2. SENTRALE KONSEPTER OG BEGREPER
2.3 A SSOSIATIVE LYTTEFORMER
2.3.4 Affektiv lytting
O conjunto de recortes conformados sob o tema Thales de Andrade para a hemeroteca, e denominados de pastas, ao serem extraídos do veículo de imprensa do qual faziam parte, adquirem nesta outra forma de organização um novo estatuto. Não são mais tão somente textos jornalísticos. Recortados dos seus antigos suportes passam a constituir outra materialidade, um novo objeto cultural, o qual guarda marcas da sua produção e dos seus usos enquanto material de imprensa.367 Não são, porém, um impresso. Os percursos de produção e distribuição de impressos são invertidos na configuração de pastas. Teriam ocorrido antes, ainda quando eram jornais. Mas agora, reunidos aleatoriamente sem ordenação temática ou cronológica, por exemplo, aparecem como uma coletânea reduzida a um único assunto, Thales de Andrade, e organizada pelos funcionários da instituição municipal.
366 Inicialmente os recortes eram acondicionados em pastas A-Z. Com o passar do tempo foram reorganizados em volumes encadernados. Entretanto, a antiga denominação de pastas perseverou entre os funcionários da Biblioteca e assim continuam a serem identificados.
367 Cf.: Maurilane Souza Biccas; Marta Maria Chagas de Carvalho, “Reforma escolar e práticas de leitura de professores: a Revista do Ensino”. In: Marta Maria Chagas de Carvalho; Diana Gonçalves Vidal. (Org.).
Ao contexto de produção das pastas soma-se outra forma de apropriação dos conteúdos gerando novos produtos culturais pela via das pastas e não pelo caminho dos acervos dos jornais originais. Tem-se então outro objeto da cultura, que é algo como um impresso reconfigurado sendo oferecido como uma nova fonte à pesquisa.
As pastas assim compostas também apresentam especificidades no que diz respeito ao seu uso. Devido à sua localização, pública e acessível, a Biblioteca Municipal, podemos dizer que elas ocupam um lugar privilegiado no que se refere à criação de uma estratégia, a saber, a de deixar ler, na delimitação do tema, uma seleção de discursos que colaborariam na formação da memória de Thales de Andrade. Por outro lado, os conteúdos destes textos também oferecem indícios para a apreensão das possibilidades de consultas do acervo.
As questões decorrentes da abordagem relativa aos perfis recuperados a partir dessa fonte, ou seja, as Pastas de Recortes de Jornais da hemeroteca da Biblioteca Pública Municipal de Piracicaba apresentam algumas características semelhantes àquelas identificadas às especificidades das poliantéias, conforme nos informa Catani em relação à Polianteia Comemorativa do 1º Centenário do Ensino Normal em São Paulo. A autora, nesse texto, menciona suas funções de celebração do campo educacional e de colaboração “para a instauração de uma memória harmônica do espaço profissional”368. No caso das pastas, utilizadas na presente análise, ocorre fato semelhante, se bem que, desta vez, com a memória construída a respeito do escritor e educador Thales de Andrade e não apenas relacionada ao campo educacional369.
Assim, se por um lado há a celebração do autor, conforme será averiguado em alguns dos textos examinados, por outro lado também será possível vislumbrar, em alguma medida, a prática pedagógica e literária do educador Thales de Andrade, ainda utilizando como fonte o mesmo material. Thales, embora tenha sido a um só tempo professor e escritor de literatura infanto-juvenil, teve projetado mais o seu trabalho literário do que o seu legado como educador. Entretanto, na leitura dos textos selecionados para as pastas deparamos, como já foi dito, com comentários e depoimentos de ex-alunos sobre as suas aulas, fato que permite o levantamento de questões a respeito do seu pensamento e atuação relativos às questões da educação escolar.
368 Denice Bárbara Catani, “A memória como questão no campo da produção educacional: uma reflexão”.
História da Educação. Pelotas: ASPHE/FaE/UFPel, nº4, 1998, p. 124.
369 O conceito de campo utilizado neste trabalho, para auxiliar a caracterização das duas esferas de atuação de Thales Castanho de Andrade: educação e literatura, é o mesmo definido por Pierre Bourdieu, “Algumas Propriedades dos Campos”. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Ed. Marco Zero, 1983, pp. 89-94.
