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Akershus, Skedsmo kommune Kommunale veger

Considerando que a atividade de trabalho assume um papel mediador entre o homem e a natureza – ao agir sobre a natureza, transformando-a de acordo com suas necessidades, o sujeito também é transformado pelos efeitos e resultados de sua ação –, a análise do trabalho não pode se restringir a sua dimensão técnica, econômica ou social, justamente por ser, também, subjetivo e intersubjetivo (DEJOURS; MOLINIER apud CLOT, 2010). Buscando compreender a atividade de trabalho em suas esferas mais profundas, o pesquisador Yves Clot e seus colaboradores do Conservatoire National des Arts et Métiers desenvolveram uma

 

proposta metodológica para análise do trabalho denominada Clínica da Atividade. Sua base teórica assenta-se nos postulados de Vygotsky, assumindo, ao mesmo tempo, a tradição da psicopatologia do trabalho (LE GUILLANT, 1984; BILLIARD, 1998) e da ergonomia francesa (WISNER, 1995; DANIELLOU, 1996). O objetivo central dessa abordagem é transformar para compreender e, concomitantemente, compreender para transformar: “sem esse compromisso, não acreditamos que a análise do trabalho possa trazer alguma coisa a mais para aquele que a ela se entrega junto conosco” (CLOT, 2001a, p. 7). A preocupação com a ação e com a transformação das situações de trabalho é, portanto, o que move os esforços da Clinica da Atividade:

É verdade, que o objetivo é compreender para transformar. Nesse sentido, eu penso que a ergonomia também é Análise, desse ponto de vista. Quer dizer, é um dispositivo de transformação da situação e de restauração da saúde. É por isso que é Clínica: por buscar transformar a situação e também em função do modelo teórico que se adota. Evidentemente, quando dizemos “clínico” em psicologia, pensamos imediatamente no modelo de psicanálise. É por isso que podemos dizer que a psicodinâmica do trabalho, na tradição psicanalítica, é também uma Análise do trabalho. É verdade, eu decidi manter a ideia de “Clínica” ao lado, colada, digamos assim, à de “atividade”. Trata-se de uma Clínica da atividade, porque eu insisto no fato de que não podemos tratar da atividade sem tratar da subjetividade. De certa forma, a diferença entre a ergonomia e a “Análise da Atividade” reside no fato de que atividade e subjetividade são inseparáveis e é essa dupla – atividade e subjetividade – que me interessa na situação de trabalho. Por isso, eu uso o termo “clínico”: clínico do ponto de vista do meu engajamento, do lado da experiência vivida, do sentido do trabalho e do não sentido do trabalho; “clínico” do ponto de vista da restauração da capacidade diminuída. A Análise médica visa restaurar a saúde, e a “Clínica da Atividade” é a ação para restituir o poder do sujeito sobre a situação. Essa ideia eu tomo do meio médico porque eu tenho em conta uma tradição em psicopatologia do trabalho dada pelos trabalhos de Le Guillant, cuja característica é o retomar a Análise sem ter como referência essencial a psicanálise; por isso, eu me interessei por Le Guillant. [...] Trata-se de uma Análise do trabalho porque traz a ideia de que é preciso disciplina: trata-se de Análise, no sentido médico, por ter como objeto uma doença nas situações reais de trabalho. Além disso, baseia-se na ideia de que a psicologia do trabalho parte do campo (da realidade de trabalho) e volta ao campo. Em suma, a ideia é a de que não há psicologia do trabalho sem transformação da situação de trabalho. (CLOT, 2006b, p. 167).

Fica evidente, no trecho acima, que a preocupação de restaurar a saúde do trabalhador e ampliar seu poder de agir sobre a própria atividade de trabalho assume papel fundamental nesse processo. Clot define saúde como poder de agir sobre si e sobre o mundo. Para o autor, a saúde está diretamente ligada à atividade vital de um sujeito, não no sentido de manutenção da normalidade, mas no de possibilitar-lhe ir além da norma e de instituir normas novas em

situações novas, permitindo a transformação de uma experiência vivida em forma de se viver outras experiências. Assim, o objetivo da Clínica da Atividade de restaurar a saúde do trabalhador implica “aumentar o poder de agir dos coletivos de trabalhadores dentro do ambiente de trabalho real e sobre si mesmos” (CLOT, 2001a, p. 8).

