3. Results
3.2 Comparing transmitted and reflected light
Michel Chion (2008) define três tipos de escuta, tendo em conta a forma como ouvimos e aquilo que os sons nos transmitem. Acrescenta, aliás, o termo “atitude”, falando não de tipos de escuta, mas sim de “atitudes de escuta”: escuta causal; a escuta semântica; a escuta reduzida.
A primeira atitude de escuta refere-se à ligação mais óbvia entre o som e a causa desse som. Nem sempre a fonte sonora é visível, mas como refere Michel Chion “identificada por um saber ou por uma suposição lógica a seu respeito. Também neste caso, é sobre esse saber que se exprime a escuta causal, que raramente parte do zero.” (2008, 27). A atitude de escuta causal implica, portanto, que já tenhamos informação sobre esse som e que identifiquemos, sem hesitações, a sua causa. A escuta semântica é a “que se refere a um código ou a uma linguagem para interpretar uma mensagem: a linguagem falada, evidentemente, bem como os códigos, a exemplo do Morse.” (idem, 29).
Quando a atitude de escuta tem como objetivo identificar as qualidades e as formas específicas de timbre e textura de um som, chama-se atitude de escuta reduzida. Este conceito parte de Pierre Schaeffer e é importante por demonstrar que, além da causa do som, também as suas qualidades físicas são importantes para o seu valor afetivo, emocional e estético (Chion 2008, 29-31). Associados a esta atitude de escuta aparecem dois outros conceitos: acusmática e objeto sonoro.
1.2.1.1 A acusmática.
A palavra tem origem na Antiguidade Grega, mas o conceito de acusmática foi teorizado por Pierre Schaeffer e é uma caraterística de coisas como o rádio, leitores de cd, gira-discos, ou de plataformas digitais de difusão em streaming como o spotify ou o
itunes e que são parte essencial e integrante do quotidiano humano (Nowak 2016). Estes são exemplos dos considerados media acusmáticos, pois permitem que ouçamos sem ver a causa original do som (Chion 2008, 61;). Sobre o conceito aqui em causa, Pierre Schaeffer refere que:
[…] marks the perceptive realty of sound as such, as distinguished from the models of this production and transmission. The new phenomenon of telecommunications and the massive diffusion of messages exists only in relation to and as function of a fact that is been rooted in human experience from the beginning: natural, sonorous communication. (Schaeffer 2015, 77).
Assim, a acusmática não se trata de saber como a escuta interpreta ou deforma a realidade, mas sim a própria escuta que se torna a origem dos fenómenos a serem estudados, sem que as fontes sonoras ou causas da produção do som sejam intervenientes no processo de escuta. A experiência acusmática é uma atividade percetiva que dá origem ao conceito do objeto sonoro (idem 2015, 76-79).
1.2.1.2 Objeto(s) sonoro(s).
A term coined by Pierre Schaeffer to describe the smallest self-contained particle of a soundscape. Though it may be referential (i.e. a “bell”), it is to be considered as pure sound, independent of it source and of any semantic content (Cox e Warner 2015a, 413).
Apesar da definição, em cima citada, não ser a do próprio Pierre Schaeffer, responsável pelo conceito, parece-me pertinente neste contexto, pois, sem por em causa a definição original, engloba o conceito de paisagem sonora, levando assim a definição de objeto sonoro para fora do âmbito restrito da criação artística e da análise musical. Assim, um objeto sonoro não é um instrumento musical, uma fita magnética, ou qualquer outro objeto de reprodução de som. Na experiência acusmática, ao não identificarmos a fonte e ao questionarmos o que é que estamos a ouvir, obtemos, independente de qualquer referência, o objeto sonoro. Schaeffer argumenta que “When listened to by a dog, a child or a Martian, or a citizen of another musical civilization, this signal takes on another meaning or sense. The object is not an object except to our listening.” (Schaeffer 2015, 79). Este conceito refere-se assim a uma unidade sonora percebida na sua matéria, textura, qualidades e dimensões percetivas próprias que, enquanto objeto da perceção, se efetiva na audição (idem, 79-81).
Esta abordagem do som enquanto objeto, também é partilhada por Roger Scruton que considera os sons objetos secundários e eventos puros. Scruton defende, tal como Schaeffer, que os sons estão ligados à experiência da audição:
Sounds, I suggest, are objects in their own right, bearers of properties, and identifiable separately both from the things that emit them and from the places where they are located. If you ask to what category of objects they belong, then I will say first that they are ‘secondary objects’, in the way that colors are secondary qualities […]; second that they are events […]; and third that they are ‘pure events’—things that happen but don’t happen to anything […]. (Scruton 2009, 50).
Com esta objetificação do som, Scruton rejeita a perspetiva fisicalista que (apesar de também considerar os sons como eventos) repudia a ideia de que os sons estão essencialmente associados à experiência de ouvir. Conforme explica, os sons ao serem descolados das suas causas físicas, tornam-se eventos puros capazes de provocar outros eventos – “Hearing sounds in this way, we rely at every point upon our ability to deal with them as real individuals, while neither reflecting on nor hypothesizing the background causality from which they arise.” (Scruton 2009, 67) e acredita que só a perspetiva dos sons enquanto objetos - detentores de propriedades audíveis, que ocupam o espaço, se movem e se relacionam de forma espacial - permite que sejam organizados
para fixar e construir o espaço auditivo (Scruton 2009). Neste sentido, a perspetiva do autor é importante para sustentar a minha proposta de que o som, como qualquer outro objeto (no sentido mais tradicional de objeto), como uma peça de mobiliário, um eletrodoméstico ou um objeto de decoração, possa ser movido, transportado e manipulado para poder dar sentido ao quotidiano e construir o espaço doméstico.