente a falta de referências a Macedo, colocamos duas questões à dedicada bibliotecária: os “examen” conteriam o nome de todos os alunos ou apenas daqueles aprovados nos exames finais? E, era possível a um estudante não ser aluno do Conservatório e ainda assim prestar exames finais, para obter o diploma? Fomos informadas de que os livros continham o nome da totalidade dos alunos e que apenas aqueles regularmente matriculados no curso estavam aptos a fazer os exames finais.
dos “examen”, nos quais igualmente não consta o nome do compositor brasileiro46.
Portanto, está descartada a hipótese de Manoel Joaquim de Macedo ter estudado no Conservatório Real de Bruxelas47.
Não podemos rejeitar, no entanto, a possibilidade de Macedo ter ido a Bruxelas e
inclusive ter assistido aulas do Conservatório como aluno ouvinte – situação esta, aliás, bastante comum entre os compositores brasileiros que iam se aperfeiçoar no exterior. Ou ainda ter feito aulas particulares com algum professor da instituição – além das estrelas Léonard e Vieuxtemps, o Conservatório contou, entre 1860 e 1871, com outros professores de violino, cujas classes estão registradas nos “examen”: Meerts, Cornillon, Beumes e Collyns. Uma terceira opção seria a de Macedo ter estudado com algum aluno de Léonard, Vieuxtemps ou mesmo Bériot e, por extensão, associar‐se ao nome desses mestres.
Mas qualquer uma das hipóteses acima implicaria no estabelecimento do
compositor em Bruxelas. Porém, uma pesquisa ao index de moradores da cidade, incluindo o registro de estrangeiros residentes desde o século XIX, também não traz o nome de Macedo48. No caso de realmente ter vivido por lá, restaria apenas a explicação de que
Macedo não teria se estabelecido no município de Bruxelas, mas em uma das 19 comunas (ou cidades) que compõem a região de Bruxelas‐Capital. Neste caso, a busca teria que ser
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Uma possibilidade ainda menos plausível, mas mencionada em mais de uma fonte, é a de que Macedo teria estudado com Charles de Bériot. Como vimos, Bériot nasceu em 1802 e, em 1860, já estava totalmente afastado do Conservatório e mesmo das aulas, já que ficara completamente cego em 1858.
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Vale ainda registrar que uma busca semelhante foi feita em relação à filha de Macedo (Filuta/ Catharina) nos registros do Conservatório a partir de 1909, uma vez que a mesma foi descrita como “pianista de talento” pelos jornais, e que aproveitaria a estadia em Bruxelas para se aperfeiçoar. Não existem registros seus na instituição.
48 Conforme explicado na Introdução, tal documentação se encontra no Arquivo Municipal de Bruxelas e
está completamente digitalizada, de forma que as páginas originais dos livros podem ser visualizadas na tela do computador e uma das opções de busca é a onomástica. Segundo funcionários do Arquivo Municipal, qualquer estrangeiro residente deveria obrigatoriamente estar ali registrado.
feita individualmente em cada uma dessas localidades (o que esta pesquisa não pôde realizar)49.
Assim, até o momento nada se sabe da primeira viagem de estudos de Macedo à
Europa. Embora se trate apenas de especulação, pode‐se presumir que seus estudos não devam ter sido tão “brilhantes” quanto o alardeado pela bibliografia. A verdade é que, se Macedo tivesse estudado com Léonard e Vieuxtemps, terminado os estudos com medalha de ouro no Conservatório de Bruxelas, e alcançado feitos como substituir seu mestre como spalla do Covent Garden, estaria numa posição ímpar dentre os violinistas brasileiros de sua geração. Nesse caso, por maiores obstáculos que encontrasse no “ambiente hostil” do Rio de Janeiro, dificilmente deixaria de se destacar e de ter alguma atuação como violinista (da qual não existe nenhum registro). ****
Vale abrir um parênteses para mencionar outro compositor que também teria estudado no Conservatório de Bruxelas: Leopoldo Miguez. Parece mais confiável a informação de que Miguez esteve em Bruxelas entre 1882 e 1884, e mais frágil a (menos presente na bibliografia, é verdade) de que ele teria estudado no Conservatório. Mas tal qual Macedo, não existe nenhum registo de uma suposta passagem sua pelo Conservatório – a não ser quando ele ali esteve para elaborar seu Relatório, anos depois, em 1895 (esta passagem será explorada no próximo capítulo). Ao contrário de Macedo, no entanto, Miguez já contava com 32 anos quando foi para Bruxelas e por isso dificilmente teria ingressado formalmente nesta instituição. Assim, é mais plausível pensar que ele esteve na
49 Reforça esta hipótese o fato de que o registro de Macedo também não foi encontrado quando de sua
segunda estadia por lá, a partir de 1909 – quando existem provas documentais de que o compositor viveu na região. É provável que ele tenha voltado a residir na mesma comuna onde havia se estabelecido da primeira vez.
