Com a intenção de preservar a identidade das instituições pesquisadas, as escolas aqui são denominadas E1, E2 e E3. Todas fazem parte da rede particular de ensino, e atendem alunos de diferentes bairros da cidade de São Paulo. Assim, podemos dizer que entre elas há elementos que se entrecruzam e outros que as diferenciam dando riqueza para a nossa pesquisa.
As três escolas pesquisadas estão inseridas em um contexto social e econômico, mais ou menos semelhantes e, por serem da rede particular, têm características comuns que justificam a nossa escolha. As três escolas têm se posicionado frente à sociedade paulistana com o objetivo de formar cidadãos responsáveis e intelectuais capazes de entrar nas melhores universidades do país há mais de 70 anos. Destacam-se pela infraestrutura que oferecem aos seus alunos, além de se apresentarem como tendo proposta pedagógica consistente e, parece- nos, atual, afinada com as necessidades do século XXI.
O Colégio E1, localizado no bairro Paraíso, zona centro-sul de São Paulo, atende cerca de 2700 alunos entre os anos finais do Ensino fundamental e Ensino Médio. Funcionando desde 1944, hoje é reconhecido - dentro e fora da cidade - como uma das escolas de excelência. Segundo a professora P3, a expectativa de muitos pais de alunos dessa escola é a de que seus filhos tenham uma excelente formação e ingressem naquelas universidades que consideram as melhores do país.
“Aqui na escola tem mãe e pai que desde o sexto ano já fala em vestibular. Tive um aluno cuja mãe já tinha programado toda a trajetória do filho: entraria em Harvard e seria médico. Isso não é incomum. Tem família que vem de outro estado. Uma parte muda prá São Paulo só prá trazer o filho e colocá-lo aqui na escola. Aí fica todo mundo se sacrificando, pai de um lado, mãe de outro; muitas vezes a vó vem dar uma força e deixa o avô sozinho na terra natal [...]. A justificativa é: lá na minha cidade ele não conseguiria fazer um bom curso para passar no vestibular. Isso porque o aluno está entrando no Ensino Fundamental!” ( P3, E1).
O espaço físico comporta quatro andares, muitas escadas, 69 salas de aula, secretaria, sala dos professores, laboratórios e outros espaços que sofrem reformas ao longo do tempo e em função do crescimento da demanda. Por meio das salas de aula compostas por fileiras duplas e carteiras fixas no chão, impedindo qualquer mobilidade para o aluno e a presença de infraestrutura como um telão, um computador de nova geração e um aparelho de AplleTv em cada sala para garantir o uso de tablet, percebe-se nitidamente a convivência entre o tradicional e a modernidade tecnológica.
Grande parte dos professores dessa escola tem pós-graduação - mestrado ou doutorado - dentro e fora do país, e muitos deles os tem graças ao incentivo financeiro da mantenedora. Da mesma forma, alguns deles são convidados a participar de Feiras e Congressos nacionais e internacionais. Segundo uma professora de História dessa instituição, entrevistada, os investimentos ainda são mais intensos nas áreas de ciências e tecnologia.
“Na área de História nós não temos um projeto que envolva tecnologia.
Acho que aqui o investimento é mesmo nessas áreas. Ciências [os professores de ciências] manda bem, porque está sempre viajando [para fora do país] e apresentando muitas coisas, mas sempre associado a tecnologia. História não tem como fazer isso”. (P3,E1).
Com relação a sua ação dentro da escola, a professora declara que se sente livre para criar novas estratégias de ensino. E cria sempre que é possível, mesmo que tenha de sair do que está previsto. Embora também admita que abandonar a programação não é uma opção. Ela só lamenta a falta de tempo para maiores investimentos já que, por questões financeiras,
“[...] tenho um número de aulas considerável, o que torna minhas atividades extremamente cansativas”. (P3, E1).
O colégio E2, localizado no bairro Vila Mariana, zona Sul de São Paulo, funciona desde 1858. Atende cerca de 3800 alunos desde a Educação infantil até o Ensino Médio e conta com laboratórios de Ciências Naturais, robótica, redação e línguas estrangeiras modernas. O prédio do Colégio preserva grande parte da arquitetura de sua fundação e suas instalações são de grandes dimensões contando com bibliotecas, anfiteatros, ginásio poliesportivo dentre outros. Há, cerca de 122 salas de aula e o professor durante a entrevista chegou a comentar que em 2013 havia 10 salas só de 6º ano.
