Já Adam Smith ao colocar no título de sua obra “A riqueza das nações”, toma uma nação103, isto é, um povo com características e costumes comuns e vivendo em um mesmo
território, como pressuposição de suas análises. Um método que acredita ter acesso imediato a realidade empírica enquanto tal – como é o caso daquele adotado por Smith e muitos outros – poderia erguer a pretensão de conhecer um objeto social, como por exemplo, uma “população”, a partir da observação direta dela e de sua divisão em partes:
Ao considerar a economia política de um dado país, começamos por sua população, sua divisão em classes, distribuída pela cidade, campo e mar; os diversos ramos da produção, a exportação e a importação, a produção anual e o consumo anual, os preços das mercadorias etc. É que parece correto começar pelo real e pelo concreto, pela pressuposição efetivamente real e, assim, em economia, por exemplo, pela população: fundamento e sujeito do ato todo da produção social (die Grundlage und das Subjekt des ganzen gesellschaftlichen Produktionsakts). A uma consideração mais precisa, contudo, isto se revela falso. (MARX, Intro., p. 631, 54)
102 Para a análise desse trecho utilizamos por base a tradução de Fausto Castilho publicada na revista Crítica Marxista. Quando necessário alteramos com base no cotejo não apenas com a edição da MEW vol. XIII, mas também com as traduções de Mario Duayer e Nélio Schneider e de Giannotti e Edgar Malagodi. No entanto, mantivemos as paginações da edição alemã e da edição brasileira de 2011 como vinha sendo citado nos capítulos anteriores.
103 Ao tomar uma “nação” como estado que tem como finalidade garantir que o mercado possa autonomamente gerar riqueza, Smith dissimula seu ponto de partida já como nação capitalista e estado liberal. Diz Marx no final desta seção: “O próprio conceito de riqueza nacional só lentamente penetra na ciência econômica do século XVII – representação que subsiste, em parte, entre os economistas do século XVIII –; a riqueza é produzida meramente para o Estado e seu poderio (Macht) é proporcional a ela. Era a fórmula, ainda inconscientemente hipócrita, em que se anunciava que a própria riqueza e sua produção são a meta dos Estados modernos, considerados exclusivamente como meios de produzir riqueza.” (MARX, Intro, 2011, p.632, 61).
De fato, a realidade concreta existente é uma pressuposição da pesquisa, no entanto, esse real enquanto tal não está disponível como ponto de partida para a ciência. Isto porque esse “real e concreto”, na medida em que abrange diversas relações internas, necessita ser exposto em seu pormenor, imanentemente (como vimos no caso da produção que abrange diferentes momentos, formando um processo ou um circuito que equivale a uma totalidade orgânica). Uma vez que se começa pelo mais concreto, pelo todo, este perde sua concretude revelando-se apenas um conceito abstrato, que oculta justamente aquelas relações que o tornariam “concreto”. Onde os economistas procuravam uma representação plena, apenas atingiam uma representação caótica. Em outras palavras, se, com o pretexto de partir do efetivo e do concreto, empiricamente falando, partíssemos da população, da nação e etc, na verdade estaríamos partindo da abstração mais vazia:
A população, por exemplo, se omito as classes que a constituem, é uma mera abstração. Estas últimas, por sua vez, são uma expressão vazia se não conheço os elementos sobre os quais repousam, a saber, o trabalho assalariado, o capital etc. (…) Se começasse pela população, haveria de início uma representação (Vorstellung) caótica do todo, e só através de determinação mais precisa (durch nähere Bestimmung) eu chegaria analiticamente (analytisch), cada vez mais, a conceitos (Begriffe) mais simples. Partindo do concreto representado (von dem vorgestellten Konkreten), chegaria a [conceitos] abstratos sempre mais tênues, até alcançar, por fim, as determinações mais simples (die einfachsten Bestimmumgen). (MARX, Intro., p. 631, 54).
