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De longa data, a enseada do Mucuripe era o lugar privilegiado para desembarque e descanso de marujos aventureiros. Os estrangeiros que ali paravam conviviam com pequenas comunidades indígenas que sobreviam basicamente da pesca e da coleta de frutos da terra e do mar. Na memória de antigos pescadores artesanais, em meio às modificações na paisagem litorânea, percebe-se um tímido reconhecimento dessa ancestralidade comum, materializadas nos fragmentos da presença indígena que outrora dominava toda essa região.

Mucuripe acolhe todo mundo, Mucuripe é um simbolo indígena. No começo esse porto era habitado por índios e somos descendentes de índio. Suas balsas foram as primeiras. Não trabalhavam com teoria, mas aos poucos as coisas foram se desenvolvendo. O porto do Mucuripe é a capital, foi onde tudo começou. O primeiro porto, as primeiras casas de Fortaleza.33

Sabe-se, no entanto, que o território praiano tinha significados bem diferenciados para as populações indígenas nativas e para os colonizadores que posteriormente implantaram o comércio portuário. Se para o branco colonizador a terra e o mar eram, sobretudo, um meio de produção de riqueza, para os povos indígenas a natureza, além da garantia a sobrevivência, constituía um território de valor simbólico mediante o qual se definia a própria identidade coletiva.

Com os aldeamentos missionários que se estabeleceram na Capitania do Siará, no início do século XVII, diversos grupos indígenas que habitavam o litoral foram dizimados ou incorporaram os novos valores culturais dos colonizadores, ao passo que outros migraram para regiões mais afastadas da vigilância e da violência impetrada na orla da Capitania.34 Historicamente, a excursão do homem branco nessa região alterou

33 Entrevista com o mestre de jangada José Eremilson Severiano Silva. In: CARUSO, Raimundo C.

Aventuras dos Jangadeiros do Nordeste. Florianópolis: Panam Edições Culturais, 2004, p. 74.

34“O genocídio e etnocídio perpetrados contra os povos indígenas tiveram como decorrência o quase desaparecimento da cultura indígena do território cearense. É fundamental que se perceba neste processo que um dos seus instrumentos mais eficazes foi a expropriação dos territórios desses povos, a fim de possibilitar a expansão da pecuária. Esse processo – apesar de a Constituição de 1988 ter garantido a

42 bastante os modos de vida. Assim, a adoção da agricultura, por exemplo, que até então era uma atividade estranha à maioria dos grupos indígenas, implicou profunda transformação nas formas de subsistência. Ao longo do tempo, passou a ser cada vez mais comum a conciliação de múltiplas atividades, do cultivo do roçado aos serviços de turismo, com a prática da atividade pesqueira.

Figura 1: Dunas do Mucuripe em 1970. Apesar das adversidades naturais, muitos trabalhadores do mar já ocupavam essa região. Fonte: Nelson Bezerra, 1970.

Na primeira metade do século XIX, um farol para guiar as embarcações foi finalmente instalado na ponta de mar do Mucuripe. Esta área era um ponto estratégico de proteção da cidade.35 Como um dos primeiros ancoradouros da Capitania, apesar da rusticidade do porto, embarques e desembarques de toda ordem se sucediam, fazendo da zona portuária um desfile de embarcações abastecidas de mercadorias. Ao longo do tempo, inúmeros trabalhadores migraram para essa região. A localização nas proximidades da zona portuária possibilitou a formação de sociabilidades bastante específicas, perfazendo ali uma comunidade cultural bastante diversificada.

demarcação dos territórios indígenas – continua, pois o Ceará, e em vários estados da federação, não tem sido feita demarcação das terras indígenas”. Ver: PINHEIRO, Francisco José. Mundos em confrontos:

povos nativos e europeus na disputa por território. In: SOUZA, Simone. Uma nova História do Ceará, p. 39.

35O Farol do Mucuripe era um antigo fortim construído para evitar as invasões estrangeiras. “O plano para a construção do farol do Mucuripe foi apresentado a D. Pedro I pelo presidente da província do Ceará, no dia 17 de agosto de 1826.” A construção só terminou em 1846, sendo reformado em julho de 1872, em comemoração ao aniversário da Princesa Isabel. Cf.: Jornal O Povo, 12/07/1982, p. 29. O farol foi desativado nos anos 1950 e, mais recentemente, transformado em Museu do Jangadeiro. No Museu, no entanto, não havia qualquer referência aos jangadeiros, grande parte do antigo prédio foi ocupada com informações do projeto de energia eólica, de tecnologia alemã, instalado na Praia Mansa, em 1996. O Museu foi desativado e o prédio hoje está praticamente em ruínas.

