A busca pelo sentido da vida é uma atitude natural e uma característica distintiva do ser humano. Somente ele é capaz de questionar e problematizar sua existência. É no sentido de conceder ao homem a sua dimensão de liberdade, propósito e transcendência. Há em cada pessoa um propósito essencial de vida, que é a procura desse significado, que vai além daquilo que é material ou de um simples prazer passageiro, mas é, na verdade, a decisão por um propósito que transcende a matéria e adentra o mais íntimo do ser, dando-lhe uma razão que o dignifique como ser humano (PONTES, 2012).
Partindo do pressuposto da queda das instituições, entre elas, as religiões, como um dos fatores que contribuem para o sentimento de vazio, percebe-se que, nesse contexto, a espiritualidade encontra seu lugar como resposta aos anseios mais profundos do ser humano. Ao mesmo tempo, não se pode reduzir essa busca a uma mera satisfação de consumo social que não preencheria o vazio constituinte do ser humano. Este sentimento de “vazio existencial” crescente coloca o sujeito numa posição de desamparo, na sintomatologia de Frankl (2012) que é chamado de tríade da neurose de massa: a depressão, a agressão e a toxicodependência. Essa tríade estaria ligada ao sentimento de falta de sentido da vida. Para este autor, todos os seres humanos, além das suas necessidades comuns, sentem o desejo de sentido, em maior ou menor grau, como uma necessidade específica como “valor de sobrevivência”.
As perguntas existenciais, a busca de sentido para a vida, para o amor, para tudo que move o ser no mais íntimo, são questões invisíveis ao modelo pragmático hegemônico das ciências da saúde moderna, assim como a dimensão espiritual muitas vezes tem sido ofuscada, minimizada a uma questão de crença dogmática ligada à religiosidade institucionalizada. Assim, todas as práticas que seguem filiadas a este projeto são impossíveis de alimentar a verdade como necessidade humana, pois negam com pretexto de não conseguirem afirmá-la (BARRETO; RÖHR, 2014).
Essa busca pelo sentido seria o que caracteriza o ser humano como um ser espiritual. O termo espiritual mencionado aqui não está relacionado a algo da sacralidade ou ligado à religiosidade, mas com aquilo que dá ao homem a capacidade de unicidade, de integridade e de busca de sentido. Além do biológico, do psíquico e do sociológico, há no humano uma dimensão espiritual: o espiritual refere-se ao noos ou logos (nous) e pode ser chamado de noético. O noético ou espiritual só pode ser encontrado numa dimensão superior e
especificamente humana que representa sua existencialidade e sua personalidade (FRANKL, 2012).
Tradicionalmente, o ser humano vem sendo concebido como ser essencialmente racional. A partir de novas incursões científicas e formulações teóricas, essa concepção sofreu alterações significativas (SOUZA, GOMES, 2012). Corroborando com este pensamento, Frankl (2007) compreende o homem como um ser dotado de corpo, mente e espírito, havendo uma totalidade. A essa totalidade, ao ser humano total, pertence o espiritual, e lhe pertence como sua característica mais específica. Na percepção do referido autor, o homem contemporâneo poderá desconhecer seus princípios e corre um risco de desconhecer sua própria imagem, pois se encontra ante uma multiplicidade de opções que podem desnortear uma vida, levando-o a uma falta de busca e a ausência de luta por um objetivo.
O que dará sustentação para a vida do ser humano e suas incertezas é uma inquietação com relação à vida que frequentemente gera a pergunta pelo sentido de sua existência. Frankl (2007) explica que não é o ser humano quem faz a pergunta sobre o sentido da vida, mas, ao contrário, o próprio ser humano é o interrogado, é ele que deve dar respostas às eventuais perguntas que sua vida lhe possa colocar. Elas são dadas pela responsabilidade assumida diante da nossa existência, em cada situação. Na verdade, a existência somente poderá ser nossa se for responsável. De fato, comprovamos na análise de dados que 70% dos docentes questionados relacionaram o conceito de espiritualidade com a busca de sentido e significado para a vida humana.