Além das pastas, na verificação dos perfis de Thales de Andrade, foi consultada, a bibliografia referenciada e o arquivo de jornais do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP) para completar e localizar as informações que aparecem truncadas nos recortes. Esse procedimento foi acionado para tentar solucionar este aspecto da fragmentação da memória que ficou evidenciado quando realizamos a investigação com esse tipo de fonte.
Ao chegar a Piracicaba, o pesquisador, em um primeiro momento, ao buscar material relativo ao autor em locais públicos de fácil acesso, naturalmente encontrará na Biblioteca Municipal o lugar mais indicado. Ali, em questão de minutos, terá em suas mãos as pastas da hemeroteca contendo recortes de jornais locais.
Organizada por temas variados, a hemeroteca dispõe de recortes que tratam desde questões referentes à história de Piracicaba, de suas personalidades e demais assuntos correlatos até problemas do cotidiano. O material é recolhido durante o ano e selecionado em virtude de sua relevância. Se considerado pertinente, pelos funcionários, é confeccionada uma nova “pasta”.
Em algumas delas é possível colher muitas informações acerca de Thales considerando que a imprensa local serviu de base para a guarda de parte relevante de sua memória.
A projeção nacional e internacional que ganhou o autor não deixou alheios os piracicabanos – há trabalhos a respeito do autor resultantes de pesquisas nos jornais – e a cidade mantêm vestígios de sua presença em algumas referências locais: busto em praça pública, livros publicados, datas comemorativas. Desse modo, todo esse contexto de informação e rememoração pode ser facilmente remetido às pastas, ou materiais a elas análogos, perfazendo desta maneira um significativo conjunto de dados que encerram a memória relativa a Thales de Andrade. Memória esta, entendida como aquelas formas descritas por Jacques Le Goff dentre as quais estariam previstas “a comemoração, a celebração através de um monumento comemorativo de um acontecimento memorável”, enfim da inscrição do autor, mas também a memória que considera o “documento/monumento” como suporte. Ampliando o conceito, a memória, ainda segundo este mesmo autor, é vista como um “fenômeno individual e psicológico” vinculado à vida social, variando de acordo com a presença ou a ausência da escrita e sendo “objeto da atenção do Estado que, para conservar os traços de qualquer acontecimento do passado, produz diversos tipos de documento/monumento, faz escrever a história, acumular objetos. A apreensão da memória depende deste modo do ambiente social e político: trata-se da
aquisição de regras de retórica e também da posse de imagens e textos que falam do passado, em suma, de um certo modo de apropriação do tempo”.370
Não nos foi possível determinar o início preciso da prática da hemeroteca e nem das pastas dedicadas ao tema Thales de Andrade, embora a concentração de matérias dos anos de 1970 indique ser essa a época provável. Nesse sentido, não há quaisquer registros que mencionem a data de tombamento das pastas, até porque os próprios números de tombamento variam de acordo com as determinações dos funcionários que substituíram os anteriores no sistema de rodízio realizado junto a este setor. Assim, pode-se dizer que, apesar de tratar da memória da cidade, não houve a preservação da própria memória do acervo. A hemeroteca é também caracterizada por sua transitoriedade. Esta é justificada pelos funcionários da biblioteca devido a fatores como limitação do espaço físico e ausência de recursos que pudessem conservar todo o material, como a microfilmagem ou a digitalização. Desta forma, determinou-se o critério da seleção do acervo da hemeroteca: os recortes são preservados enquanto forem considerados relevantes e apresentarem atualidade, sendo descartados tão logo os temas dos quais tratam apareçam em outros tipos de publicações, exceção feita às notícias sobre Piracicaba, dentre os quais aparecem os concernentes a Thales de Andrade.