43 A cidade de Fortaleza assumiu a hegemonia política e econômica do Estado e suas riquezas, sobretudo com suporte no rico comércio do algodão, em detrimento da criação de gado, começaram a descer pelo litoral e não mais pelos rios. O primeiro grande porto de Fortaleza, erguido ainda no período imperial, entretanto, foi construído na região central da Capital e não na longínqua enseada do Mucuripe. À época, o porto do Mucuripe foi excluído em decorrência da distância, de cerca de cinco quilômetros, que separava esse povoado da então sede do Município.

Esse período marcou a cidade e o mundo contemporâneo com intenso fluxo de mudanças que produziu transformações de ordem urbana, política e econômica, bem “(...) como também afetou profundamente o cotidiano e a subjetividade das pessoas, alterando seus comportamentos e suas condutas, seus modos de perceber e de sentir.”36

O Nordeste do Brasil ingressava nos quadros do capitalismo que então se mundializava mais rapidamente. As principais cidades brasileiras, incluindo Fortaleza, passaram por um processo de mudanças e, na segunda metade do século XIX, promoveram reformas que procuravam sintonizá-las ao modelo europeu de modernização urbana.

Com o advento do porto e o desenvolvimento da cultura do algodão, voltada à exportação comercial, a abertura de Fortaleza para o mar aconteceu. Nesse sentido, outra novidade, inscrita no domínio tecnológico e complementar da primeira, refere-se à construção do sistema ferroviário ligando Fortaleza ao sertão. Após a inauguração da estrada de ferro, possibilitou-se a ampliação do importante fluxo demográfico do sertão para o litoral. Com a chegada ao litoral, “(...) esse contingente interiorano confronta-se com o meio e constrói uma cidade que exprime as relações com o semiárido. Fundando- se em novas representações do litoral, anuncia-se a criação de novo homem e de nova sociedade em Fortaleza.”37

Na região litorânea, em meio à vivência social de trabalhadores oriundos de vários lugares e diversificadas matizes, ocorreu a emergência de uma cultura local híbrida, mas que se constitui com base numa relação fundamental com o mar. Esses saberes que hoje apontam a existência de certa sensibilidade marítima, portanto, têm suas raízes em práticas culturais mais antigas.

36 PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époque: Reformas urbanas e controle social (1860-1930). 3° ed. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2001, p. 54.

37 DANTAS, Eustógio Wanderley. Mar à vista: Estudo da maritimidade em Fortaleza. Fortaleza: Museu do Ceará / Secretaria da Cultura e do Desporto do Ceará, 2002, p. 31.

44 Da contínua prática da migração sertaneja rumo à Capital cearense, surgiram diversas estratégias de ocupação e luta popular pela moradia. Notadamente, as iniciativas dos grupos migrantes interferiram diretamente no acelerado processo de formação dos bairros e comunidades, tanto na área do Centro quantro nas regiões mais periféricas da cidade. Mais especificamente, este estudo está focado nos sujeitos sociais que ocuparam a região praiana do Serviluz, localizada na enseada do antigo Mucuripe, em Fortaleza.

Figura 2: Fotos comparativas da ocupação da enseada do Mucuripe em Fortaleza de 1958 a 1998. As imagens evidenciam como o processo de ocupação dessa área intensificou-se bastante após a década de 60. Foto: Proposta de Tombamento da Paisagem Cultural do Titanzinho, CPHC, SECULTFOR, PMF 2010.

Historicamente, essa região passou por vários surtos populacionais decorrentes das diversas correntes migratórias, caracterizadas pela chagada de grupos de trabalhadores que se fixaram nessa ponta do litoral. Muitos dos retirantes, que fugiam das constantes estiagens que assolaram o Estado, buscaram nessa área um refrigério para as calamidades da seca. Por isso, o litoral mais imediato aos arredores do porto tornou-se um lugar cada vez mais concorrido, engendrando a disputa entre os trabalhadores do mar e outros grupos que recorrentemente migraram para essa região.

