O surgimento da charge enquanto gênero textual remonta historicamente ao século XIX, com a introdução da ilustração gráfica na imprensa. Inicialmente, os jornais não exibiam ilustrações, mas antes se compunham, exclusivamente, de textos verbais. Foi só graças ao aperfeiçoamento de técnicas específicas de reprodução de desenhos, a exemplo da litografia,
que estes foram integrados ao corpo do jornal, e gêneros textuais como a caricatura e a charge se popularizaram.
Uma vez que frequentemente a charge é confundida com a caricatura e o cartum, sendo, por vezes, tais termos empregados pelas pessoas de modo intercambiável para designá- la, cumpre, inicialmente, realçarmos algumas especificidades desta modalidade textual face aos demais gêneros visuais humorísticos em questão.
A palavra “caricatura” provém originariamente do verbo italiano “caricare”, cujo sentido primeiro corresponde a “carregar, impor um grande peso sobre alguma coisa, pessoa, ou animal” (MIANI, 2001, p. 3), donde, por extensão, “acentuar” ou “exagerar”. Segundo Romualdo (2000), o termo caricatura pode ser empregado em duas acepções distintas.
Pautado em definições de Rabaça e Barbosa (1978), Romualdo (ibid.) considera que, em sentido estrito, a caricatura equivale a um tipo particular de texto gráfico que consiste numa “representação da fisionomia humana com características humorísticas grotescas ou cômicas” (p. 20), sendo, habitualmente, identificada com uma espécie de “retrato” no qual se exageram (“carregam”) certos traços do rosto de uma pessoa.
Por outro lado, empregada em sua acepção lata, tal palavra denomina genericamente uma “forma de arte que se expressa através do desenho, da pintura, da escultura, etc., e cuja finalidade é o humor” (ROMUALDO, 2000, p. 19-20). Neste último sentido, pois, a caricatura abrange, agora, diversos gêneros visuais humorísticos, dentre os quais a charge e o cartum.
Ainda que tênue, a distinção entre cartum e charge é passível de ser estabelecida. Enquanto gênero gráfico de humor, o cartum seleciona como foco o amplo espectro do comportamento humano, flagrando, de modo satírico, hábitos, fraquezas e costumes do ser humano. Em função do caráter mais genérico (ou universal) de seu enfoque humorístico, o cartum pode ser compreendido, portanto, como “todo desenho humorístico no qual o autor realiza a crítica de costumes” (ROMUALDO, ibid., p. 21).
Por seu turno, a matéria-prima da charge é, prioritariamente, o universo da política, e tal gênero textual pode ser definido como um “texto visual humorístico que critica uma personagem, fato ou acontecimento político específico” (Id., ibid., p. 21). Dentre os traços distintivos comumente apontados entre esses dois gêneros de texto, ressalta-se, sobretudo, a dependência do contexto situacional e, por conseguinte, a temporalidade, características da charge, face à atemporalidade do humor veiculado pelo cartum, aspecto ao qual retornaremos posteriormente nesta exposição.
Sob o aspecto formal, a charge é, normalmente, apresentada em apenas um quadro, podendo excepcionalmente o artista gráfico dispô-la em dois ou mais quadrinhos. O texto chargístico pode, outrossim, ser composto apenas de elementos não verbais, mas estes se fazem acompanhar amiúde da expressão verbal ou linguística, disposta em títulos, legendas ou balões, que reproduzem as falas e sons emitidos pelas personagens. Relativamente à interação entre os códigos visual e verbal na charge, Romualdo (2000) ressalta que estes “se auxiliam, se completam ou se contrapõem na busca do sentido pretendido” (ROMUALDO, ibid., p. 28).
No que concerne, ainda, às relações entre a charge e a caricatura (tomada em sua acepção específica), vale acrescentar que tais gêneros textuais não são mutuamente excludentes, mas, ao contrário, esta frequentemente figura como elemento constitutivo daquela. Isso ocorre, pois, à medida que a charge focaliza os fatos políticos contemporâneos, figuras do cenário político, a exemplo de presidentes, parlamentares, ministros etc., são caricaturadas, isto é, representadas com traços exacerbados, de modo a sugerir ou acentuar, através do ridículo, seus defeitos ou vícios.
Atendo-nos, a partir de agora, especificamente à charge, constatamos na definição supracitada que um traço marcante desse gênero textual é o seu teor eminentemente crítico. Com efeito, segundo Oliveira e Almeida (2006), a charge pode ser alinhada entre os gêneros jornalísticos de opinião, exibindo um caráter marcadamente opinativo, dado que “discute e opina sobre acontecimentos noticiosos, usando para tal uma outra linguagem, a do desenho” (OLIVEIRA; ALMEIDA, ibid., p. 81). Nesse sentido, Maringoni (1996) reflete que a charge assume mesmo o papel de um “editorial gráfico”, e “não é a toa que está sempre colocada na página de editoriais, a página nobre” (MARINGONI, ibid., p. 86).