A complexidade do concreto impede que ele possa ser tomado de saída como pressuposição efetiva e pensada. Essa pretensão de acesso imediato ao todo contém a ingenuidade de querer começar a conhecer o todo complexo diretamente pelo todo, de uma só vez, em suma, como se já nesse ponto de vista inicial o todo já fosse conhecido. Ora, nesse caso ao tentar atingir imediatamente o “real” e “concreto”, a “pressuposição efetivamente real”, tudo o que se acerta é “uma representação caótica do todo”, “mera abstração”, “representação vazia”. Semelhantemente às duas primeiras posições da consciência na Fenomenologia do Espírito de Hegel, a pretensão de conhecimento que tenta de uma só vez abarcar a realidade, seja por meio de um apontar, seja pelo perceber, malogra justamente por não perceber que o que chama de todo ou de realidade é justamente uma representação abstrata que foi produzida pela própria consciência. Daquele concreto existente temos uma representação que, de todo modo, se situa já no “mundo conceituado”. O todo (tanto o existente quanto o representado) possui, em cada momento particular múltiplas relações e determinações mais simples, que, em suas articulações, tornam o todo complexo. Sendo
assim, é uma necessidade metodológica de toda ciência que trata de objetos que se comportam como uma totalidade orgânica, que o objeto seja compreendido em todas as suas relações e nexos mais simples, e apenas assim, o todo pode ser reconstruído. Ele deve ser exposto reconstrutivamente. No pensamento reconstrutivo, o todo não é ponto de partida, mas ponto de chegada, há de ser construído no processo teórico. Nesses termos, uma vez que se saiba que é impossível captar a realidade efetivamente existente de modo imediato, o que se pode fazer é, seguindo o caminho já há muito indicado por Aristóteles, operar a abstração do todo, dividindo-o analiticamente em quantas partes forem necessárias, chegando por isso aos conceitos simples e encontrando para eles um significado adequado. Esse é o método analítico, isto é, toma-se uma representação do todo e mediante divisões e separações, análises e abstrações, pode-se determinar as várias partes do todo e observá-las isoladamente. Mas esse método, como Marx apontou em A Miséria da Filosofia, é absolutamente trivial. Vejamos que no procedimento da ciência aciona o tempo todo conceitos. O real efetivamente existente, que parecia à economia ser o ponto de partida, permanece intocado, impenetrado pela intuição e pela percepção. A única força capaz de penetrá-lo é aquela abstração do pensamento que faz do real uma representação ainda caótica e forja mediante análise os conceitos e relações mais simples que as partes estabelecem entre si. Esse método analítico, portanto, pretendia partir do todo existente e chegar ao seu conhecimento, enquanto na verdade apenas parte de uma representação caótica, vazia e abstrata e chega a conceitos mais abstratos e simples. Portanto, malogra. Ora, segundo Marx, foi esse o procedimento adotado pelos economistas clássicos desde a origem da economia moderna como ciência burguesa.
O primeiro caminho é aquele que a Economia percorreu em sua gênese histórica. Exemplo: os economistas do século XVII que sempre começam por um todo vivo (dem lebendigen Ganzen) – população, nação, Estado, vários estados etc. –, mas
sempre terminam por algumas relações gerais, abstratas, determinantes (einige bestimmende abstrakte,allgemeine Beziehungen) – divisão do trabalho, dinheiro, valor etc. – que eles descobriram por análise. (…) No primeiro caminho, toda a representação se desvanece em determinação abstrata. (MARX, Intro., p. 631-632, 54).
O método dos economistas clássicos é empirista porque pretende captar pela intuição imediata e pela representação analítica a concretude da realidade. No entanto, com o método analítico-empirista aquele todo vivo – e justamente por isso orgânico – é tomado como ponto de partida simples para chegar a conclusões mais simples ainda, ou seja, parte-se do complexo como se fosse algo já conhecido para se descobrir como conclusão da pesquisa, as relações simples que ocorrem dentro desse todo. E isso é uma característica do próprio processo
abstrativo, que embora seja um ato cognitivo inicial e necessário, o momento analítico da razão, se caracteriza justamente por separar da representação, um a um, seus múltiplos conteúdos. Com isso, o pensamento analítico produz uma certa ilusão: separa uma parte do todo e a considera como todo. A essência do método analítico é, portanto, analisar uma parte abstraída de modo isolado, isto é, toma a parte enquanto todo. As determinações abstratas são constituintes da própria coisa, são os momentos reais em um nível essencial que estruturam o “pano de fundo”, que é a existência do objeto, em categorias. No entanto, na medida em que as determinações são mantidas como momentos abstraídos, separados, oculta-se um outro conjunto de determinações igualmente reais. Ora, nesse método o que se perde é justamente o todo. Aliás, a principal característica da abstração, como Aristóteles, Hegel e Marx já afirmavam, é justamente ser aquela operação que mata o todo vivo. Aquela sociedade viva e complexa é reduzida primeiramente a uma representação caótica e várias determinações abstratas que são incapazes de exprimir justamente o que se pretendia no início: o conhecimento do todo. Mas se o todo não está disponível imediatamente, poderíamos presumir a existência de um caminho alternativo àquele que o toma como representação e dele faz análise? Pode-se dizer que não. Este método da análise é necessário ao conhecimento, uma vez que apenas por abstração a realidade pode começar a ser conhecida. A crítica de Marx contra o método dos economistas políticos não vai no sentido de afirmar que o método analítico, que privilegia a abstração, esteja errado em si, mas antes, a crítica é pelo fato de terem parado na abstração e não prosseguido até o segundo momento do método. Tomar as partes como todo resulta na perda da visualização do todo, ou, o que é o mesmo, na perda da realidade. O método analítico utilizado sozinho é incompleto e, portanto, ainda não científico. É necessário o poder unificador da razão.