cidade e tomou aulas particulares – embora os detalhes dessa passagem de sua biografia ainda aguardem pesquisas que tragam esclarecimentos.
De qualquer forma, não deixa de ser intrigante ler uma carta que o compositor escreve do Rio de Janeiro, em 30 de novembro de 1883, e na qual revela saudades de Paris:
Meu caro Mesquita
Se não fora umas tantas dificuldades que não pude vencer achar‐me‐ia neste momento, com minha mulher, em Paris, gozando os encantos deste paraíso terrestre, ouvindo e vendo tudo quanto é ali digno de ouvir‐se e ver‐se!
Quanto é belo tudo isso! E quanto é... nulo o que por aqui se faz. Muita razão têm os nossos patrícios, como o amigo Sant’Anna Nery e outros, em preferirem viver na pátria das belas‐artes e do progresso, a vegetar neste degredo, neste país de botocudos! Pudesse eu fazer [outro tanto]! Infelizmente os meus interesses hoje não me permitem mais continuar na senda que tão bem encetei. Contava demorar‐me pouco tempo por aqui e realizar nova viagem no mês de outubro. Não me é por enquanto possível.
Como vê, e como é natural, tenho sentido imensas saudades das coisas de Paris. Das amizades que aí tive a ventura de adquirir, especializo muito principalmente o meu caro amigo e toda a sua família, cujas finezas e obséquios a mim prestados foram sem conta.
Realmente foram tantas as provas de simpatia que me dispensaram; tão visível o interesse que o meu bom amigo e sua excelente mãe e todos, tomavam pelo bom resultado dos meus esforços; havia tanta sinceridade na manifestação destas expansões que me tornaram cativo em extremo. A minha dívida é insolvável. Se tiver a fortuna de voltar a Paris, e ainda aí estiverem, o meu primeiro cuidado será ir dar‐lhes um abraço, mas um abraço de amigo muito dedicado que lhe sou.
Muito grato sou também ao distinto cavalheiro Sr. Durand pela extrema bondade com que poderosamente contribuiu para minha glória. A carta que ele enviou, afim de ser transcrita no Jornal do Comércio só contém expressões muito lisonjeiras, mais do que eu merecia. Peço‐lhe para em meu nome cumprimentar saudosamente essa bela pessoa e sapientíssimo mestre, e agradecer‐lhe imensamente as palavras de animação com que se dignou honrar‐me. Não o faço diretamente por me ser um tanto difícil escrever ou construir em bom francês. Não sou por isso menos sincero; enfim, que me perdoe. [...]
Fiz uma viagem esplêndida e de saúde magnificante; apenas vou‐me torrando com este calor insuportável. Ah... clima... [...]
Creia‐me seu muito [?] amigo e [?] Leopoldo Américo Miguez 8, Praia da Saudade Botafogo
PS. Pedia‐lhe um favor: o de me mandar os programas dos Concertos do Conservatório e do [Colloma]. Ser‐lhe ia isto fácil? Seria suficiente enviá‐los todos [de uma] vez terminados os concertos50.
Parece claro, pelo documento, que em novembro de 1883 Miguez está há alguns
meses no Rio de Janeiro, e que tencionava ter voltado a Paris em outubro, o que se mostrara inviável. Além disso, o músico faz referências saudosas à cidade, da qual ele parece ter retornado há pouco tempo após um estadia não muito curta (“Como vê, e como é natural, tenho sentido imensas saudades das coisas de Paris. Das amizades que aí tive a ventura de adquirir...”). Também se pode interpretar, em determinado momento da carta, que ele esteve na cidade para estudar (“tão visível o interesse que o meu bom amigo e sua excelente mãe e todos, tomavam pelo bom resultado dos meus esforços”). Afinal, será que Leopoldo Miguez não passou uma temporada de estudos em Paris, ao invés de Bruxelas? E quais teriam sido as datas exatas de sua partida e chegada? ****