Sabe-se que a pessoa também é constituída pela materialidade da relação interpessoal, pela intensidade da relação com o outro, por ser essa relação integrante de sua própria realidade. Compreende-se que o ser humano é uma unidade antropológica, embora sejam consideradas as diferentes dimensões ontológicas, que pode melhor promover relações interpessoais, a humanização da ciência em geral e contribuir intelectualmente para fundamentar trabalhos e projetos nas diversas áreas do saber e da formação humana, especialmente nas ciências da saúde (FRANKL, 2012; SOUZA, GOMES, 2012).
Diante da perspectiva ontológica-dimensional de Frankl (2012), somente a dimensão espiritual deixa transparecer aquilo que constitui a realidade específica do homem. E apenas sob a luz dessa perspectiva pode-se conciliar a unidade antropológica e a multiplicidade ontológica que o configuram. Certamente, a dimensão superior, considerada a mais abrangente (o espiritual), preserva a unidade sem descuidar das diferenças, mantendo sua integralidade (SOUZA, GOMES, 2012). Nesse sentido:
Na construção da integralidade no cuidado à saúde é preciso oferecer, em cada caso, a abordagem que melhor atenda às necessidades do sujeito. Nesse sentido, o cuidado na perspectiva da integralidade pressupõe o reconhecimento das amplas e complexas demandas e necessidades relacionadas à saúde da pessoa. No trabalho em saúde, as relações que se processam têm ênfase nas tecnologias leves, valorizando a subjetividade das pessoas em momentos de diálogos, auscultas e interpretações; momentos de cumplicidade, nos quais há produção de uma responsabilização dos problemas a serem enfrentados; momentos de confiabilidade e esperança, nos quais se produzem relações de vínculo e aceitação (SILVA; SENA, 2008).
Portanto, ao considerar que a integralidade está inserida no cotidiano do trabalho, por meio das interações que são estabelecidas, é preciso analisar que a fisioterapia enfrenta, no conjunto das práticas em saúde, o desafio de formar e capacitar profissionais para uma nova forma de produzir serviços de saúde como finalidade na integralidade do cuidado (SILVA, SENA, 2008). Nesse contexto, a educação deve procurar não só transmitir conhecimento, mas também aguçar a consciência, para que a pessoa receba uma percepção suficientemente apurada, que capte a exigência inerente a cada situação individual (FRANKL, 2007).
Perguntamos sobre o que Dynamis entendia sobre saúde integral, para verificarmos se a sua formação contemplou esse entendimento. Em sua resposta diz:
“eu entendo que saúde integral é a saúde do ser espiritual como um todo. Não adianta eu ser saudável fisicamente se a minha mente é doente, ela é viciada, ela é torturada, ela é... possui transtornos, né?! [...] então saúde integral é a saúde principalmente do ser espiritual, é a saúde dos sentimentos, é a saúde dos pensamentos e a saúde física, que eu coloco assim uma associado, mas saúde integral para mim é o homem integral, é aquele que consegue plenamente ter consciências das suas atitudes, de agir a cada dia pra melhorar o ambiente onde está e melhorar a si mesmo, e aos poucos ir se transformando num ser espiritual melhor”.
Encontramos aqui uma concepção dogmática quando se refere ao ser humano como espírito, ou seja, desconsidera o cuidado com as outras dimensões. É importante considerar que saúde integral, numa abordagem fisioterapêutica, não pode prescindir do corpo e suas manifestações de doença. Com isto, Dynamis demonstra não ter formação na prática integrativa em saúde, mostra uma confusão de seus conceitos a respeito de saúde integral. Não consegue compreender a espiritualidade como relação à prática do fisioterapeuta. Porém, isso é fruto de sua formação profissional, espelhada no modelo biomédico.
Do que fora até então exposto, é razoável admitir a seguinte ilação: a integralidade no cuidado da saúde deve se colocar como princípio norteador das formações e práticas
terapêuticas. Acolher o paradigma da integralidade implica aceitar o traço distintivo da multidimensionalidade do fenômeno humano, em que a dimensão espiritual necessariamente se faz presente enquanto locus privilegiado de construção de sentido.
A procura pelo sentido que aponte a direção e o fundamento ao existir, geralmente, mostra-se de forma mais intensa no que se entende por situações-limite, dentro das quais destacamos aquelas pertinentes ao processo de adoecimento, por meio das mais variadas enfermidades, e sua correspondente luta pela cura ou, ao menos, pela melhor compreensão da nova e desafiadora realidade que requisita o máximo de sua humanidade.