O texto chárgico reveste-se, pois, de um caráter inerentemente argumentativo, uma vez que, através de sua representação pictórica, o chargista veicula um posicionamento crítico ou uma releitura da realidade factual tematizada pela charge, que pode ou não coincidir com a orientação político-ideológica do veículo de publicação ao qual está vinculado.
A eficácia da charge como instrumento de persuasão do leitor é sublinhada por MELO (1994), para quem esse gênero imagético humorístico é capaz de “influenciar um público maior que aquele dedicado à leitura atenta dos gêneros opinativos convencionais: editorial, artigo, crônica, etc” (MELO, ibid., p. 162).
Desse modo, a charge revela-se, portanto, um gênero textual apenas aparentemente ingênuo e despretensioso: o humor, que promove o riso e angaria, assim, a adesão do leitor, acentua, em verdade, seu caráter questionador e seu poder derrisório. Assim, torna-se patente
que tal gênero preenche, de fato, uma função social relevante. Como sintetiza Agostinho (1993 apud. MIANI, 2001), a charge “não pretende apenas distrair, mas, ao contrário, alertar, denunciar, coibir e levar à reflexão” (AGOSTINHO, 1993, p. 229, apud. MIANI, 2001, p. 4).
Ainda sobre a função social do humor corrosivo veiculado através da charge, Oliveira e Almeida (2006) asseveram que
A charge expõe atitudes políticas, julgando-as. Expõe ainda a própria pessoa do político, mostrando suas qualidades e, sobretudo, seus defeitos. Assim, a imagem de político todo-poderoso é substituída pela imagem que provoca riso, que faz dele uma piada (o que ocorre tanto na charge como na caricatura). (OLIVEIRA; ALMEIDA, 2006, p. 83)
Por outro lado, é justamente em razão da matéria-prima de sua sátira mordaz consistir em acontecimentos, cenários e personalidades contemporâneos que decorre uma outra característica da charge, a saber, a sua temporalidade ou efemeridade, a que aludimos acima.
A charge caracteriza-se por uma forte dependência do contexto situacional e histórico imediato. Nesse sentido, Espíndola (2001) considera que, além de fatores de ordem textual, uma série de fatores pragmáticos intervém na construção dos sentidos de textos chargísticos. Assim, segundo a autora, para a compreensão da charge, além do exame dos elementos linguísticos (quando presentes), faz-se mister que o leitor empreenda a recuperação de um conjunto de informações de ordem pragmática, a exemplo dos acontecimentos e personalidades nela retratados, do contexto sócio-histórico e/ou político, bem como das intenções do chargista (ESPÍNDOLA, ibid., p. 110-111).
Em função de seu caráter efêmero, a charge constitui-se, portanto, em um texto “datado”, isto é, temporalmente limitado, que geralmente é esquecido “quando o acontecimento a que se refere se apaga de nossa memória individual ou social” (MIANI, 2001, p. 3).
Para alcançar seu objetivo, a charge precisa, ademais, segundo Maringoni (1996), estabelecer uma relação de cumplicidade, criar um código comum entre chargista e leitor que habilite este último a recuperar sentidos implícitos no texto chárgico. Assentado em uma base cultural e emocional, é tal código que instaura o riso diante uma piada de português, entre nós brasileiros, por exemplo, bem como permite ao leitor, em face do contexto sócio-histórico- político, empreender a articulação entre fatos aparentemente desconexos presentes na charge.
Maringoni (ibid.) lembra ainda que a charge teve uma presença marcante na história política do Brasil, citando, por exemplo, o período da ditadura militar, em que se destacaram artistas renomados como Ziraldo, Jaguar e Henfil. Na atualidade, acrescenta o autor, esse
gênero textual já garantiu um espaço consolidado, uma vez que a maioria expressiva dos jornais publica charges, alguns, inclusive, em sua capa.
Ao final desse breve percurso teórico enfocando os traços característicos do gênero charge, cumpre admitir que este exerce um papel de destacada relevância no âmbito da imprensa jornalística e, muitas vezes, presta-se mesmo a ecoar a indignação pública face aos fatos políticos que são objeto de sua crítica humorística. Trata-se, pois, de um gênero que, em última análise, alimenta-se, precisamente, da força contestadora do riso. Como no adágio latino, Ridendo castigat mores...