A entrevista consiste em uma técnica de coleta e produção de dados amplamente empregada em pesquisas científicas, defendida por diversos autores em função das vantagens que apresenta em relação a outros instrumentos desse tipo. Dentre suas vantagens, pode-se citar seu potencial para investigar temas complexos, dificilmente apreendidos por meio de questionários (ALVES-MAZZOTTI, 1999). Na verdade, a entrevista envolve uma relação pessoal entre o pesquisador e o(s) sujeito(s) da pesquisa, facilitando o esclarecimento de pontos nebulosos e permitindo o aprofundamento de aspectos levantados por outras técnicas de coleta e produção de dados, como a observação e o questionário (MOROZ; GIANFALDONI, 2002; LUDKE; ANDRÉ, 2003).
Existem diferentes técnicas e modalidades de entrevistas, de modo que sua classificação varia de autor para autor. Segundo Mazzotti e Gewandsznajder (2002, p. 168), as modalidades de entrevistas diferenciam-se em razão do grau de controle exercido pelo pesquisador durante sua realização. Na presente pesquisa, foram empregadas entrevistas estruturadas, semiestruturadas e não estruturadas. A primeira consiste em um roteiro fechado de perguntas, bastante semelhante a um questionário, que fornece informações pontuais acerca da realidade investigada. Esse tipo de instrumento foi empregado junto à equipe gestora da instituição, para colher informações sobre a escola, tais como quantidade de alunos, professores e funcionários; turnos de funcionamento; aspectos relacionados à infraestrutura e ao espaço físico, como a existência de biblioteca, laboratórios, computadores etc. Essa mesma técnica também foi utilizada para obter dados relativos ao sujeito de pesquisa, tais como idade, estado civil, número de filhos e tempo de experiência no magistério.
A técnica de entrevista semiestruturada consiste em um esquema flexível de perguntas que, a partir de um roteiro básico, permite ao pesquisador uma grande liberdade para adaptar e/ou aprofundar as perguntas feitas. Esse recurso foi empregado na obtenção de dados relativos à estrutura administrativa e pedagógica da escola, tais como elaboração do projeto político e pedagógico; realização de reuniões pedagógicas; formação do corpo docente; relações institucionais etc. Elas foram empregadas junto à diretora e à coordenadora pedagógica da escola, para melhor conhecer a dinâmica da organização e o funcionamento da instituição, ou seja, como nela se planejavam, avaliavam e coordenavam as práticas pedagógicas.
A entrevista não estruturada, a terceira modalidade aqui empregada, diferencia-se das anteriores por seu “caráter aberto”: apesar de centrar-se no tema ou no tópico que se busca investigar, não existem perguntas predeterminadas ou fixas. O pesquisador apenas pede ao sujeito que fale livremente a respeito dos temas de interesse e, a partir daí, propõe perguntas que possam esclarecer ou aprofundar certos aspectos da fala do sujeito. No presente estudo, essa técnica foi utilizada junto à professora para conhecer sua história de vida, principalmente no que se refere a sua vida escolar e profissional, de modo a compreender as experiências que ela vivenciou ao longo de sua formação como docente. Os temas aqui focados foram a opção pela docência, sua experiência e formação profissional, as práticas pedagógicas adotadas, a perspectiva acerca das dificuldades de aprendizagem, as relações institucionais, entre outros. O objetivo era conseguir material que permitisse, posteriormente, a constituição dos núcleos
de significação e, assim, uma aproximação dos sentidos e significados que a professora havia constituído acerca das “dificuldades de aprendizagem”. Uma vez transcritas as entrevistas, seu conteúdo foi apresentado aos participantes para que eles conferissem e/ou complementassem suas falas.
2.3.3 Autoconfrontações
Para que fosse possível dar início ao processo de autoconfrontação simples e cruzada, foi necessário, antes de tudo, selecionar e editar trechos do material filmado ao longo da observação das aulas ministradas pela professora. Foram editados, então, três episódios para serem utilizados nas sessões de autoconfrontação. Os critérios para edição desses episódios foram os seguintes: eles deveriam ser curtos, com aproximadamente cinco minutos cada; apresentarem começo, meio e fim; e, principalmente, permitirem ilustrar momentos da atividade docente que estivessem diretamente relacionados ao problema de pesquisa investigado. Assim, na edição dos episódios, priorizaram-se os momentos nos quais a professora interagia com alunos que ela havia informado que apresentavam “dificuldades de aprendizagem”. Os episódios deveriam evidenciar contradições ou aspectos da atividade docente que poderiam ser tratados de outra forma, permitindo, ainda, uma análise mais aprofundada quando do momento da autoconfrontação. Os conteúdos de tais episódios encontram-se descritos a seguir.