Embora não seja o único sujeito envolvido no processo referido, o profissional de saúde, e entre eles se insere o fisioterapeuta, desempenha papel indelegável e ímpar no auxílio ao paciente diante da experiência fenomenológica intransferível e oportunidade existencial invulgar de conferir sentido ao que está vivendo. Além da competência técnica, que é imprescindível, a habilidade relacional e interpessoal é igualmente exigida numa intervenção terapêutica e numa prática formativa que considerem seriamente a dimensão espiritual.
Como suporte para essa intervenção, a proposta de Frankl se destaca ao modo de valiosa ferramenta didática e pedagógica, posto que vê e enaltece o sujeito na sua integralidade ontológica, em sua inteireza enquanto pessoa, conferindo-lhe singular responsabilidade na construção do sentido de sua vida e inadiável compromisso com a espiritualidade que o torna propriamente humano.
Os profissionais de saúde e os docentes desta áreatravam constantemente uma batalha na busca por superar a dualidade entre racionalidade objetiva e a intuição. Nesse sentido, a integração que se busca não é um simples retorno a formas antigas de organização do pensamento e fazer humano, mas uma nova forma de articulação entre essas dimensões que incorpore o avanço da racionalidade conquistado pela modernidade. Uma integração onde a emoção e a intuição caibam dentro do movimento de busca objetiva de desvendamento e transformação da realidade, que, agora, admite como importantes dimensões não apreensíveis diretamente pela racionalidade lógica e pelos sentidos. O grande desafio é encontrar o caminho dessa integração que não obscureça a busca da verdade nas diversas situações particulares e individuais (VASCONCELOS, 2011).
Quando questionada sobre se era imprescindível no atendimento fisioterapêutico atuar com a espiritualidade associada, Dynamis respondeu:
“[...] Então quando eu faço um exercício com o paciente, quando eu aplico uma técnica, se eu não tô com bons sentimentos, com a comparação nessse sentido, de
aplicar aquilo de forma verdadeira, de desejar o bem verdadeiramente, não que eu vou estar o tempo todo é..., com as mãos postas olhando pro céu para aplicar a técnica, isso não é verdade. Eu preciso do conhecimento científico pra poder me embasar no que eu estou fazendo, mas muito da inspiração. a gente não vive sem a interferência divina, quando ela é buscada sinceramente pelo ser. [...] Então aquele ser, aquele médico, aquele fisioterapeuta que age buscando o melhor, esse sentimento de buscar o melhor já é um primeiro passo para ele obter a inspiração do que fazer. Às vezes você insiste em uma técnica que ela não tem repercussão e vem aquela sugestão, aquela intuição de você utilizar outra coisa e aí o paciente tem a melhora”.
Foi verificada aqui a presença do conflito entre razão e intuição diante do atendimento fisioterapêutico, vez que há dúvida sobre o que deve prevalecer: se a técnica profissional ou a abordagem espiritual. Não há uma opção clara sobre o que deve sobressair, pois a busca incessante por alcançar o seu objetivo, no caso a melhora do paciente, nem sempre será encontrada apenas por meios das técnicas inerentes à profissão, como também não só por meio de uma abordagem espiritual, mas sim a relação entre as duas. Sabe-se, inclusive, que o “insucesso” do tratamento faz parte da experiência profissional.
A imersão em uma estrutura social de captura e padronização do sofrimento e do modo de cuidado humano revelou um empobrecimento na diversidade de práticas de cura e amparo humano. A promessa de cura dos males e aumento da longevidade sinalizam a estagnação e a incapacidade diante da limitação em reverter os principais problemas mundiais de saúde na atualidade. Não se tem a pretensão de negar o valor da racionalidade biomédica no cuidado em casos graves diante das enfermidades, com todo o suporte tecnológico produzido nos últimos tempos. Contudo, acredita-se que no âmbito da Atenção Primária à Saúde, as práticas integrativas em saúde podem auxiliar significativamente na melhora desta realidade (BARRETO, 2014).
