AIR QUALITY SAMPLING AND ANALYSIS
11 AIR POLLUTION IMPACT
De acordo com M. J. Spink (2000a), risco é uma noção fundamentalmente moderna e faz alusão a uma reorientação sobre as relações das pessoas com os eventos vindouros, tornando-os passíveis de gerenciamento e não mais os deixando à mercê do acaso. Não significa que não houvesse experiências de perigo antes da época moderna, ou que não fosse valorizada a ousadia em contextos históricos diversos. A novidade da era moderna é a ressignificação desses perigos numa perspectiva de domesticação do futuro.
Para a autora, risco incorpora duas dimensões: a primeira refere-se à identidade entre o possível e o provável, pressupõe alguma forma de apreender a regularidade dos fenômenos; a segunda diz respeito ao domínio dos valores, pressupõe colocar em jogo algo que é valorizado. Desse modo, a incorporação da noção de risco como um dos aspectos fundamentais da subjetividade moderna surge como decorrência das transformações sociais e tecnológicas.
No que se refere às transformações sociais, os contornos da sociedade de risco são
definidos a partir de duas orientações. A primeira concerne à progressiva laicização da
sociedade; e a segunda está associada às transformações nas relações econômicas e
sociais que são resumidamente contempladas no que veio a ser chamado de capitalismo
comercial. A perda da hegemonia da Igreja Católica e a ascensão do protestantismo nos
países do norte da Europa favoreceram uma forma de racionalidade condizente com a formatação da revolução científica. Por outro lado, a abertura do comércio favoreceu o desenvolvimento de novas estruturas políticas, incluindo aí a noção de soberania dos territórios nacionais que levou à emergência dos Estados-Nação. Quanto às transformações
tecnológicas, é a emergência da teoria da probabilidade o fator mais proeminente para a
formatação do conceito moderno de risco (M. J. SPINK, 2000a).
Outro aspecto que precisa ser enfatizado é que a emergência da concepção moderna de risco sustenta-se num movimento mais geral de crença na racionalidade humana. Esse eixo marca as relações sociais sobre risco por longos séculos. Um exemplo típico dessa nova racionalidade é a mentalidade securitária, pois os cálculos sobre risco têm
papel fundamental na formatação da moderna valorização da segurança. Não é por acaso, portanto, que o desenvolvimento das instituições seguradoras está colado à postura atuaria de coletar dados populacionais a ao cálculo de probabilidades em função das regularidades assim evidenciadas. A história desses desenvolvimentos incorpora dois âmbitos: de um lado, há uma onda de interesse pelas estatísticas populacionais que abrange toda a Europa: as tabelas de mortalidade e morbidade tornam-se potentes instrumentos para os biopoderes (Cf. FOUCAULT, 1988); as estatísticas populacionais passam a possibilitar o fortalecimento das técnicas de governo. Contudo, por outro lado, são os imperativos comerciais, de definição das perdas e ganhos no comércio de além mar que dão impulso à tecnologia dos seguros (M. J. SPINK, 2000a).
Historicamente, o risco, em sua definição probabilística, referia-se à possibilidade de ganhos ou perdas. Hoje em dia risco perdeu a conotação positiva, nas sociedades modernas risco substitui o efeito forense do “pecado”, embora com diferenças consideráveis decorrentes do crescente individualismo: enquanto a retórica do pecado ou do tabu era usada para a proteção da comunidade por sua vulnerabilidade diante da má conduta de indivíduos, a retórica do risco protege o indivíduo, por ser ele vulnerável à má conduta da comunidade (DOUGLAS, 1992).
M. J. Spink e Menegon (2004) argumentam que desde que os riscos puderam ser pensados na perspectiva da gestão, formataram-se certas constâncias discursivas que nos permitem falar da existência de uma linguagem dos riscos. Para Barbara Adam e Joost Van Loon (2000) a linguagem dos riscos está tradicionalmente relacionada à esfera econômica das trocas e das apólices de seguros, ao mundo médico na relação entre profissionais da saúde e seus pacientes, e aos esportes radicais nos quais as pessoas “arriscam” suas vidas por outros. Nessas circunstâncias tradicionais de risco, as pessoas calculam o risco potencial de certas ações e tomam decisões fazendo escolhas a partir de suas avaliações. Riscos específicos são concebidos e relacionados às pessoas, às famílias e às nações, no que se refere ao bem-estar físico, mental, social e/ou econômico. A linguagem dos riscos é social. A percepção de risco implica uma relação particular com um futuro desconhecido, cuja probabilidade de ocorrer pode, todavia, ser calculada tomando como base acontecimentos passados: uma resposta sociocultural calculada em antecipação a acontecimentos vindouros.
A reflexão de Adam e Van Loon (2000) focaliza o ordenamento do risco na modernidade tardia13, sendo os riscos mais desordenados e menos propensos ao cálculo. Assim, argumentam a favor da necessidade de mudar o gênero prevalente que articula
13A expressão “modernidade tardia” é adotada por alguns autores, como Antony Giddens, Ulrich Beck e Scott Lash, para referir-se a sociedade atual como redesenho da modernidade clássica, não se confundindo, portanto,
riscos e perigos com base no cálculo (que obedece uma lógica binária), para outro gênero
mais relacionado com a reflexão que leve em conta os sentidos que são atribuídos a riscos em diferentes contextos.
