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Os valores médios de composição corporal e conteúdo energético dos animais transferidos para o sistema com bioflocos em diferentes momentos do cultivo estão sumarizados na Tabela 3. Para proteína bruta, os animais do grupo controle apresentaram maior concentração em relação aos demais tratamentos. Entre os tratamentos que em algum momento do cultivo foram transferidos para o sistema com bioflocos, diferenças não foram detectadas para proteína entre os mesmos.

O conteúdo de extrato etéreo foi afetado pelos tratamentos avaliados. O tratamento T2 apresentou teor de 223,61 g/kg, sendo igual estatisticamente aos tratamentos T3, T4 e T5 e diferindo significativamente do tratamento T1 (controle), no qual o conteúdo de extrato etéreo na composição corporal foi de 175,65 g/kg. Entre as variáveis analisadas para a composição corporal, o coeficiente de variação (CV) para o extrato etéreo foi o mais elevado (13,07%), o que pode ser em função da metodologia de análise. O conteúdo mineral (cinzas) na carcaça dos animais transferidos em diferentes momentos para o sistema com bioflocos foi menor quando comparados aos animais do grupo controle. Quando analisados individualmente, os teores de cálcio e fósforo apresentaram comportamento semelhante ao verificado para o conteúdo de cinzas, sendo os maiores valores obtidos no tratamento controle e estes diferentes estatisticamente dos demais.

Os resultados de energia bruta refletem os valores obtidos tanto para proteína bruta, quanto para extrato etéreo e cinzas. Diferenças estatísticas foram detectadas entre os tratamentos avaliados. O valor de energia bruta para o tratamento T2, no qual os animais foram mantidos em sistema com bioflocos desde o 1° dia experimental foi de 5420,14 kcal/kg, sendo superior ao controle (5095,21 kcal/kg) e ambos iguais aos demais tratamentos, conforme pode ser observado na Tabela 3.

Tabela 3: Composição corporal e concentração de energia em juvenis de tilápia (Oreochromis niloticus) transferidos em diferentes momentos do cultivo para sistema com bioflocos em formação

Variável¹

Tratamento

CV (%) Controle 1° dia 15° dia 30° dia 45° dia

Proteína (g/kg) 629,60a 588,11b 596,20b 597,38b 594,26b 3,85 Energia bruta (kcal/kg) 5095,21b 5420,14a 5217,83ab 5245,58ab 5159,55ab 4,04 Cálcio (g/kg) 46,11a 37,61b 40,44b 39,00b 42,15b 8,67 Fósforo (g/kg) 33,04a 28,69b 29,62b 28,78b 30,60b 5,1 Cinzas (g/kg) 173,24a 146,05c 152,59bc 148,02bc 159,32b 6,3 Extrato etéreo (g/kg) 175,65b 223,61a 204,21ab 202,74ab 195,37ab 13,07 Médias seguidas de letras distintas na linha diferem entre si pelo teste de SNK (P<0,05). ¹Base da matéria seca

Poucos trabalhos têm abordado a composição corporal de peixes cultivados em sistemas com bioflocos. Na literatura foi encontrado apenas um relato com tilápia. Azim e Little (2008) obtiveram os seguintes valores médios: 527,4; 288,5 e 165,2 g/kg para proteína bruta, extrato etéreo e cinzas, respectivamente. Já o conteúdo energético foi de 5620,6 kcal/kg, e não foram detectadas diferenças na composição corporal de animais com peso médio final de 135,60 gramas, cultivados em bioflocos e em sistema de recirculação (controle), diferente do que foi observado no presente trabalho.