45 Contraditoriamente, a orla tanto era vista como ponto de passagem, transição e fuga, quanto lugar para fixação definitiva dos trabalhadores na cidade.

O escritor Rodolfo Teófilo estimou que, na grande estiagem registrada em fins do século XIX, por exemplo, dois terços do eleitorado da Província estavavam deslocados, tinham emigrado e carregavam pedras na antiga pedreira do Mucuripe. Já nesse período, o pacato povoado do Mucuripe passou a receber um grande contingente populacional e a ser palco de conflitos diversos: “A soldadesca açulada pela incerteza da impunidade dos crimes, na mais infernal algazarra, na mais estupida zombaria, corria a galope em direção ao Mucuripe, enquanto mais de cem infelizes gemiam deitados na areia da praia.”38

No fim dos anos 1970, porém, ocorreu a migração de uma quantidade e uma variedade bem maior de trabalhadores. Especialmente dedicados à realização de profissões urbanas, esse contigente proporcionou um inchaço populacional repentino, que transfigurou o espaço da praia e as tradições locais.

Assim, a comunidade Serviluz no decorrer dos anos 1980 já apresentava uma população estimada em cerca de 18 mil habitantes. Hoje, pesquisa das associações de moradores afirmam que o bairro tem cerca de 30 mil pessoas, alocados nas várias subdivições constituídas localmente, principalmente: Estiva, Favela, Fronteira, Titanzinho, Rastro, Pracinha e Sardinha.

À medida que a especulação imobiliária e o capital industrial constantemente forçaram os deslocamentos populacionais, a luta comunitária contra essas remoções exigiu novas estratégicas de mobilização e resistência. No desenvolvimento da experiência urbana, o surfe inrrompeu como elemento fundamental nesse ambiente, renovando as tradições culturais, produzidas na tensão entre uma prática universal e suas apropriações no contexto local.

38 TEÓFILO, Rodolfo. História da seca no Ceará (1878-1880). Rio de Janeiro: Imprensa Inglesa, 1922, p. 194.

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Figura 3: Mapa da Comunidade Serviluz em Fortaleza. Essa área corresponde a ponta de mar mais avançada no litoral da cidade. Fonte: Prefeitura Municipal de Fortaleza, Secretaria Municipal de Planejamento (SEPLA), 2012.

Este mapa demonstra que, formalmente, a área do Serviluz está situada dos bairros Cais do Porto ao Vicente Pizon, constituindo-se de partes desses dois bairros. A área não se configura, entretanto, exatamente como bairro oficial na administração pública municipal. Desse modo, a identidade e a cultura local foram se forjando quase que às margem dos limites da cidade oficial. Os mapas urbanos evidenciam que o chamado cenário Serviluz não está de acordo com os limites oficiais estabelecidos pela Prefeitura de Fortaleza. A divisão administrativa, portanto, não corresponde à dinâmica de organização popular e não privilegia as distinções socioculturais da localidade. Este fato indica, além do histórico descaso do Poder Público, que a população se formou com base na constituição de redes informais de identificação, elaboradas por outros critérios de definição dos territórios. Principalmente, os dados oficiais não descrevem os modos de vida das pessoas que antes corriam na vela das jangadas e que agora deslizam sinuosamente sobre pranchas.

Desde as mais antigas tribos indígenas, até o período anterior aos anos 1960, essa área era caracterizada essencialmente pela prática da atividade pesqueira. Antigo ancoradouro, essas águas e areias foram utilizadas por várias populações migrantes que ali aportaram em busca de trabalho. Desse modo, o entendimento do imaginário social desses sujeitos passa, essencialmente, pela percepção das relações e sensações experimentadas no mundo do trabalho. Ao longo das gerações, a história desse povo constituiu-se com suporte em sucessivos desenraizamentos experimentados na luta pela

47 sobrevivência. No caso do Serviluz, a diversidade de ocupações evidenciou-se à medida que se mapearam as características intrínsecas aos diversos grupos de trabalhadores locais, notadamente estivadores, pescadores, prostitutas, operários da indústria, do setor de turismo, trabalhadores informais, entre outros.

Figura 4: A comunidade Serviluz, o Porto do Mucuripe e a Praia Mansa (à esquerda). A imagem indica como a comunidade cresceu espremida entre o oceano Atlântico e os empreendimentos portuários e industriais instalados na enseada do Mucuripe. Foto: Proposta de Tombamento da Paisagem Cultural do

Titanzinho, CPHC, SECULTFOR, PMF, 2010.