Os recortes sobre Thales, encadernados em três volumesespiralados371 em tamanho ofício e encapados em plástico transparente e preto – capa e contracapa, respectivamente – são, até onde foi possível verificar, de jornais piracicabanos publicados entre os anos 1970 a 1996, sendo que dezenove textos datam dos anos 70, época do falecimento de Thales de Andrade, em 2.10.1977. Outro período rico em informação é a década de 80, com quinze textos, nove dos quais pertencentes a uma série sobre o autor escrita por Newton Nebel dos Santos e seis compostos para outra série a cargo de João Chiarini. O ano das comemorações do centenário do nascimento do autor, 1990, deixou dezesseis registros escritos sobre Thales nas pastas consultadas. Apenas um deles tem data de 1996. Portanto, apesar do início de sua carreira profissional ter sido nos anos vinte, os registros datam das décadas de 1970, 1980 e 1990. Encontra-se nas pastas somente uma matéria datada de 20 de maio de 1919, mesmo
370 Jacques Lê Goff, História e memória. Tradução: Bernardo Leitão... [et al.]. 5ª ed. – Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2003, pp. 419, 427-29.
371 Identificados na biblioteca conforme relação a seguir: P597, com 50 páginas numeradas no canto inferior direito; P598, com 30 páginas sem numeração; P599, sem numeração até a página 13 e numeradas a partir daí até a página 30. A letra “P” identifica os volumes com textos relativos à Piracicaba e os números identificam a ordem de tombo. Esses volumes estavam, na ocasião da primeira visita a Biblioteca, entre os dias 19 e 21 de julho de 2004, identificados pelos números nº. 2842, nº. 2845, nº. 2846 na folha de rosto de cada um deles. Em visita mais recente – entre os dias 18 a 21 de julho de 2005 – foi constatada a substituição desses números por esta outra forma de identificação. Por ocasião da redação deste trabalho, em nova consulta aos funcionários da biblioteca, soube-se que a numeração havia novamente sido alterada.
assim essa data é uma referência ao dia em que foi escrita e não o de sua publicação. Posteriormente, ao ser confrontado com o jornal, arquivado no Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, foi possível verificar a sua origem: trata-se do texto A Filha da Floresta, de autoria de Dr. Ozório de Souza, publicado na edição de 22.5.1919 da Gazeta de Piracicaba.
Há dezoito textos sem registro de datas, alguns deles sem identificação de origem dificultando, desta maneira, a determinação do dia da publicação ou do veículo de onde ele foi retirado.
No conjunto de recortes se encontram noventa e seis matérias escritas. São artigos (a maior parte deles), crônicas, notícias, notas, pequenas reportagens, poesias, cartas remetidas ao autor, a reprodução de uma página de um dicionário de autores paulistas com biografia de Thales e, em outras quatro folhas, a mesma informação datilografada, um editorial, repetido cinco vezes com diferentes datas, um discurso do Presidente da Câmara Municipal de Piracicaba, um cartão postal e outros textos de autores não identificados. As pastas contam também com algumas ilustrações sugerindo páginas de rosto de matérias, de cadernos e de suplementos especiais sobre o tema. Um ou outro texto é acompanhado por ilustração ou fotografia.
As fotografias retratando as situações referentes aos anos de 1970 em diante, somam um total de trinta e duas e apresentam como tema recorrente homenagens ao autor. Assim como os registros escritos, ocorrem as repetições das fotografias e ilustrações. Parcela significativa delas tem como motivo o rosto de Thales o qual, repetido em duas ou três versões diferentes, constitui um dos ícones do autor e da sua obra.
O primeiro volume, P597, contendo 50 folhas, numeradas no canto inferior direito à caneta e identificado da mesma forma pelo número 1 ao cabeçalho, apresenta na página de rosto uma biografia datilografada do autor, intitulada “Tales Castanho de Andrade”. A sua procedência é indicada pela referência ao final da folha e reproduzida da seguinte forma: MELO, Luiz Correia de. Dicionário de autores paulistas. São Paulo, Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 1954. p. 58. Cópias da mesma informação são distribuídas por dois dos três volumes como se segue: P597, p. 1, 3; P599, p. 4372 (neste caso como cópia impressa da página do dicionário com o verbete mencionado), 9 e 20. Consultada a respeito, a bibliotecária informou desconhecer a procedência dessas páginas datilografadas
372 Consideradas as inconstâncias da numeração das páginas, as referências seguirão a ordem crescente a partir da página de rosto nas três pastas consultadas.
com a biografia do autor. No entanto é inquestionável a escolha do verbete desse dicionário como página inicial da pasta para a legitimação e autenticação da expressividade de Thales de Andrade e do valor da sua obra, como um autor das letras paulistas.