Segundo Murta (2008), a partir de observações de atividades de trabalho em situações reais, pesquisadores da ergonomia francesa perceberam que geralmente a atividade realizada não correspondia ao que era esperado, ou seja, ao prescrito. Assim, a ergonomia francesa tem distinguido a tarefa prescrita da atividade realizada, considerando existir uma distância entre aquilo que deve ser feito – a tarefa – e a atividade – aquilo que efetivamente se faz. A tarefa refere-se, mais precisamente, ao resultado esperado da atividade, ou seja, direciona a atividade para a obtenção de seus objetivos utilizando determinados meios. É algo prescrito ao sujeito, que requer dele adaptação às condições de execução da atividade. A tarefa tem como principais características as descritas a seguir: sempre antecede a atividade; sugere, implícita ou explicitamente, uma forma de execução do prescrito e, ainda, requer do sujeito uma dupla atividade: a de elaboração mental e a manual. Envolve, dessa forma, como determinantes no trabalho, aspectos institucionais e normativos, formais e informais (FERREIRA, 2000). No entanto, segundo Clot (2004), a tarefa não considera as relações entre o objeto e o meio, ou seja, o prescrito não considera as inúmeras variáveis que podem vir a constituir a atividade. A tarefa é, portanto, incapaz de contemplar a multiplicidade de possibilidades de atividades que a perpassam, de modo que só se transforma em atividade porque o sujeito não se limita a suas imposições. Logo, é preciso deliberadamente transcender o anunciado na tarefa para que se possa realizá-la. Clot (2001) denomina atividade realizada aquela que efetivamente ocorreu, ou seja, a atividade passível de ser observada ao longo de sua realização. Assim, a atividade realizada diz respeito à “atualização de uma das atividades realizáveis, na situação em que ela surge. [...] dentro dessa situação, o desenvolvimento da atividade que venceu é dirigido pelos conflitos entre as atividades concorrentes, que poderiam ter realizado a mesma tarefa a outros custos” (CLOT et al., 2001, p. 17).

Com base na categoria “atividade”, tal como proposta por Leontiev (2004), bem como na percepção da distância existente entre tarefa e atividade realizada, Clot (1999; 2001) avança, ao considerar a atividade sob um espectro mais amplo, destacando que atividade realizada e atividade real não coincidem.O autor apresenta uma perspectiva de atividade que não se restringe apenas às ações que foram de fato realizadas, mas também às ações que não o foram. Propõe, então, a distinção entre atividade real – que indica o que foi realizado e inclui

 

tudo o que é observável, ou seja, todas as ações efetivamente desenvolvidas durante o trabalho – e real da atividade – que designa não só o que foi feito, como também aquilo que não o foi, que se tentou fazer sem conseguir, que se gostaria de ter feito, que foi feito para evitar fazer o que deveria ser feito. Assim, atividade é muito mais do que aquilo que foi efetivamente realizado. Clot (2010, p. 66) recorre à teoria de Vygotsky para explicar que “o homem está repleto, a cada instante, de possibilidades não realizadas” e que o comportamento observado se limita sempre ao “sistema de reações vencedoras”. Assim, a atividade oculta, impedida ou retirada, não está de modo algum ausente. Ela pesa sobre a atividade realizada, pois ela é apenas a atividade que “venceu” entre inúmeras outras possíveis. Essas últimas, ainda que não tenham sido escolhidas, permanecem suspensas, impedidas ou contrariadas, tencionando a atividade realizada e, nessa medida, são dela constitutivas. Por essa razão, devem ser também incluídas na análise. Segundo Clot (1999, p. 75):

[...] a atividade não é apenas aquilo que se faz, mas também o que não se faz, o que não pode ser feito, o que se busca fazer sem lograr êxito (os fracassos), o que poderia ter sido feito, o que se desejou fazer, o que se pensa ou se sonha fazer em outra ocasião, o que fazemos para não fazer o que deve ser feito, o que fazemos sem querer fazer, o que está para ser refeito, o que foi suspenso, o não realizado.

Para Clot (2006, p. 115-116), “as reações que não venceram, as que foram mais (ou menos) reprimidas, formam resíduos incontrolados, cuja força é apenas suficiente para exercer uma influência na atividade do sujeito, mas contra a qual ele pode ficar sem defesa”. Ainda segundo o autor, a atividade possui um conteúdo que ultrapassa a atividade efetivamente realizada e encontra-se repleta de conflitos que a constituem e tencionam: “a atividade é uma provação subjetiva, mediante a qual o indivíduo avalia a si próprio e aos outros, para ter a oportunidade de vir a realizar o que deve ser feito” (CLOT, 2010, p. 104). Fica clara, portanto, a importância de considerar a atividade de forma ampliada, ressaltando que ela não se limita ao que pode ser observado: abrange uma série de aspectos não observáveis, mas que, nem por isso, deixam de constituir e tencionar o que se observa. A Clínica da Atividade pretende, justamente, conhecer as possibilidades e os conflitos que tencionam e constituem a atividade, por meio de sua transformação. O objetivo, assim, é transformar a atividade para compreendê-la, uma vez que os conflitos e as possibilidades não realizados, constituintes da atividade, não se revelam por meio da simples observação: revelam-se apenas nos movimentos, em sua dinâmica de desenvolvimento.

