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Obviamente, o comentário acima não tem sequer a pretensão de esgotar toda a variedade de leituras críticas que se fizeram e ainda se fazem de Woolf. A intenção foi

12 Michael Cunningham é o autor do romance As Horas, cujo enredo gira em torno do dia de três

mulheres: Virginia Woolf, enquanto escreve Mrs. Dalloway; Laura Brown, que lê Mrs. Dalloway; e Clarissa Vaughn, que vive uma espécie de Dalloway da atualidade. Premiado com o Pulitzer de 1999, As Horas foi levado ao cinema em 2002, com direção de Stephen Daldry.

outra. Procurou-se ressaltar o que este trabalho entende que está na raiz do uso de uma ampla gama de procedimentos literários por parte da inglesa. A saber, que o desejo e necessidade de experimentação em Woolf não são apenas seu modo de escrever, mas também seu objetivo e seu problema ao escrever. Em diversos ensaios, ela deixa clara sua ansiedade.

A vida não é uma sucessão de lanternas de carruagens dispostas em simetria; a vida é um halo luminoso, um invólucro semi- transparente nos envolvendo dos primórdios da consciência até o fim. Não é tarefa do romancista comunicar esta variedade, espírito desconhecido e ilimitado, qualquer que seja sua aberração ou complexidade, com tão pequena mistura de estranheza e formalidade quanto possível? (WOOLF, 2007, p. 75).

Virginia Woolf busca – e não necessariamente condiciona o sucesso de sua empreitada ao encontro do que quer que seja. É na procura, como deixam claros os textos críticos citados acima, que a autora realiza seu projeto. Ou como nas palavras da escritora Doris Lessing, em seu prefácio para A Casa de Carlyle e outros esboços:

O que Virginia Woolf fez pela literatura foi experimentar sempre, tentando fazer com que seus romances apreendessem o que ela via como uma verdade mais sutil sobre a vida. Seu „estilo‟ era uma tentativa de usar sua sensibilidade para fazer da vida o „halo luminoso‟ em que ela insistia ser a nossa consciência (WOOLF, 2010, p. 10).

A própria Woolf, vale lembrar, reforça em seus diários a sua constante preocupação em aprimorar sua escrita e assim conseguir atingir a essência das coisas.

Mas a única utilidade deste livro é que funcionará como um caderno de esboços; como um artista que preenche suas páginas com partes & fragmentos, estudos de roupagem – pernas, braços & narizes – úteis a ele, sem dúvida, mas sem sentido algum para ninguém mais – também eu... apanho minha caneta & traço aqui quaisquer formas que tenha por acaso na cabeça... É um exercício – treinamento para olho & mão -, o tosco, se resulta de um desejo sincero de registrar a verdade, seja lá com que materiais se tiver ao alcance das mãos [...] (Ibid., p. 22).

Mas se estes esboços, contidos em seus diários, funcionaram para Woolf como

“treinamento para olho & mão”, a verdadeira alquimia começa quando a escritora utiliza- se de outro tipo de material: os contos. Virginia Woolf escreveu-os durante toda a sua vida. Dos primeiros, escritos em 190613 e que nem títulos mereceram de sua parte, aos últimos, de 1941, foram os contos que serviram de laboratório para a autora. Através deles, Woolf problematizou a própria escrita. Com eles principalmente, Woolf experimentou.

A maioria destes textos, como testemunha a organizadora da coletânea aqui enfocada, Susan Dick, foi elaborada e reelaborada várias vezes conforme provam hológrafos e cópias datilografadas. Alguns, esboçados apenas, levaram anos para satisfazerem o apurado senso crítico de sua criadora e, ainda assim, permaneceram engavetados. Outros, encomendados por revistas, pareceram divertir Woolf. Outros ainda exasperaram-na. Através de todos, contudo, Woolf ensaiou enredos, personagens e formas de escrever. Em sua introdução à edição norte-americana de The Complete Shorter Fiction, Dick menciona:

Because she was continually experimenting with narrative forms, Woolf´s shorter fiction is extremely varied. Some of her shorter works, such as “Solid Objects” and “The Legacy”, are shorter stories in the traditional sense, narratives with firm story lines and sharply drawn characters. Others, such as “The Mark on the Wall” and “An Unwritten Novel”, are fictional reveries […] Still others, which could be called “scenes” or “sketches”, probably owe a debt to Chekhov, who helped us to see, Woolf remarked in 1919, that “inconclusive stories are legitimate”(1985, p.1). 14

Para esta dissertação, interessa essa variedade – tradução perfeita da busca de Woolf pelo cerne das coisas, quaisquer que sejam os materiais que se tem ao alcance das mãos. E se o que se quer é ler Woolf, uma boa saída é perceber como ela própria descobre e traduz o mundo através da linguagem. Melhor dizendo: ouvir a autora dizer sobre a

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Não estão incluídos em The complete shorter fiction os contos não publicados, escritos na juventude por Woolf, ou mesmo “A Cockney´s Farming Experiences” e “The Experiences of a

Pater-familias” elaborados quando a autora tinha dez anos. A expressão “Primeiros Contos” aqui

se refere àqueles escritos na mesma época em que Woolf passa a colaborar com revistas e periódicos com resenhas e ensaios críticos.

14 Porque ela estava continuamente experimentando novas formas narrativas, os contos de Woolf

são extremamente variados. Alguns de seus textos curtos, tais como “Objetos Sólidos” e “O Legado”, são histórias curtas no sentido tradicional, narrativas com uma história linear e personagens bem definidos. Outras, tais como “A Marca na Parede” e “Um romance não escrito”, são devaneios ficcionais [...] Outros ainda, que poderiam ser chamados “cenas” ou “esquetes”, provavelmente representam um débito com Tchekhov, que nos ajudou a ver, como Woolf mostrou em 1919, que “histórias inconclusivas são legìtimas”.

história que pretende contar e quais os recursos mobilizou para seu empreendimento. Para isso, propôs-se escutar Woolf em textos que, com seu componente metalinguístico, permitem à linguagem problematizar a linguagem.

Buscou-se rastrear, assim, Woolf sob duas perspectivas complementares. Primeiro, ouvindo-a discutir o fazer poético, perceber sua intenção e desejo. Em seguida, percorrendo o caminho literário da autora através da escolha de textos de diferentes momentos de sua carreira, entender melhor como variados procedimentos serviram de respostas provisórias aos seus questionamentos.

Foi aprendendo ao lado da autora o que se pode esperar/desejar de uma história, como se pode “forçá-la” dobrando a linguagem em seus limites a fim de reter a coisa cambiante, que este trabalho organizou percepções, sensações, pensamentos e semi- pensamentos buscando as qualidades de Virginia Woolf.