Muitos dos professores têm pós-graduação - mestrado e doutorado - e fazem reuniões periódicas para discutir o que consideram, no momento, relevante para a área. O professor entrevistado contou que segue o programa de História determinado pela instituição, mas tem total liberdade para trabalhar os conteúdos, escolhendo as estratégias de ensino que os alunos vão aproveitar melhor o que caracteriza, curiosamente, a coexistência do currículo apresentado aos professores e do currículo em ação:
“Mesopotâmia e Egito são temas áridos; temporalmente distantes do
universo deles [alunos]. Falo sobre os rios e como aqueles povos se relacionavam com eles. Daí eu falo: então tá: agora vamos falar um pouquinho sobre como estão os rios hoje? Para ver como estabelecemos a
relação aqui na nossa cidade como os nossos rios? Tenho total liberdade para trabalhar o conteúdo”. (P1, E2).
O colégio E3, localizado no bairro Vila Formosa, zona Leste de São Paulo, foi fundado em 1972. Também atende alunos desde a Educação infantil até o Ensino Médio. Hoje é reconhecido no bairro como uma escola de excelência, principalmente porque muitos de seus alunos - filhos de comerciantes e pequenos empresários da região que, dentre eles, muitos não têm formação superior - conseguem bons resultados nos exames vestibulares.
A expectativa dos pais dos alunos é a de que seus filhos tenham uma formação excelente, além de ingressarem em boas universidades. Segundo um dos professores entrevistados, os pais valorizam o estudo e, por isso, o professor. Passam esses valores para seus filhos que se envolvem com as propostas em sala de aula.
“É bom dar aula nessa escola porque os alunos são respeitosos. Vêm de
família que valoriza o estudo. Muitos estudaram até o Médio ou fizeram escola técnica e querem que seus filhos vão para a faculdade. Os pais respeitam os professores porque acreditam que eles sabem das coisas e podem ajudar os seus filhos a serem melhores. As crianças têm vida em família, são mais disciplinadas, fazem lição. Quase não tenho problemas com indisciplina”. (E3, P2).
A estrutura do Colégio está distribuída em quatro prédios. Dentre eles há ginásio de esportes, bibliotecas, centro de convivência, auditório, laboratório de informática e sala de artes. Na escola há professores com pós-graduação - mestrado e doutorado.
A escola adota um Sistema de Ensino que determina o programa do curso, a sequência da matéria, sua distribuição no tempo e nas séries. As avaliações bimestrais são preparadas pelos professores e, embora eles recebam subsídios para prepará-las, têm total liberdade para utilizar as questões que eles mesmos preparam. No entanto, uma vez por ano todos os alunos são submetidos a uma prova multidisciplina de múltipla escolha, preparadas pelo Sistema de Ensino. Estas, aplicadas no terceiro bimestre, não são controladas pelo professor.
Ao longo da entrevista o professor dessa escola demonstrou absoluta tranquilidade ao trabalhar com o Sistema de Ensino. O conteúdo do programa de História, conforme será apresentado na análise dos dados, no capítulo IV, é modelado pelo professor. Novamente percebemos a coexistência entre o currículo apresentado aos professores e o currículo em ação.
Ao analisar os programas de História que as três escolas, cenário desta pesquisa, apresentam, foi possível perceber que os conteúdos históricos escolares ainda são organizados pela cronologia baseada nos marcos da história europeia e integrados aos fatos e marcos da
história do Brasil. Ou seja, ainda correspondem, em parte, à tradicional História cronológica linear, já discutida no Capítulo 2.
Para que nossas colocações sejam melhor compreendidas, apresentamos a seguir uma linha do tempo com a divisão tradicional da História, baseada em grandes marcos da história europeia - História Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea.
Figura 1. Linha de tempo com marcos da história europeia.
Fonte: Produzida pela pesquisadora.
A seguir, apresentamos cinco quadros com a organização dos conteúdos históricos escolares de cada uma das escolas que foram cenário de nossa pesquisa e que nesse trabalho são denominadas E1, E2 e E3. As informações aparecem tal como fornecidas pelos professores durante as entrevistas. Contudo, ao lado do quadro, apresentamos os marcos da história europeia e a cronologia correspondente. O título de cada quadro indica a escola e a série que corresponde ao professor entrevistado.
Quadro 2. Programa de Curso - 8º ano, 2013.
Escola E1 (P3) - Programa de curso - 8º ano
Idade Moderna Século XV
Os primeiros habitantes da América Século
XV
Os primeiros habitantes do Brasil Século
XVI
Séculos XVI ao XVIII Brasil colônia Idade Contemporânea Século XVIII
Transformações na Europa - iluminismo, revolução francesa, revolução industrial.