A atividade – constituída pela tarefa, pela atividade real e pelo real da atividade – marca, portanto, o distanciamento entre o que é prescrito e o que é efetivamente realizado.

Essa distinção entre prescrito e realizado não é imediata: ela é mediada pelo gênero profissional, um corpo de avaliações compartilhadas, que regulam a atividade profissional de forma tácita (CLOT, 2001). Trata-se de um corpo social e simbólico, que se interpõe entre a organização do trabalho e o próprio sujeito, uma espécie de memória impessoal e coletiva, mobilizada pela ação, para indicar formas de se comportar profissionalmente. Essas formas de se relacionar com as coisas e com as pessoas em determinado ambiente de trabalho integram um repertório de atos adequados (ou inadequados), produzidos e conservados na história desses ambientes. O gênero remete, desse modo, à “história de um grupo e a uma memória impessoal de um local de trabalho” (CLOT, 2006, p. 38) e faz-se presente por meio das prescrições institucionais, que estabelecem normas, papéis, obrigações e condutas e determinam as atividades, apesar da dimensão subjetiva dos trabalhadores envolvidos (CLOT, 2006; CLOT et al., 2001). Se, por um lado, essas normas tácitas são restritivas, elas são também um recurso da vida profissional, pois ajudam o sujeito a se situar e a saber como agir em cada situação de trabalho. De acordo com Clot (2001c, p. 2):

É, portanto, de forma essencialmente impessoal, que o gênero profissional exerce uma função psicológica na atividade de cada indivíduo. O gênero organiza as atribuições e as obrigações, definindo essas atividades independentemente das propriedades subjetivas dos indivíduos que as desempenham em determinado momento. Ele não regula as relações intersubjetivas, mas, sim, as relações interprofissionais.

O gênero consiste em um “trabalho de reorganização da tarefa pelos coletivos profissionais, uma recriação da organização do trabalho pelo trabalho de organização do coletivo” (CLOT et al., 2001, p. 18). Nessa perspectiva, o gênero profissional é o instrumento coletivo da atividade, pois permite colocar os recursos da história acumulada a serviço da atividade profissional em curso. Para o autor, o gênero desempenha um papel central no desenvolvimento do poder de agir dos trabalhadores, uma vez que “apenas os coletivos podem operar transformações duradouras em seus ambientes de trabalho” (CLOT et al., 2001, p. 17).

Tendo em vista essas considerações, o gênero profissional assume uma função essencial na mobilização psicológica da atividade de trabalho, dado que regula a ação dos sujeitos nas atividades, apresentando-se como uma espécie de “guia” para a atividade e contribuindo para minimizar a incidência de erros diante de inúmeras possibilidades. O gênero define a filiação a um grupo profissional e orienta a ação nesse grupo, “oferecendo, fora dessa ação, uma forma social que a representa e a precede, prefigura-a e, desse modo, a significa” (CLOT, 2010, p. 125). Assim, o gênero designa maneiras de ver e agir sobre o

 

mundo consideradas adequadas no grupo, ou seja, constitui significações comuns a um determinado coletivo profissional: “Trata-se de um sistema flexível de variantes normativas e de descrições [...] que nos diz como funcionam aqueles com quem trabalhamos, como agir ou abster-se de agir em situações precisas, e como conduzir a bom termo as transações interpessoais exigidas pela vida em comum...” (CLOT, 2010, p. 125). Dessa forma, o gênero desempenha uma função psicológica importante no que se refere às relações interpessoais da atividade de trabalho.

É interessante ressaltar que, ao mesmo tempo em que é resultante de um processo de construção coletiva inesgotável, o gênero é também mediação constitutiva da atividade profissional. Entretanto, o corpo simbólico de normas, procedimentos e prescrições representado pelo gênero não é apropriado da mesma maneira por todos os profissionais: ele é objeto de ajuste e retoque por parte daqueles que o constituem. Segundo Clot (2010), a estabilidade do gênero é sempre transitória, uma vez que ele é um meio para agir com eficácia, é constantemente submetido à prova da realidade, de modo que se encontra em constante transformação. Isso porque os sujeitos não aplicam todas as normas contidas no gênero: eles as adaptam, ajustam, modificam, provocando o aperfeiçoamento do gênero profissional (CLOT, 2006). O trabalho de ajuste e reelaboração do gênero para transformá-lo em instrumento de ação é denominado estilo da ação, uma espécie de libertação de certas imposições genéricas, de atividades prescritas, sem negá-las, mas desenvolvendo-as de formas diferentes. De acordo com Davis e Aguiar (2009, p. 8):

[...] o estilo pessoal está relacionado ao sentido da atividade para o próprio sujeito, dizendo respeito à subjetividade do indivíduo e, tal como ele, constituída social e historicamente. [...] O estilo pessoal é um “jeito” de fazer singular e, ao mesmo tempo, social e histórico. É ele que, de certa forma, contribui para o movimento contínuo e constante de renovação e reconstrução do gênero que, ao ser interiorizado, colabora para a transformação do próprio sujeito. Compreender o estilo é apreender o gênero, porque um constitui o outro.