As áreas de praia foram se configurando como espaços estratégicos para inserção no mundo do trabalho, muitas vezes, de modo provisório. Nesse decurso de ocupação do litoral, surgiram, ainda nos anos 1970, os primeiros jovens praticantes de surfe nessas águas e, aos poucos, o surfe se configurou também como modalidade de trabalho. Na praia do Titanzinho, entretanto, os surfistas locais são herdeiros diretos de uma ambiência social que gravitava em torno da pesca. Além disso, passaram a conviver diariamente com diversos tipos de trabalhadores que nesse período se fixaram nessa parte do litoral. Em meio a toda essa diversidade cultural, o surfe foi gradativamente se consolidando e transformando o cotidiano da localidade.

No contexto de explosão demográfica, surgiu enorme massa de jovens, habitando as pequenas localidades que circundavam o complexo industrial e portuário, inclusive a área da Praia Mansa39 gerenciada pela Companhia Docas do Ceará.40 Vale

39 A Praia Mansa é um pequeno trecho de praia, situada no litoral leste de Fortaleza, na zona do Porto do Mucuripe. Foi formada na construção do espigão que se tornou necessário para o porto. Assim ocorreu um processo de sedimentação de areia que propiciou a formação da Praia Mansa. Esta praia é de responsabilidade da Companhia Docas do Ceará, porém sua propriedade é questionada, pois está em uma área em Marinha. Ultimamente voltou a ser palco de discussões por ser espaço cobiçado para a construção de um grande projeto turístico que ocupou a praia e retirou os pescadores remanescentes. 40 A Companhia Docas do Ceará é uma sociedade de economia mista do Estado e do setor privado. Foi constituída em 1965 e tinha a finalidade de exercer a exploração utilitária do Porto do Mucuripe e

48 ressaltar, porém, que algumas práticas sociais que se constituíram vinculadas ao surfe foram inicialmente rejeitadas pela comunidade. No imaginário local, até o inicío dos anos 1990, essa prática ainda não estava diretamente relacionada ao mundo do trabalho e não representava a propagada imagem positiva dos corpos saudáveis. O ato de surfar não era considerado modalidade educativa de qualquer espécie e não figurava entre as principais opções de lazer de jovens ou adultos. O surfe foi durante certo tempo uma prática considerada estrangeira, marginal e invasiva. Em função do contexto de criminalidade que assolava a comunidade, e do localismo característico do próprio surfe, muitos surfistas foram associados às brigas de gangues e ao uso abusivo de drogas. Nas entrevistas, foi reiteradamente dito que uma série de preconceitos recaía sobre os pioneiros da prática do surfe, configurando-se, durante certo tempo, uma memória negativa dessa atividade.

Nesse sentido, foi imprescindível problematizar o diálogo entre sujeitos e gerações, apreendendo as vivências intercambiadas por esses trabalhadores no litoral de Fortaleza. Tendo a emergência do surfe como ponto de partida, a percepção dos sentimentos de igualdade e de diferença se constitui em processos de reconhecimento da alteridade e da formação das identidades locais.

Nessa ambiência urbana, foi preciso pensar o sentido contraditório da Modernidade como o tempo do desenvolvimento perpassado pelo descompasso da diferença e descontinuidade cultural. Mediante práticas corporais, aparecem elementos para compreender o “modo desviado” com que as classes populares se incorporam ao sistema político e aos processos econômicos mundiais. Desse modo, foi preciso pensar a importância do global e do local na negociação cultural. O povo, nessas circunstâncias, aparece como sujeito concreto que engendra formas de resistências diversas.

A cultura urbana e os processos de apropriação cultural das áreas litorâneas do Nordeste brasileiro, nessa esteira, podem ser captados com o questionamento dos usos sociais, das recepções culturais, das mudanças de atitude e da construção de outras memórias comunitárias. Assim, convém evitar algumas possibilidades de modernidade, que se reduzem à imitação de padrões estabelecidos, e enxergar uma diferença cultural que não se esgota no simples atraso. No Brasil, a modernização foi marcada pela

progressivamente dos serviços portuários em toda a costa do Ceará; mas responsabiliza-se somente pela atividade no Porto do Mucuripe em Fortaleza. Fonte: Anuário Estatístico do Ceará, 1966. Companhia Docas do Ceará – Folder explicativo, 2009.