Episódio 1 – Escrita da palavra “pé” (duração: 5’25”)
Esse episódio retratava um momento da aula de Língua Portuguesa no qual a professora trabalhava leitura e escrita com base em uma parlenda já bastante conhecida pelos alunos. A cena mostrava a professora e um aluno junto ao quadro-negro, momento em que a primeira pedia ao segundo para localizar a palavra “pé” no texto escrito na lousa. O menino esforçava-se nitidamente para responder de forma correta, sem alcançar sucesso, apesar do direcionamento e das pistas fornecidas pela professora, que escreveu na lousa outras palavras que se iniciavam com a letra “p”, indicando que a palavra a ser identificada começava da mesma forma: com a mesma letra. Outras pistas foram dadas, sem que o aluno conseguisse identificar a palavra. Em determinado momento, o menino apontou a palavra “pulem” (que se iniciava com “p”), seguindo a dica apresentada pela professora. Ela, então, lhe disse que aquela não era a palavra buscada, salientando, no entanto, que ela começava com a mesma
letra. Contudo, a professora deixou de estabelecer a diferença entre o som da palavra “pé” e o da palavra “pulem”, bem como de mostrar, sonoramente, que havia diferenças na quantidade de letras entre os dois vocábulos ou mesmo de dizer que “pé” só apresenta duas letras. Até o fim da atividade, o aluno não foi capaz de identificar a palavra correta. A professora pediu, então, aos demais alunos que lhe mostrassem qual era a palavra “pé”, o que foi feito com bastante entusiasmo. Apesar de o aluno chamado à frente não ter acertado a resposta, a professora não o repreendeu, tampouco desvalorizou sua resposta. Ao final da atividade, disse-lhe o seguinte: “Muito bem, fulano! Você tentou de verdade! Na próxima vez, você vai conseguir acertar!”.
Episódio 2 – Correção da lição de Matemática (duração: 5'42'')
O episódio mostrava a professora e os alunos sentados no chão, em círculo, corrigindo o dever de casa de Matemática, passado no dia anterior. No início da atividade, todos participavam e mostravam-se bastante interessados. No entanto, ao longo da correção da lição, foram ficando cada vez mais dispersos. A professora averiguou que um dos alunos não havia feito o dever, chamando-o, então, para ilustrar, na lousa, a forma como resolveria os problemas propostos. Os colegas deveriam ajudá-lo a fazer isso, indicando-lhe a forma como haviam solucionado os problemas em casa. O aluno que foi à lousa desenhava traços referentes aos valores numéricos como estratégia para solucionar as questões. No entanto, era nítida sua dificuldade para resolver os problemas: ora desenhava traços a mais, ora a menos do que os necessários para a solução da conta. Posteriormente, outro aluno foi chamado à frente para demonstrar à classe sua forma de resolver os problemas. A mesma estratégia do aluno anterior foi empregada: desenhar pequenos traços para indicar números. Ambos os alunos chamados à lousa pareciam bastante à vontade na situação e não apresentavam qualquer tipo de inibição por estarem diante da classe. Ao contrário, pareciam satisfeitos com seu papel. Enquanto isso se passava, os demais alunos dispersavam-se mais, prestando menos atenção à correção dos problemas.
