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Era tal a popularidade deste prato tradicional que o teatro lhe dedicou uma revista em 2 actos e 18 quadros intitulada precisamente Iscas com Elas, que estreou em 1938 no Teatro Apolo em Lisboa59. Daqui seria extraído o Fado das Iscas com letra dos Três Abexins e música de Raul Portela, muito divulgado e conhecido através da interpretação de Hermínia Silva, gravada em disco em 1957 (cf. Colecção Fados do Fado - Os Fados e os Teatros, Vol. 23)60. Já anteriormente, em 1927, o Fado das Iscas, com música de Raul Portela, Wenceslau Pinto e Alves Coelho, e letra de Avelino de Sousa, alcança grande sucesso decorrente da sua aparição na Opereta Bairro Alto, e pouco depois, em 1928, é apresentado, no Teatro Variedades, uma outra versão do Fado das Iscas na revista Coração Português, embora se desconheça os seus autores e intérprete. Igualmente, os fadistas José Freire e Álvaro Pereira, em diferentes ocasiões editaram em disco, no formato de 33 rpm, o Fado das Iscas com música e letra diferentes da versão de Hermínia Silva. Este motivo volta a aparecer quando a fadista gravou em 1977 no disco Isto é Fado, o tema Tasca das Iscas com música de Manuel Paião e letra de Eduardo Damas, tal como acontece com Carlos do Carmo, que no refrão do
Fado dos Cheirinhos (1979) refere, como perfumes da cidade de Lisboa, além do caldo verde, do alecrim, e da hortelã, as Iscas com Elas. No LP intitulado Simone Mulher Guitarra de 1984, Simone de Oliveira interpreta o Fadinho das Iscas com música de Martinho d’Assunção e letra de José Carlos Ary dos Santos. Ainda no que respeita ao património
59 Iscas com Elas: revista em 2 actos e 18 quadros, da autoria de “Três Abexins”, pseudónimo de Fernando Santos (1892-1966), Lourenço Rodrigues (1898-1975) e Xavier Magalhães 1885-1948), com música de Raul Ferrão, Raul Portela, Jaime Mendes e Vasco Macedo, e letra de Fernando Santos, Xavier de Magalhães e Lourenço Rodrigues. Estreada a 1 de Setembro de 1938 no teatro Apolo (antigo Príncipe Real), situado na esquina da Rua da Palma com a Rua da Mouraria. Fonte: Arquivo Distrital do Porto e Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). Ver Anexo F.
60 Toda a informação sobre as referências às Iscas no Fado teve como fonte o Museu do Fado e da Guitarra Portuguesa e a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).
musical da cidade não devemos esquecer que o seu hino popular Cheira Bem, Cheira a
Lisboa contém na segunda estrofe, antes do conhecido estribilho, os versos: “Se chove cheira a terra prometida; procissões têm o cheiro a rosmaninho; nas tascas das vielas mais escondida; cheira a iscas com elas e a vinho”61.
Quanto à literatura, já aqui referimos os sonetos de Nicolao Tolentino de Almeida e de António Lobo de Carvalho ou textos de José Rodrigues Miguéis. Importa referir que também Eça de Queiróz (1845-1900) evocou as Iscas em O Crime do Padre Amado e em a Relíquia.
Então estão vocês muito atrasados! Em Lisboa era todos os dias o meu almoço… Bem, acabou- se, dê-nos duas iscas com batatas… E bem saltadinho, isso (O Crime do Padre Amaro, cit. por Castro Alves, 1992: 314).
E carregava furiosamente no r da palavra – a forrrça! – agitando os seus pulsos magríssimos de tísico sobre o grande prato de iscas que o moço trouxera (idem: 316).
Está vossa senhoria muito enganado! – E recolheu-se a um silêncio chocado, partindo com furor a sua isca (idem: 316).
E então Gustavo, que tinha molhado vastamente de tinto as iscas de fígado, ergueu os punhos fechados, e com a face entumecida, dente rilhado, berrou um rouco:
- Abaixo a religião!
Do outro lado do tabique uma voz trocista grasnou em réplica: - Viva o Pio Nono (idem: 322).
Este é dos bons… E se ele aqui voltar e quiser dois litros a crédito, é dar-lhos… Cá o Bibi responde por tudo.
- Temos pois – começou o tio Osório – iscas a dois, salada a dois… (idem: 328).
Viva o belo Retiro! A ele! Às iscas! À carambola! Irra, que estava morto por me refastelar! E depois às mulherzinhas! (A Relíquia, cit. por Castro Alves, 1992: 274).
61 O Fado Cheira Bem, Cheira a Lisboa, com letra de Carlos Dias e música de César de Oliveira, foi estreado por Anita Guerreiro em 1969 na Revista “Peço a Palavra” no Teatro Variedades. Ver Anexo I.
Aqui, devemos referir o crescente interesse na valorização da herança cultural confirmado pela classificação, em Novembro de 2011, do Fado como património imaterial da humanidade: “A musical and lyrical expression of great versatility, Fado strengthens the feeling of belonging and identity within the community of Lisbon, and its leading practioners continue to transmite the repertory and practices to younger performers” (UNESCO, 2012). A classificação atribuída pela UNESCO dá-se numa altura em que a emergência, desde a década de 1990, de jovens intérpretes fomenta um “reencontro generalizado dos portugueses com o Fado como uma parcela importante da sua identidade num universo globalizado” (Nery, 2012: 27). Em resumo, o reconhecimento, por parte da UNESCO, do imaterial valor patrimonial do Fado dá-se precisamente num momento em que esta expressão musical adquire uma nova versatilidade e popularidade, em virtude da crescente visibilidade dos seus autores e intérpretes.
Tal como refere Oliveira Marques, “a partir dos textos queirosianos foi possível compilar um quase dicionário gastronómico da época” (Ferro, 1996: 12), e assim através da análise e recolha exaustiva de Castro Alves sobre a obra de Eça de Queiroz, podemos notar a menção das iscas, como referência gastronómica, quer como um prato ou ingrediente, associado simultaneamente à metáfora dos “maus fígados”, quer como à proverbial gula de algumas das suas personagens, ou à fuga para os retiros e ao erotismo associado à desregulação dos sentidos através da comida, da bebida, do jogo, da música e da dança.