Para Barreto (2014), é preciso alimentar formas que contribuam para a complexidade, mas de forma sustentável e menos destrutiva, em que possamos, na intimidade das relações de cuidado, tecer nossa própria biografia de forma amorosa, segura e com profundo respeito, de forma imanente e transcendente, ampliando vínculos solidários e cooperativos que cultivem a chama do desenvolvimento humano. Na escolha científica urge a necessidade de compartilhar e comunicar com outros grupos que abrem os olhos para dimensões não- convencionais do cuidado humano, caminhos de maior integração e sentido para o fenômeno do sofrimento e do amparo, da vida e da morte, da beleza, do prazer.
É crescente a necessidade de acolhimento e de relações autênticas com vínculos profundos e seguros implodem os matizes do individualismo e das relações utilitárias. A sede
por uma vida mais respeitosa consigo mesmo e com os outros eclode de maneira paradoxal na irreverência da ordem cultural em imanência com o inexplicável do humano, este ímpeto pode ser nomeado de tantas formas tal qual a criatividade humana ao longo da história e dos diversos modos de organização (BARRETO, 2014). Pode-se acessar o transcendente no cotidiano também por simples gestos ou ações como, por exemplo sonhar com dias melhores, seja pela crença de relacionamentos amorosos, seja pela cura de uma enfermidade ou pela superação de um sofrimento pessoal ou familiar, seja, ainda, por um projeto de sociedade mais justa.
Pode-se entender que, no campo da saúde, a ausência ou negação da espiritualidade contribui na manutenção e desenvolvimento destas expressões limitantes do cuidado humano: a falta de implicação e diálogo para a construção de projetos terapêuticos; relações de equipes improdutivas carentes de segurança e liberdade; limitações nas práticas compartilhadas de cuidado entre gestores, profissionais da assistência e usuários; e, ainda, o empobrecimento de estratégias terapêuticas. A convicção do olhar ampliado e profundo para a experiência da vida, do sofrimento e da vitalidade humana como modo de caminhar rumo à modelos mais sustentáveis e sábios do cuidado humano. Neste aspecto, reencontrar com nossa dimensão espiritual é um passo indicado e importante para que nossas necessidades humanas não sejam negadas, negligenciadas ou simplesmente esquecidas (BARRETO; RÖHR, 2014).
A maioria das pessoas procura atendimento de saúde por não se sentir bem com aqueles sinais e/ou sintomas que estão apresentando há muito ou pouco tempo. O mal-estar, a sensação de desconforto e a dor mobilizam o indivíduo a fazer algo para recuperar a harmonia, o bem-estar, o ficar curado, cura esta que, tanto para profissional quanto para o ser humano, seria não apresentar mais aqueles sinais ou sintomas de ordem física, mental ou emocional; isto significa, simplesmente, voltar ao estado anterior à doença: ficar assintomático. De uma maneira geral, a saúde é encarada como se fosse um estado de não- doença, de não mal-estar ou dor, quando o indivíduo pode continuar a levar a sua vida sem grandes alterações ou questionamentos. É muito mais fácil tomar um medicamento para aliviar uma dor do que compreender a mensagem que o organismo está sinalizando (BATISTA, 2014).
Pelo fato de o ser humano estar centrado como indivíduo em uma pessoa determinada (como centro espiritual existencial), e somente por isso, o ser humano é também um ser integrado: somente a pessoa espiritual estabelece a unidade e totalidade do ente humano. Ela forma essa totalidade como sendo biopsicoespiritual. Portanto, não se justifica, como frequentemente ocorre, falar do ser humano como uma “totalidade corpo-mente”; corpo e
mente podem constituir uma unidade, por exemplo, a “unidade” psicofísica, porém essa unidade jamais seria capaz de representar a totalidade humana. A isso, ao ser humano integral, pertence o espiritual, e lhe pertence como sua característica mais específica. Enquanto somente se falar de corpo e mente, é evidente que não se pode estar falando de integralidade (FRANKL, 2007).
O paciente precisa ser abordado na sua inteireza, considerar os aspectos subjetivos que envolvem uma patologia, avaliar aspectos subliminares aos apresentados no corpo físico, mas para isso é importante que haja um desenvolvimento pessoal que, antes de ser valorizado na formação profissional de saúde, é bloqueado pela intensa exigência da dimensão cognitiva e pela postura técnica “profissional” impessoal (REMEN, 1993).