O estilo não consiste apenas em “libertar-se do gênero profissional, desenvolvendo-o [...] a libertação do sujeito para agir não está unicamente voltada para o coletivo e suas obrigações; está voltada também para si mesmo” (CLOT, 2010, p. 128). Assim, Clot et al. (2001) consideram que o estilo se define como uma dupla libertação do indivíduo, pois, ao estilizar o gênero na atividade de trabalho, ele liberta-se, simultaneamente, da história impessoal e pessoal. Em relação à primeira, é essencial o afastamento do corpo simbólico socialmente imposto, para que o sujeito possa realizar a atividade, imprimindo nela suas

particularidades, ao modificar falas, condutas e procedimentos. Simultaneamente, ocorre também a libertação da história pessoal do indivíduo, ou seja, “seus esquemas pessoais também são pressionados a se mobilizarem para buscar o melhor ajuste de acordo com o sentido que confere à atividade e perseguindo a eficiência das operações” (CLOT et al. 2001, p. 19). Esse movimento de emancipação possibilita o desenvolvimento do indivíduo por lhe permitir aumentar seu poder de ação sobre o meio e sobre si mesmo (CLOT, 2004; CLOT et al., 2001).

Além de permitir ao sujeito ampliar seu poder de ação sobre a própria atividade ao estabelecer variações do gênero, o estilo é capaz de, concomitantemente, transformar o gênero, na medida em que é por ele validado e “absorvido”. O estilo pessoal constitui-se na forma como o sujeito se apropria do gênero, de modo que o gênero se movimenta e se desenvolve a partir de estilos. Segundo Clot (2010, p. 126), o “estilo pessoal é, antes de mais nada, a transformação dos gêneros na história real das atividades no momento de agir em função das circunstâncias”. Ambos, gênero e estilo, constituem-se dialeticamente, de modo que existe “uma função psicológica dos gêneros sociais, assim como existe uma função social dos estilos individuais” (CLOT, 2001, p. 3).

Outro conceito proposto por Clot (2006, p. 181) é o de catacrese, definida como a atribuição de novas funções aos instrumentos, consistindo em um uso desviado e, ao mesmo tempo, inventivo de uma ferramenta: “a função do conjunto de ferramentas se vê afetada por uma atividade de reconcepção ou de recriação de técnicas, cujo uso é deslocado ou subvertido. Chamamos de catacrese essa atribuição de novas funções às ferramentas, esse uso desviado que se faz dela”.

De acordo com Fonseca (2010), a catacrese, ao ultrapassar o uso previsto dos instrumentos de trabalho, amplia as possibilidades de emprego desses instrumentos e lhes atribui novas funções, enriquecendo-os. Assim, a catacrese “não deve ser interpretada como um erro ou um desvio pois, sendo elaborada pelo trabalhador, tem por finalidade mantê-lo vinculado as suas ocupações” (FONSECA, 2010, p. 114). É importante ressaltar que os instrumentos e as ferramentas não designam apenas objetos materiais: eles também se referem a instrumentos psicológicos, como a linguagem, as diversas formas de contar e calcular, os planos, os mapas e todos os signos possíveis (CLOT, 1993). Dessa forma, as catacreses ocorrem tanto em relação aos instrumentos materiais como aos psicológicos. Para designar essa dupla orientação, Clot (2001) estabelece uma distinção entre catacreses centrífugas ou centrípetas, sendo aquelas dirigidas prioritariamente para o mundo, ao passo que estas se

 

voltam principalmente para o próprio sujeito. Entretanto, ao modificar o uso previsto para uma ferramenta, ambas agregam-lhe uma nova função psicológica, necessariamente diferente da prevista.

As categorias propostas pela Clínica da Atividade discutidas acima representam constructos teóricos importantes para fundamentar a compreensão da atividade de trabalho. Assim, tais categorias, articuladas com as da Psicologia Sócio-Histórica, embasam o processo de investigação e análise acerca da atividade docente empreendido nesta pesquisa.

CAPÍTULO III