São ainda do volume P597 três matérias assinadas pelo próprio Thales, sendo que duas delas são identificadas como parte de uma série denominada “Fumaças...”. Outros autores piracicabanos se destacam pelo número de textos neste primeiro conjunto de recortes: Silvio Ferraz de Arruda, Hugo Pedro Carradore, Helly de Campos Melges, Mário Pires e o já citado Newton Nebel dos Santos apresentam dois cada, sendo que deste último estão os dois primeiros de uma série de nove textos distribuídos entre o volume P597 e P599. Os textos de João Chiarini, num total de sete deste conjunto, também compõem uma série relacionada a Thales.
O segundo volume, P598, é identificado na página de rosto por “Piracicaba – Thales Castanho de Andrade ‘Personalidades’ – 1990”. Contém 30 páginas sem numeração. Tem como destaque a repetição por três vezes do editorial de Losso Netto, denominado de “Os oitenta e três anos de Thales de Andrade”. Originalmente o texto foi escrito para o Jornal de Piracicaba em 15 de novembro de 1973. Há duas reproduções datadas de 26 de agosto de 1990 e uma sem data. Outro texto repetido é “O Centenário de Thales de Andrade” de Adriano Nogueira, artigo da edição de maio de 1990 do encarte “Linguagem Viva” do jornal A Tribuna Piracicabana e publicado também pelo Jornal de Piracicaba no dia 27 do mesmo mês e ano.
Neste mesmo volume há diversos recortes de 15 de setembro de 1990. Trata-se do caderno denominado “Presença”, editado em comemoração ao centenário do nascimento de Thales de Andrade. Apesar do recorte com o subtítulo “Suplemento Cultural do Jornal de Piracicaba – nº 14 Ano II” e ilustrações à página 07, marcando o início da publicação, os textos não se encontram identificados, nem por nome do jornal nem por data, dificultando determinar quais deles fariam parte do mesmo material. Somente se pôde identificar a origem e verificar a ordem das matérias, de acordo com a edição original, a partir da confrontação com um exemplar completo localizado posteriormente em mãos de uma autora do Suplemento. Na ocasião foi possível observar que todos os textos desse caderno, apesar de recortados, estavam reorganizados na pasta no mesmo sentido de diagramação do jornal, exceção feita a uma caricatura do autor e ao título do Suplemento, ausentes no conjunto de recortes.
No terceiro volume, P599, há a reprodução em xérox das quatro cartas manuscritas de alunas de uma escola pública de São Paulo – que demos destaque num dos capítulos acima
como um vestígio da recepção da obra de Thales pelas crianças – comentando e elogiando o livro A Filha da Floresta, escritas em 5 de junho de 1919, conforme as indicações em duas delas. Essas cartas não estão acompanhadas de qualquer informação que possa identificar a sua origem. Ao lado de uma delas há uma reprodução de um marcador de página, identificado como tal, impresso pela Companhia Melhoramentos de São Paulo anunciando a coleção Encanto e Verdade e uma pequena nota que acusa o recebimento do conto A Filha da Floresta. Junto à outra missiva se observa uma pequena notificação relatando a publicação de alguns livros de Thales. Em ambas não há menção de autor, nome do jornal ou data de publicação.
Quando consultamos o acervo do IHGP, foi possível verificar a origem das cartas a partir da leitura de um texto do Jornal de Piracicaba tratando justamente do seu envio ao autor373. Por essa via foi possível saber que na ocasião o jornal selecionou (com Thales de Andrade?) três missivas recebidas e as publicou, são elas as de autoria das alunas Maria de Lourdes Fonseca, Lygia de Aquino e Silva e Ebbe Angelotte. As duas últimas constam na referida pasta acompanhadas das cartas de Alexandrina Barretti e de Antonietta Calline. Desta forma, somando-se todas, chega-se a um total de cinco cartas recuperadas.
Marcam também este volume peculiaridades como as duas últimas reproduções do editorial já citado de Losso Netto, o texto do Dr. Ozório de Souza, A Filha da Floresta, datado – conforme confrontação com o artigo original da Gazeta Piracicabana no IHGP – de 22 de maio de 1919, sete crônicas da série “Fumaças” de Thales de Andrade e os oito textos seriados de Newton Nebel dos Santos.