A conexão com a espiritualidade do profissional de saúde o conduz a um olhar diferenciado do paciente que através de seu sofrimento deixa de ser um corpo-máquina e passa a ser uma vida humana que se manifesta de forma fragilizada e desarranjada e passa a ser percebida como sagrada e tratada com veneração e respeito. Pela fé na transcendência presente na vida, sabe-se que dessa situação de precariedade e de dor pode emergir beleza e criatividade. A humanização no atendimento é revelado e a integração entre ciência e espiritualidade tem potencial como estratégia de abordagem e enfrentamento dos problemas de saúde não só para os indivíduos, mas também para a coletividade (VASCONCELOS, 2011).
Freire (1979) afirma que quando a técnica e os saberes desenvolvidos pelas tradições de espiritualidade superarem a turbulência dos pensamentos e dos sentimentos conscientes e o apego da mente a interesses secundários, experimenta-se a fascinante e tremenda dinâmica interior, que descobre uma realidade numinosa capaz de redefinir o significado da vida. Através da espiritualidade sabe-se que o poder do fazer, criar, transformar, é um poder inerente aos homens, mesmo que, em situação concreta de alienação, este poder se apresente prejudicado. Esta possibilidade, porém, em lugar de matar no homem dialógico a sua fé nos homens, aparece a ele, pelo contrário, como desafio ao qual tem de responder.
Para que essa concepção integral seja efetivamente adotada, a educação em saúde é o campo de prática e conhecimento que mais se ocupa diretamente com a criação de vínculos entre a ação médica, a prática cotidiana e o pensar da população (VASCONCELOS, 2009). Nesse contexto, a integralidade se constrói na práxis do conjunto dos profissionais de saúde e nas diferentes formas de encontro desses profissionais em sua abordagem diária.
Sendo assim, a construção da integralidade do cuidado, a relação dialética entre os enfoques individuais e coletivos, apresenta-se como perspectiva no reconhecimento das
necessidades e subjetividades individuais e coletivas. Construir a integralidade do cuidado da saúde significa incluir a dimensão espiritual. Isso somente é possível concebendo a educação como formação humana, como processo de humanização.
2. PERSPECTIVAS CULTURAIS DO CORPO, DA SAÚDE E DA DOENÇA
2.1. Corpo: concepções e expressões culturais
O corpo não é apenas um vínculo social no espaço, ele representa a conexão entre a individualidade e a coletividade, onde está impregnado de aspectos simbólicos e culturais. Desse modo, o corpo é uma figura de exposição externa que possui uma ligação com a sociedade a partir de uma performace espacial e temporal que serve de suporte ao indivíduo. Nele, a vida é cotidianamente inscrita e expressada, pois é refletida a maneira como o ser humano percebe e interage com o mundo, sua forma de pensar, agir e sentir. Portanto, seu enfrentamento e relação com ele mesmo e com o outro dependem da construção social, que é resultado de um processo histórico e dialético (BERGER, 1985; CHEBADI, 1999; BENDASSOLLI, 2001).
A construção social e cultural do corpo toca a corporeidade não só na relação com o mundo, mas também na determinação da sua natureza. O corpo inexiste unicamente em estado biológico, sempre está compreendido na organização social de sentidos, mesmo em suas manifestações aparentes de indignação quando há, provisoriamente, uma ruptura na relação física com o mundo do sujeito (enfermidade, dor, comportamento incomum, entre outros). Ele se confunde, ainda que provisoriamente, na rede simbólica social que o define e prescreve o conjunto das denominações usuais nas diferentes situações da vida (LE BRETON, 2007).
Cada sociedade elabora um saber singular e particular sobre o corpo: os elementos que o constituem, suas correlações e maneiras de atuar socialmente que lhe conferem um sentido de valor. Muitas vezes, as concepções de corpo estão entrelaçadas com àquelas que caracterizam a pessoa enquanto ator social. Em outros momentos, o corpo humano é apresentado como possuidor da mesma matéria-prima que compõe o cosmo e a natureza (LE BRETON, 2007).
Por outro lado, o corpo que se apresenta por dentro da modernidade faz parte de outra ordem. Reforça o isolamento do sujeito em relação aos outros, numa ordenação social individualista. Há uma quebra e indepedência em relação ao cosmo, em que o material que