As diferenças observadas neste trabalho podem ser devido ao crescimento compensatório, que possivelmente ocorreu em função da variação nos níveis de nitrito. Jobling et al. (1994) sugerem que a composição do ganho de peso pode diferir entre animais que passaram por períodos de restrição ou não. Os autores citam ainda que é de se esperar que haja melhoria da eficiência alimentar quando o incremento é preferencialmente em massa magra em relação aos que depositam maiores quantidades de gordura corporal. Resultado semelhante ao comportamento descrito acima foi verificado para híbridos de tilápia (O. niloticus x O. aureus) submetidos a diferentes regimes alimentares, com restrições de até três dias, seguido por igual período de realimentação, durante 60 dias (ABDEL-HAKIM et al., 2009). Em contraste com esses resultados, alterações na composição de carcaça não foram detectadas em estudos avaliando o crescimento compensatório em híbridos de tilápia após o

período de realimentação e independente do tempo de restrição (WANG et al., 2000; WANG et al., 2005a), sendo que melhorias na eficiência alimentar não foram observadas.

Diferentemente do que foi relatado nos outros trabalhos, no presente estudo os animais transferidos para o sistema com bioflocos, independente do momento, apresentaram alterações no perfil da composição corporal quando comparados ao grupo controle. Verifica- se que os mesmos apresentaram menor conteúdo de proteína e que o tratamento II (transferidos no 1° dia) apresentou maior teor de lipídeos em relação ao controle, não havendo diferenças na conversão alimentar entre os tratamentos avaliados.

Ali et al. (2003) relatam que composição corporal pode variar durante o período de restrição alimentar e que de uma forma geral, após o período de realimentação e de crescimento compensatório, a composição corporal tende a ser semelhante a dos animais não restringidos. Assim, as diferenças observadas quanto aos aspectos composicionais no presente estudo podem estar mais associadas à disponibilidade dos flocos microbianos nas unidades experimentais do que ao crescimento compensatório propriamente dito. Devido à possibilidade de utilização não só da dieta suplementar, os animais dispunham constantemente de flocos microbianos que podem ter complementado a alimentação.

Para o camarão marinho, verificou-se que a biomassa microbiana pode contribuir com 18 a 29% do nitrogênio retido na caraça (BURFORD et al., 2004). Para a tilápia, verificou-se que os flocos microbianos podem contribuir com 25 a 50% do requisito de proteína (AVNIMELECH, 2007; AVNIMELECH E KOCHBA, 2009). Embora esses trabalhos estejam associados à exigência proteica dos organismos cultivados, outros aspectos composicionais dos flocos microbianos podem estar afetando a composição corporal.

A deposição de lipídeos é frequentemente associada ao desbalanceamento entre energia e proteína nas dietas e a fase de desenvolvimento dos peixes. No presente estudo os animais estavam em fase inicial de crescimento e provavelmente as diferenças na composição corporal são em função dos aspectos nutricionais. Uma vez que nos sistemas com bioflocos há elevação da relação C:N visando a assimilação dos compostos nitrogenados pelos microrganismos, o balanceamento nutricional entre dieta e os flocos microbianos pode não ter estado adequado para os organismos cultivados, afetando a composição corporal.

Avaliando o efeito de diferentes níveis de amido em dietas para híbridos de tilápia (O. niloticus x O. aureus), Wang et al. (2005b) verificaram que o aumento nos níveis de amido na dieta, ou seja, relações energia:proteína mais altas, proporcionaram maior deposição de lipídeos no animal, e o inverso ocorrendo com os níveis de cinzas, similar ao verificado no presente estudo. Ainda, Li et al. (2013) verificaram maior retenção de energia quando a

relação energia:proteína era mais alta para juvenis de tilápia do Nilo, ou seja, maior deposição de gordura.

O acúmulo de gordura verificado nos animais que foram transferidos no 1° dia (tratamento T2) e permaneceram por 76 dias no sistema com bioflocos não é desejável. Caso essa tendência se mantenha nas demais fases de produção, poderá haver redução no rendimento de carcaça e de filé e a rancificação da gordura afetar o sabor da carne. Assim, há necessidade de avaliar a produção de tilápia do Nilo em sistema com bioflocos, em todas as fases e com manejo nutricional específico.