Tendo em consideração que vários estudos sobre o insucesso, fracasso e abandono escolares albergam um acervo importante das múltiplas causas já detetadas, lançamos a seguinte pergunta introdutória a cada um dos nossos entrevistados: na sua opinião, quais são
as causas do abandono escolar dos alunos? Por vezes a mesma pergunta foi colocada de forma seguinte: na sua opinião porque os alunos abandonam a escola? As respostas à questão colocada foram como se segue:
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O entrevistado (no 13) começou por responder o seguinte: - Aa nto anashkolale to
para owéla efraqueza vakánene, mahiku mantchipale anaya oshkola iwe, ehinapuanhawo mapurussore. Evinhakan’to, yetcharu mayiku meli mararu, navan’to anashkolále onkhala okilathiwene. Ekhilathiki, yeyon’to ennaniruhelela ekwerere yintchipalene; - pois então, para
os alunos terem um pouco de preguiça, muitos dias vão a escola e não encontram o professor. Dali, voltam a ir uns dois dias ou três dias sem encontrar o professor começam a faltar; ficam sentados em casa. Isso é o que lhes traz preguiça (tradução).
Ainda nesta busca de causas diretas que levam os alunos/as a abandonar a escola, os entrevistados fizeram passar seguintes mensagens: - “eles apostam em culturas de rendimento. Esse é um caso que tem acontecido em todos os anos. E nós notamos que o motivo é esse mesmo é uma situação que os pais quando começam já mobilizar que vamos para machamba vamos fazer isto, mais tarde aquelas crianças ganham aquele pouco dinheiro, já não conseguem mais enfrentar o cenário. Eles já provaram o que provaram, já conheceram o dinheiro, então já é um problema. Eles dizem preferir ficar como estão” (risos) (entrevistado no 3 que respondeu em português); - “porque já vimos o filho do fulano, já estudou nun nun ganhou nada, então já começam a mentalizar. Mas essa atitude é um um … nué abrangente… são alguns pais. Sim! (cit. ibid).
“Nós podemos destacar que é o uso de matéria-prima, neste caso não sei como posso dizer…usar aluno com fins pessoais; neste caso, fica mão – de – obra, queria dizer isso, usar aluno como mão – de – obra nas machambas (entrevistado no 6 – falou em português). Para a análise dos depoimentos evidenciados nesta subsecção e ao longo do nosso trabalho, apresentamos o seguinte quadro de analítico:
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Quadro no 3: Análise resumida das causas do abandono escolar no distrito de Malema
Questão geral Respostas dos entrevistados Nossa análise Causa do
Abandono
Sim então, para os alunos terem preguiça um pouco, muitos dias vão a escola e não encontram o
professor Absentismo docente Política educacional Dali se irem dois dias ou três dias sem encontrar o
professor, começam a faltar-ficam sentados em casa
Falta de motivação
do aluno Política educacional Eles apostam em culturas de rendimento. Modernidade Económica
Na sua opinião, quais são as causas do abandono escolar dos alunos?
os pais quando começam já mobilizar que vamos para machamba vamos fazer isto, mais tarde aquelas crianças ganham aquele pouco dinheiro, já não conseguem mais enfrentar o cenário
Ignorância dos pais e/ou pobreza
Económica
ou
porque já vimos o filho do fulano, já estudou nun nun ganhou nada
Fracas expetativas dos pais e encarregados de educação Política educacional neste caso, fica mão – de – obra, , usar aluno
como mão – de – obra nas machambas Trabalho infantil/ pobreza dos pais
Económica as nossas filhas fogem do trabalho doméstico com
o pretexto de que têm de sair cedo pois a escola fica muito longe. Pelo caminho acontece muita coisa e até ficam gravidas…”.
Representação Da escola pública
Cultura local
por vezes, os órgãos tradicionais não possuem mecanismos suficientes para parar com aquela prática ilegal
Cultura local
Políticas educacionais
nós não estamos a ver a utilidade do que os nossos filhos aprendem na escola. Nos ritos de iniciação sim, as meninas aprendem coisas importantes para a vida delas e de nós todos”.
Fracas expetativas em relação a escola pública pela comunidade Políticas educacionais / Cultura local Na sua opinião porque os alunos abandonam a escola?
É que quando faz a 4a hê 3ª começam também a
voltar atrás, porque em Tui sente ser longe.
