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A segunda parte traz os assuntos da ortoepia, dos sons elementares e fundamentais; das consoantes, ditongos, sílabas, repartição de sílabas, dos vocábulos da língua portuguesa e alterações que sofrem na pronúncia; das modificações prosódicas dos vocábulos, das modificações prosódicas que nascem do acento, acrescentadas aos

vocábulos, do acento agudo e circunflexo, das palavras enclíticas que não têm acento e dos vícios da pronunciação.

A ortoepia é definida como “o estudo dos sons elementares e fundamentais da linguagem, já separados, já unidos, formando diversas articulações” (CARDOSO, 1944, p. 63). Juntamente com a prosódia – “estudo das modificações musicais, de que são suscetíveis aqueles sons, já relativos ao canto e à melodia, já ao compasso e ritmos das articulações ou sílabas” (idem) – a ortoepia tem, por objeto, a boa pronunciação e leitura da língua.

Como acredita ser importante para a boa pronúncia das palavras de uma língua o conhecimento e a distinção dos seus sons, Cardoso (idem) descreve os sons fundamentais – vogais, consoantes, ditongos e sílabas – e os elementares – modificações prosódicas: acento e quantidade.

Essa descrição é, à primeira vista, uma compilação das explicações dadas na Gramática Filosófica de Barbosa (1875). Mas, um olhar atento apontará para uma adaptação da linguagem, visando ao ensino menos complexo da ortoepia. Na verdade, o que se defende, neste trabalho, é a não observância de compilação, mas de apropriação de determinado discurso, considerando a utensilagem mental e a finalidade a que se propõe. O fato de o autor ter transcrito, resumido ou parafraseado as definições existentes em outras obras não quer dizer que a sua obra seja mera compilação e que, por isso, não seja considerada uma gramática importante em seu tempo. A seleção do que vai, ou não, constituir as explicações já diz muito acerca daquilo que se pretendeu escrever ou do lugar social/cultural no qual o autor está inserido.

Em alguns momentos, Cardoso (idem) mostra-se conhecedor das teorias modernas acerca, por exemplo, da nomenclatura utilizada, mas prefere manter-se ligado à tradição: “ os gramáticos contemporâneos chamam às consonâncias articulações; mas nós não os acompanharemos para não confundirmos as vozes, que também são articulações com as consonâncias, e para respeitarmos melhor a natureza particular destas modificações que nunca soam por si, mas só juntas” (idem, p. 65).

Depois de pormenorizar os sons vogais, consoantes e os ditongos, e de descrever a formação das sílabas e a quantidade delas na língua portuguesa, Cardoso (idem) tratará dos vocábulos e das alterações que eles sofrem na pronúncia. Antes, porém, ele distingue vocábulo de termo, palavra, voz e expressão, caracterizando-os:

Quadro 17: Definições e caracterização de vocábulo, palavra, termo, voz e expressão

Vocábulo é uma articulação de sons ou de sílabas graves, subordinados todos, a um som ou sílaba aguda e predominante , ponto de apoio das mais;

O vocábulo e a voz referem-se mais comumente à composição material e as circunstâncias gramaticais da língua a que pertencem;

Palavra é uma voz articulada, duma ou muitas sílabas, que significa um conceito ou pensamento d’alma ou suas modificações;

refere-se com particularidade à pronunciação e circunstâncias em que tem parte a pronunciação e o ouvido.

Termo é o vocábulo próprio da ciência, arte, ou disciplina de que se trata, ou da linguagem e estylo em que se fala.

refere-se á precisão de enunciar as ideias do modo mais conforme ao assunto de que se trata. Os termos de cada ciência ou arte formam uma espécie de língua diferente da vulgar, que ordinariamente só entendem os que a estudaram, mas que servem de fundamento a um sentido figurado na linguagem ordinária e comum.

Voz é o som formado na garganta e proferido pela boca do animal. Em sentido translato é o mesmo que vocábulo, que é uma voz significativa, própria de algum idioma.

Expressão é a palavra ou palavras com que se declara o conceito d’alma, o que se passa nela;

refere-se mais particularmente ao modo como exprimimos pela voz nossos conceitos ou sentimentos e à qualidade dos vocábulos com que os enunciamos;

Das expressões nobres, engraçadas e enérgicas depende a elegância da frase e a beleza do estilo.

Fonte: (Cardoso, 1944, p. 74-6).

Os vícios de pronunciação, talvez, sejam o assunto mais explorado de forma passional. É certo que Cardoso (idem) atribui os vícios aos brasileiros – diferentemente de Soares Barbosa (1875) que se dirige aos portugueses –, sem ter se referido aos sergipanos, em especial. Para ele, a pronúncia correta estaria na Corte117 dos Imperadores, pois lá estava o centro político das nações, era lá que também estavam as melhores peças teatrais, as melhores academias, todos os estudos e todas as profissões “a serviço das necessidades reais da vida”(CARDOSO, 1944, p. 87); era lá onde estavam o comércio, a polícia e a civilidade. Por essas razões, também indicadas por Barbosa, havia mais correção na