Século XVIII
O século XVIII: ouro e transformações no Brasil Século
XVIII e XIX
A crise do Antigo Regime europeu: as revoluções
Século XIX
A crise do Sistema Colonial Século
XIX
O processo de independência do Brasil
Fonte: elaborado pela pesquisadora a partir das informações fornecidas pela professora entrevistada.
Quadro 3. Programa de Curso - 6º ano, 2013.
Escola E2 - Quadro 3 - Programa de curso - 6º ano
Introdução aos estudos de História Patrimônio histórico e cultural Idade
Antiga
4 mil a.C.
O processo de formação do Estado e das primeiras civilizações As civilizações hidráulicas da Antiguidade Oriental
Até século V d.C.
As civilizações da Antiguidade Ocidental
O Legado das civilizações ocidentais para o mundo contemporâneo
Fonte: elaborado pela pesquisadora a partir das informações fornecidas pelo professor entrevistado.
Quadro 4. Programa de Curso - 7º ano, 2013.
Fonte: elaborado pela pesquisadora a partir das informações fornecidas pelo professor entrevistado.
Escola E3 - Quadro 4 - Programa de curso - 7º ano
Idade Média Século V ao XV
Transição da Antiguidade para a Idade Média Transição da Idade Média para a Modernidade Idade Moderna Século XV Colonização do Brasil
Quadro 5. Programa de Curso - 8º ano, 2013.
Escola E2 - Quadro 5 - Programa de curso - 8º ano
Idade Moderna Século XVIII Iluminismo Idade Contemporânea Século XVIII Revolução Francesa
Revoluções inglesas (Puritana e Gloriosa) Formação e Independência das Treze Colônias Independência da América espanhola
Independência do Haiti
Revoltas emancipacionistas no Brasil: inconfidência mineira, revolução pernambucana e conjuração mineira.
Século XIX
Independência do Brasil Primeiro Reinado Segundo Reinado
Fonte: elaborado pela pesquisadora a partir das informações fornecidas pelo professor entrevistado.
Quadro 6. Programa de Curso - 9º ano, 2013.
Escola E3 - Quadro 6 - Programa de curso - 9º ano
Idade contemporânea
Século XX
Primeira Guerra Mundial A Revolução Russa
O fim do regime monárquico no Brasil e a Primeira República O período entre guerras
Tempos sombrios: ascensão do fascismo A Segunda Guerra Mundial
A Era Vargas
Independência das colônias: África e Ásia Brasil: um país dividido
Governos de JK e Jânio Quadros Os sinais da crise econômica no Brasil Jango - do populismo à ditadura Crise do Regime militar
Abertura política A redemocratização Século
XXI
Brasil atual
Ao compararmos a organização dos conteúdos históricos com os ricos depoimentos dos professores durante as entrevistas, pudemos verificar a distância entre o currículo apresentado aos professores pela instituição, aqueles que ainda mantêm vínculo com a História europeia, linear e cronologicamente organizada, e a prática dos professores, que demonstra dinamismo e rompimento com essa tradição. Podemos dizer que, de certa forma, pudemos “enxergar” a prática docente modelando o currículo.
Entendemos, então, que a contradição entre os programas de curso e a forma como as escolas se apresentam e se organizam foi um campo fértil para a nossa pesquisa, pois nos ofereceu maiores chances de perceber a complexidade do currículo e, sobretudo, verificar as dimensões da atuação prática dos professores de História, sujeitos da pesquisa, frente aos saberes curriculares.
Por um lado constatamos que as práticas dos professores estão, mesmo que em parte, condicionadas aos contextos e normas administrativas, tradições e expectativas das instituições onde trabalham. Por outro lado, verificamos que há na essência da profissão uma margem de autonomia e de imprevisibilidade que garante a eles a possibilidade de moldar o currículo, vivenciando um currículo real.
CAPÍTULO IV
Práticas pedagógicas dos professores de História dos
anos finais do Ensino Fundamental e
saberes curriculares
O que os professores ensinam é o resultado de um processo de decodificação — interpretação, significação, recriação, reinterpretação, etc. — de ideias, condições e práticas disponíveis na cultura, que se tornam mais ou menos visíveis e viáveis em um contexto situacional de interação e intercâmbio de significados. Ele não só intermedia os conteúdos, mas sobre as pautas de controle dos alunos nas aulas[...]. Na realidade da classe, os saberes ensinados são o resultado de uma mescla de tradição e inovação pedagógica. Conservação e inovação são a cara e a coroa da vida do saber que é ensinado. (ACOSTA, p. 189 e 190).