Distância casa - escola
Políticas educacionais Em Malema também é longe e lá em Malema,
precisa de arranjar lugar de hospedagem primeiro
Distância casa -
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e só depois é que pode mandar para lá educacionais como forma de prejudicar o professor para não
receber vencimento, prefere retirar o filho da escola pensando que assim que o professor não vai ter alunos para dar aulas, não vai receber seu vencimento
Ignorância dos pais e/ou baixo nível de escolarização dos mesmos
Cultura
Fonte: Autor do trabalho
Embora com o presente quadro não pretendamos limitar a análise que o nosso leitor possa fazer dos excertos das entrevistas nele contidos, apraz-nos notar que a nossa análise é coincidente em alguns resultados e conclusões das pesquisas dos investigadores da temática do insucesso ou fracasso escolar e do abandono escolar.
Benavente, et. al. (1994: 77) no estudo que levaram a cabo sobre abandono escolar no Ensino Básico em Portugal constataram como causas do abandono:
A pouca instrução das famílias; O excesso de pobreza das famílias;
O desleixo dos pais/ falta de interesse dos pais; O trabalho infantil.
Quaisquer que sejam as razões ou fundamentos apontados pelos pais e encarregados de educação, fica claro o seu envolvimento direto no fracasso e possível abandono escolar dos seus educandos pois, nalgum momento, duvidam da pertinência da aprendizagem na escola pública em Moçambique e no distrito de Malema em particular. A par disso, manifestam ainda um conformismo em relação às dificuldades que pretensamente emanam da falta de atenção por parte da instituição escolar, como são os casos da falta de EPCs nas zonas rurais, falta de professores para leccionar disciplinas especializadas evocados pelo diretor do Departamento pedagógico da Direção provincial de Educação de Nampula (entrevistado no 1) e outras fragilidades institucionais.
P. Há queixas dos pais e encarregados de educação sobre uma alegada recusa das autoridades da Educação em transformar as EP1s das zonas rurais onde eles vivem em EPCs. Haverá esforços nesse sentido por parte das autoridades?
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R. “Bom…há esse esforço por parte da Direção Provincial de Educação, mesmo do próprio Ministério da Educação. Alias há uma orientação de que todas as escolas primárias deviam ser completas. Então, a nível local é preciso sempre elevar as EP1s para EPCs para completar as sete classes necessárias. Mas o grande problema tem sido a alocação dos professores porque onde existe EP2 ou EPC, neste caso a 6a e 7a classes, então ai precisamos de professores já especializados, diria assim, mais formados em áreas específicas porque são as cadeiras que eles vão lecionar, à diferença da atual situação em que um professor leciona uma turma inteira no EP1 ” (entrevistado no 1).
Binder e Michaelis, (2006) referem-se a dez princípios que os pais devem ter presentes e que podem contribuir para a superação de situações de insucesso, que são: - nunca perder a esperança; evitar qualquer tipo de censura; aceitar a criança como ela é; - explicar à criança que deve esforçar-se um pouco mais para atingir o sucesso; - intervir precocemente com medidas ajustadas a cada situação individual; educar para a independência e autonomia; não facilitar o trabalho da criança; - ter tempo e paciência; - reconhecer, elogiar e reforçar os pontos fortes, não sobrevalorizando os erros ou maus resultados; e por último, - motivar a criança e apelar á sua ativação e participação.
Embora não tenhamos dirigido uma pergunta direta aos pais para saber se seguiam os princípios propostos por Binder e Michaelis, (2006), acreditamos que os mesmos não seguem os tais princípios, se tivermos em conta a aparente indolência ou mesmo conformismo perante as justificações dos seus educandos, pelas faltas à escola que cometem. O exemplo da alocução do entrevistado (no 13) elucida essa nossa convicção; –“pois então, é possível que
os alunos tenham um pouco de preguiça, muitos deles vão dias seguidos à escola e não encontram o professor. Dali, voltam a ir uns dois ou três dias sem encontrar o professor e começam a faltar; ficam sentados em casa. Isso é o que lhes traz preguiça” (entrevistado no 13) (tradução).
No seio dos pais há um sentimento de desculpa pelas atitudes dos seus educandos ou mesmo conformismo, o que demostra falta de aplicação dos princípios referidos pelos autores.
Tendo passado em revista os conteúdos das entrevistas, passamos à segunda parte do trabalho empírico que igualmente decorreu nas escolas primárias das comunidades
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selecionadas, a qual consistiu na aplicação de questionário aos alunos das 6a e 7 a classes para avaliar as suas opiniões em relação aos objetivos específicos da nossa pesquisa.