49 explosão urbana desigual e pela cisão, às vezes bastante superficial, das sociedades ditas tradicionais. Nas grandes cidades, a conjugação do crescimento demográfico com a migração camponesa provocou a configuração de uma sociedade de massa marcada por distintas formas de segregação dos lugares e grupos sociais. Some-se a isto, por exemplo, a forte inclusão de algumas cidades nos mais diversos fluxos turísticos contemporâneos.

No processo de “tradução” cultural para o discurso modernizador, nos lugares onde a diferença sociocultural não é tão “grande” ao ponto de se constituir como patrimônio nacional, ela tenderá a ser folclorizada e oferecida como curiosidade aos estrangeiros. Essa perspectiva sugere caminhos para pensar a relação entre natureza e cultura com a constituição de novos circuitos e ramificações, proporcionados tanto pelas migrações internas quanto pelo fluxo do turismo internacional, notadamente ascendente no Nordeste do Brasil, muito expressivamente na cidade de Fortaleza.

Como consequência, tem-se, nos anos 1970, a ocupação da totalidade das praias da zona urbana de Fortaleza. Do farol do Mucuripe à praia da Barra do Ceará, os atores transformam a zona em lugar privilegiado de veraneio, de lazer, de trabalho, de habitação, aproveitando-se das características físicas e marcando-o conforme seus hábitos, valores e costumes.41

Nesse sentido, a tentativa de especialização funcional da orla para a indústria e para o turismo não chegou a inviabilizar todos os velhos usos do litoral. Movimentos de resistência e adaptação à nova dinâmica de valorização se faziam constantemente na composição da nova paisagem social. O litoral passou a vivenciar o entrecruzamento de variadas tradições culturais. Dos antigos usos como tratamento medicinal ao surgimento dos esportes vinculados à natureza, observa-se uma transformação significativa dos espaços litorâneos, mas que não conseguiu suplantar totalmente algumas práticas culturais das praias nordestinas.

No Ceará, o crescimento ganancioso da especulação imobiliária e o inchaço demográfico desordenado, propiciaram nas últimas décadas o acirramento dos enfrentamentos entre pobres e ricos pelas áreas do litoral. Historicamente, as zonas de praia se tornaram espaços conflituosos, marcados por duas lógicas distintas: uma representada pelos usos tradicionais (o porto, a pesca e a habitação dos pobres); e outra

41 DANTAS, Eustógio Wanderley Correia. Mar à vista: Estudo sobre a maritimidade de Fortaleza. Fortaleza: Museu do Ceará / Secretaria da Cultura e Desporto do Ceará, 2002, p. 62.

50 pelas novas práticas marítimas, notadamente os tratamentos terapêuticos da brisa, os banhos de mar e o veraneio.42

Figura 5: Vista Panorâmica da Praia do Titanzinho em Fortaleza. A imagem demonstra como o amontoado de habitações da comunidade ocupou uma faixa continental, em mar aberto, localizada na ponta de terra mais avançada do longo litoral do Ceará. Foto: Jeová Meirelles. Ver: Proposta de

Tombamento da Paisagem Cultural do Titanzinho, CPHC, SECULTFOR, PMF, 2010.

Ao abordar a questão das identidades e mediações culturais na contemporaneidade, Stuart Hall43 observou como multiculturalismo se tornou um termo com significado bastante oscilante e contraditório. Desse modo, o multiculturalismo também se fez uma ideia profundamente questionada. O autor entende, no entanto, que multicultural ainda é um vocábulo qualificativo, que permite descrever características sociais, estratégias políticas e problemas de governabilidade em comunidades culturais diferentes. A identidade cultural e os projetos políticos das comunidades surgem como peças-chave para as estratégias sociais. Atualmente, essas relações “(...) são deslocadas e reencenadas como lutas entre forças sociais nativas, como contradições internas e fontes de desestabilização no interior da sociedade descolonizada, ou entre ela e o sistema global como um todo.”44

A globalização, nesse sentido, configura-se como processo histórico mais antigo. A exploração, a conquista e a colonização europeia devem ser entendidas como manifestações de um processo histórico secular. Desde os anos 1970, contudo, esse processo tem assumido novas formas e ganhado mais intensidade, produzindo como