Episódio 3 – Palavras cruzadas (duração 5'57'')
Esse episódio mostrava um grupo de alunos sentados no chão, em círculo, diante da classe. Os demais alunos permaneciam sentados em suas carteiras. O episódio iniciava-se com
a professora explicando que apenas os alunos que estavam na frente poderiam participar da atividade, enquanto os demais deveriam permanecer quietos e atentos. Com isso, deixou claro que não havia necessidade de todos participarem da atividade. Algumas das crianças excluídas questionaram a decisão da professora, propondo a alternância dos grupos, para que todos tivessem a oportunidade de participar da atividade. A professora explicou-lhes que esse modo de executar a atividade não fora planejado por ela, de modo que fazer a inversão atrapalharia a própria atividade. Os alunos aceitaram essa resposta e aquietaram-se, prestando atenção ao que os colegas que deveriam fazer a atividade – que, segundo a explicação da professora, consistia em completar e resolver um jogo de palavras cruzadas pendurado na lousa, composto de palavras provenientes da parlenda já conhecida por eles. Eram, portanto, palavras com as quais os alunos estavam bastante familiarizados. Após explicar detalhadamente a atividade, a professora chamou um dos alunos sentados no chão para ir até a lousa, fornecendo-lhe uma série de letras recortadas, com as quais ele deveria preencher um dos espaços vazios, completando a palavra “pulem”. O estudante selecionou a letra “u” e a professora, então, chamou uma de suas colegas para ajudá-lo a preencher as letras dos demais espaços. A professora deu dicas, escrevendo na lousa a palavra “pular” e indicando que “pulem” começava com a mesma letra. A aluna selecionou o “p” apesar de não saber o nome dessa letra. Nesse momento, os demais alunos gritavam em uníssono “p”. A seguir, a professora indagou qual seria a próxima letra da palavra e alguns deles responderam: o “l”. Nesse momento, muitas crianças já estavam se levantando do chão e de suas carteiras para ir até a lousa. A professora pediu a um deles que selecionasse o “l” dentre as letras recortadas. Cada vez mais alunos se levantando, aglomerando-se junto à lousa. Todos queriam participar. Autoconfrontação simples (ACS)
Conforme explicitado anteriormente, a ACS consiste, basicamente, em gravar, em vídeo, um trabalhador executando sua atividade, para, depois, confrontá-lo com sua imagem gravada, momento em que são feitas perguntas sobre ela. Na presente pesquisa, a ACS teve duração de aproximadamente 1 hora e 20 minutos. Foi realizada na escola em um horário posterior ao período de aulas. O primeiro episódio foi apresentado à professora e visto por ela com atenção. A seguir, a pesquisadora formulou questões e solicitou comentários relativos à cena apresentada. Essas perguntas buscavam indagar a professora acerca do que ela havia planejado fazer, do que havia realmente feito e do que ficara faltando fazer, além de pedir que comentasse sobre os aspectos que considerava positivos (ou negativos). O mesmo
procedimento foi adotado em relação aos dois outros episódios, ou seja, primeiro a professora assistia à cena inteira, depois ela a comentava, explicando o que havia feito, quais eram seus objetivos naquele momento, o que havia deixado de fazer ou, ainda, o que poderia ter sido feito de outra forma. A sessão de ACS foi inteiramente filmada e contou apenas com a presença da professora e da pesquisadora. A primeira parecia confortável na situação de autoconfrontação, fato que permitiu que este fosse um momento bastante rico em termos de análise da própria atividade.
Autoconfrontação cruzada (ACC)
A ACC consiste na interação de dois professores e do pesquisador diante dos registros filmados da atividade de cada um deles. É apresentada a filmagem de um deles em atividade, após a qual o pesquisador solicita comentários do sujeito que assiste à filmagem da atividade de seu colega. A seguir, os papéis são invertidos, de modo que o segundo sujeito tenha oportunidade de analisar a própria atividade e a de seu par. Na presente pesquisa, a ACC contou com duas professoras, mas apenas uma delas teve sua atividade analisada. Assim, nesse processo, os episódios contendo os registros da atividade da professora participante da pesquisa foram vistos e analisados por ela e outra professora, convidada apenas para a ACC. Não houve, dessa forma, inversão dos papéis, situação na qual cada docente analisaria sua atividade e, ainda, a executada por seu colega.
A ACC ocorreu em um dia diferente da ACS, com a presença de uma segunda professora, que atuava em outra escola e que foi convidada para analisar a atividade docente daquela que participava da pesquisa. Essa segunda professora lecionava em uma escola municipal de Ensino Fundamental do ciclo II, dando aulas de Língua Portuguesa. As duas professoras já se conheciam, pois já haviam lecionado em uma mesma instituição. A ACC durou aproximadamente 45 minutos, em razão de alguns contratempos11. Os procedimentos foram os mesmos anteriormente adotados na sessão de ACS: primeiro, as professoras assistiam às cenas inteiras e, depois, a professora convidada requisitava da outra, cuja atividade estava sendo analisada, que comentasse e justificasse cada uma das cenas. A sessão de ACC foi também inteiramente filmada. Participaram dela a pesquisadora e as duas professoras. O material filmado na ACS e na ACC foi inteiramente transcrito e, posteriormente, utilizado na formulação dos núcleos de significação.