117 Faz-se necessário, nesse ponto, apreciar a abordagem sociológica com a qual Norbert Elias explicita as relações existentes entre os sujeitos sociais. Muito mais importante do que a Corte em si, é estudá-la como uma sociedade capaz de construir um conjunto de relações sociais e, ao mesmo tempo, e em sentido contrário, ser construído por elas. Dessa forma, “Norbert Elias coloca como centrais as redes de dependências recíprocas que fazem com que cada ação individual dependa de uma série de outras, porém modificando, por sua vez, a própria imagem do jogo social”. (CHARTIER, 2001, p. 13). A Corte constitui uma peça fundamental para a preservação da aristocracia como classe social distinta, permitindo aos reis perpetuar seu poder pessoal. Além dos monopólios fiscal e militar, a etiqueta é apontada por Elias como instrumento de dominação que define a sociedade de Corte. A língua usada na Corte, portanto, é um fator de civilidade, ou seja, de autocontrole em que se submete o homem para amoldar-se à sociedade na qual está inserido, que serve para distinguir os indivíduos entre si, dando a quem a utiliza uma superioridade social que o distingue dos demais.

pronúncia das palavras cujo exemplo deveria ser seguido por todos os habitantes das províncias.

Acreditava, dessa forma, que as negociações efetuadas na Corte, as articulações políticas, industriais e comerciais, as relações entre a Corte, o Senado e a Câmara temporária – lugar onde presidia a soberania nacional –, as relações diplomáticas com as Cortes estrangeiras eram motivos para alcançar o progresso científico, uma vez que esses fatores obrigavam uma maior clareza de ideias, maior investimento na educação de seus membros, e uma “rotação mais larga de raciocínios” (idem). Além disso, a Corte representava a civilização. O gosto refinado e aperfeiçoado, os discursos purificados e afinados pelo melhor diapasão refletiam o homem civilizado, refletiam a vernaculidade em sua forma mais brilhante.

Somente entre os homens civilizados e instruídos, portanto, e mais especificamente, os que faziam parte “da suntuosa Corte de D. Pedro 2º”, é que a pronúncia correta era respeitada. Mas, ainda assim, Cardoso (idem) faz uma ressalva: era em Lisboa onde se falava ainda melhor o português, embora também fosse este “falar” mais melodioso quando saía da “glote de um brasileiro”.

Em sua maioria, os vícios procediam de três expedientes: a) troca de vogais, das consoantes, dos ditongos ou das sílabas umas pelas outras; b) acréscimos; c) diminuições; e d) transposições dos sons que compunham alguns vocábulos da língua. Usando o recurso retórico da primeira pessoa do plural – “nós, os brasileiros” – Cardoso (idem) se inclui no grupo daqueles que cometem um dos vícios de pronunciação mais comum: o de trocar o e átono pelo som de i em algumas palavras, como minino por menino; filiz por feliz; não me deu por não me deu etc. Essa troca de sons átonos, na verdade, é vista pelo autor como um uso de uma linguagem menos cuidada, mas, nem por isso, menos civilizada. Um dos indícios dessa visão está em admitir a sua presença, usando o pronome pessoal “nós”, assumindo, assim, esse vício como sendo também seu, apesar de se considerar um homem culto.

Além disso, ele levava em conta a “cor” própria do falar brasileiro que se diferenciava do de Portugal por causa de sua localização entre os trópicos. A verdade, porém, é que se, em Barbosa (1875), essa troca era tão agressiva como as transposições de fonemas, em Cardoso (idem), percebe-se um atenuante em relação ao uso brasileiro das vogais átonas.

Ao se referir, entretanto, às trocas de sons, Cardoso (idem) exclui o “nós” afastando-se daqueles que cometem tal agressão linguística, denominando-os de “rústicos”, da mesma forma que em Soares Barbosa (idem):

Os rústicos trocam as vozes umas por outras, e dizem insupportavelmente: precurador, proluxo, rezão, titor, em lugar de procurador, prolixo, razão, tutor; vigitar, trouve, dixe em lugar de visitar, trouxe, disse (...); por accrescentamento ou por diminuição de sons, dizem: alanterna, avoar, maginação, em lugar de lanterna, voar, imaginação. (Cardoso, 1944, p. 88).

A pronúncia deveria, então, ser ensinada por bons mestres, através da soletração, do conhecimento profundo das diferenças entre os sons elementares da língua. Além disso, era necessário também ao mestre fazer uma leitura pausada, pronunciado os vocábulos no discurso, e ligando tudo por meio de uma “leitura certa, desembaraçada e corrente” (idem, p.89).

Ciente da responsabilidade sobre o “ensino mirabilíssimo, do dificílimo idioma, mas sempre majestoso e doce idioma de nossos antepassados, tão profuso de riquezas sem par, algumas das quais faltam às outras línguas cultas” (idem, p. 17), e acreditando estar realizando um trabalho da mais alta importância para a construção intelectual de seus discípulos, Cardoso (idem) sugere que somente nas escolas de primeiras letras é que se poderiam extirpar os vícios da pronunciação. As crianças apresentam órgãos flexíveis que facilmente contraem o hábito de pronunciar bem os vocábulos e, por isso, a elas devem ser dedicados os primeiros estudos de prosódia e ortoepia.

Como reconhece que na província sergipana não há nem escolas habilitadas para tal “obra civilizadora”, nem mestres-escolas, nem pedagogos competentes para ensinar a boa pronúncia aos discípulos, ele se viu obrigado a coordenar e a compor o seu Tratado, incluindo aí as lições de Prosódia. Mas, adverte: em exames e concursos, será o mais severo e exigente a respeito da Ortoepia e da Prosódia.

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