Filiamo-nos à proposta de M. J. Spink e Menegon (2004), fundada na teoria linguística de Bakhtin (1979/2006), que sustenta que jamais apagamos as vozes que falam a
partir de outras linguagens sociais, por mais inadequadas que possam vir a ser. As autoras consideram que a linguagem dos riscos que se configura no decorrer dos séculos, desde que risco se tornou objeto de gestão, se expressa de formas variadas quando usada em contextos distintos, por exemplo, no âmbito das três tradições discursivas propostas por M. J. Spink (2001): o governo de coletivos (nas questões de saúde, tecnologia, ambiente), a
disciplinarização dos corpos e a aventura14.
A primeira tradição relaciona-se ao crescente imperativo de governar populações, a partir da modernidade clássica. Referenda, desse modo, medidas coletivas, destinadas a
gerenciar relações espaciais. Nessa tradição discursiva a metáfora mais utilizada para posicionar as pessoas com relação aos riscos é “estar em risco” (M. J. SPINK, 2000a; 2001; M. J. SPINK; MENEGON, 2004).
A segunda tradição funda processos de disciplinarização da vida privada das
pessoas, o próprio corpo é alvo de controle, sendo a educação sua estratégia central (C.f.
FOUCAULT, 1995). A disciplinarização das pessoas contempla duas etapas: na primeira, a disciplina do corpo está na higiene, vinculada ao movimento higienista do final do século XIX
e à moral da prevenção: higiene pessoal, higiene do lar e higiene moral; a segunda acontece no decorrer do século XX, com o aumento da expectativa de vida, por causa do controle de doenças infecciosas e da melhoria das condições sociais, as doenças crônicas tornam-se preocupações centrais da saúde pública, os conhecimentos médicos, progressivamente, definem novos padrões de controle. Uma pessoa devidamente informada é responsável pelo autogerenciamento de sua saúde, o estilo de vida como forma de autocontrole é a face mais célebre dessa reorganização. É nessa esfera emerge uma das mais preponderantes metáforas sobre os comportamentos diante de riscos: “correr riscos”,
no que se alude à prevenção, a lógica é evitar os riscos (M. J. SPINK, 2000a, 2001; M. J.
SPINK; MENEGON, 2004)
A terceira tradição, que vincula os campos da Economia e dos Esportes, assume o legado da positividade da aventura apresentando especificidades discursivas quanto à
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A partir de 2008, a autora sistematiza a tradição das linguagens dos riscos da seguinte forma: risco-perigo, aquele de difícil cálculo, em que os casos são quase sempre imprevisíveis, independem da vontade do agente; risco-probabilidade, trabalhado pelos epidemiologistas, pelos analistas de riscos financeiros, entre outros; e risco-aventura, que são os jogos de vertigem (isto é, que possibilitam a fusão entre a ação e a consciência, gerando a sensação que os adeptos dessas atividades denominam de adrenalina). (Ver, por exemplo, SPINK,
lógica da governamentalidade. Um conjunto de repertórios sobre risco, que escapa à governamentalidade, explicita conotações que fazem do “correr riscos” uma prática imperativa para alcançar determinados ganhos. Tal perspectiva é reinterpretada na modernidade pela Economia. “Correr riscos”, monitorado por taxas probabilísticas, é o elemento intrínseco desse domínio. Alguns dos repertórios próprios da aventura tornaram-se parte integral da Economia, imprimindo singularidades na abordagem de riscos nesse campo de saber: coragem, adrenalina, medo e até mesmo o risco de falência ou de síncope cardíaca (M. J. SPINK, 2000a; 2001; M. J. SPINK; MENEGON, 2004).
Ao longo dos processos de socialização herdamos tensões decorrentes da maneira como certas constâncias discursivas sobre risco foram formatadas na sociedade industrial ou sociedade moderna: 1) tensão entre uma perspectiva coletiva de gerenciamento de risco – apoiada na legislação – e uma perspectiva mais individualista de introjeção da disciplina; 2) tensão entre as visões de leigos e de especialistas - os especialistas mais apoiados na quantificação dos mais riscos enquanto os leigos lançam mão da informação disponível; 3) tensão entre o imperativo da prevenção dos riscos e a percepção de que correr risco ajuda a formar o caráter ou a liberar a criatividade (M. J. SPINK, 2000a; M. J. SPINK; MENEGON, 2004). Essas tensões e diferenças emergem nos distintos gêneros de fala15 utilizados em
campos variados. Embora preservando a idéia de controle baseado em cálculos, a linguagem dos riscos assume conotações singulares e usos específicos, sendo permeada pelos gêneros de fala típicos das práticas discursivas nas diferentes arenas de atividades.
Nas próximas seções deste capítulo abordaremos a linguagem dos riscos no âmbito da saúde, focalizando o discurso epidemiológico e clínico.