Definisjoner årsverksindikatorer
3. Administrerende direktørs vurdering og anbefaling
Habitualmente, fala-se de religião popular, com um sentido negativo, opondo-se à religião oficial. É quase um sinónimo de comportamento desviante. Em termos da hierarquia da Igreja, o popular inscreve-se quase na continuidade de um certo
89 paganismo. Durante séculos a Igreja preocupou-se em controlar e canalizar a religiosidade popular, através da criação de festas e romarias, onde o sagrado e o profano se misturam, mas sob o olhar atento da hierarquia eclesiástica. À maneira dos povos europeus da Idade Média, os portugueses sempre atribuíram, a Deus o inexplicável, com alguma fatalidade. Predomina a ideia da sina e do destino. Para comunicar com Deus, existem fórmulas, rituais e intermediários que permitem vias e formas de conciliação com o sagrado.
As férias dos emigrantes representam um momento privilegiado para esta conciliação com o sagrado, mesmo no caso daqueles que não se consideram muito crentes. Algo os toca que os leva a "acertar contas" com a religião, nem que seja através de um parente (sogra, mãe, etc.). Estas trocas com o divino são aproveitadas para actividades de lazer: promovem-se pique-niques, vai-se ao restaurante, prolongam- se os itinerários, convidam-se outros familiares e amigos. A ocasião e a experiência vão para além do mero quadro religioso.
3.7.1. Fátima "Altar do mundo"
"Nossa Senhora de Fátima Rainha de Portugal, Ajudai os emigrantes, Livrai-nos de todo o mal"
(Silva, Manuela, in Lourenço,1981: 128).
Fátima sobressai como o local que todos o emigrantes entrevistados já visitaram. Mesmo aqueles que afirmam não ser religiosos, deslocam-se lá para dar a conhecer aos filhos, levar a mãe, a sogra, ou outro parente. Todos os emigrantes têm algum tipo de relação com Fátima. As deslocações são feitas normalmente num só dia. Por vezes em excursão, não implicando alojamento. São, no entanto, acompanhadas pela merenda e justificam idas ao restaurante.
A peregrinação dos emigrantes a Fátima foi instituída em 1976 e são muitos os que nela participam. Esta visita tem carácter religioso, mas também encerra uma componente de festa e de convívio que promove a inserção no espaço religioso português (Trindade,1989).
90 No caso de Fátima, a religiosidade comporta uma forte componente de lazer, dando também azo a uma excursão turística:
"Foi visitar, (Fátima) eu não conhecia e a minha sogra queria ir e fomos" (Ana Maria, 27 anos, Merelim S. Pedro, 29/7/00.
"Todos os anos, vou lá (Fátima) pela religião e levar a mãe. Nós o ano passado fomos p'ra levar a canalha, p'ra mostrar o que é Fátima e eu não sei que tenho, quando entro lá dentro nem sei que parece..." (Beatriz, 36 anos, Merelim S. Paio, 24/7/00).
Muitos emigrantes não se consideram católicos, mas concordam, quase todos, que de alguma forma Fátima os toca.
Esta devoção tem continuidade em França: "Quand on visite les lieux de culte, de réunion et de catéchisme, dans la crypte de Passy, on ne trouve qu'un symbole signalant la présence régulière des Portugais dans cet espace: une petite statue de Notre- Dame de Fatima (...)" (Leandro, 1995: 139).
Existem pontes e elos de ligação entre a vida religiosa em Portugal e em França:
"E já fomos ( a Fátima) em Paris, fica a 200 Km donde nós moramos. Admiro se bou a Fátima, bou o Bom Jesus, bou o Sameiro, bou à Santa Luzia, bou ao São Bentinho, bamos bisitar os santinhos todos." (Senhor Armando, 60 anos, Merelim S. Pedro, 19/7/00).
A devoção a Fátima é anterior ao surto da emigração para o continente Europeu. Mas Fátima nem por isso deixa de ser "a doce arte de um país irmanado a chorar num imenso cais de saudade, o cais de todas as lágrimas que os portugueses verteram pelos quatro cantos do mundo, por onde andaram sempre a despedir-se, sem nunca saberem bem qual era a sua terra "(MARTINS, 2000: 147). O encontro dos emigrantes com Fátima, é como reavivar as raízes e a identidade. Representa um momento que os acompanha no estrangeiro. Mesmo não sabendo ao certo onde pertencem, sentem-se privilegiados por fazer parte do cantinho escolhido por Deus, a "Terra de Santa Maria".
Outros locais religiosos, para além de Fátima, são venerados e visitados: o Sameiro, em Braga; a Santa Luzia, em Viana do Castelo e o São Bento da Porta Aberta:
"Por acaso no sábado que passou foi a Fátima. Sempre que viajo gosto de ir ao
Sameiro, não sou muito praticante mas elevo a cabeça, vejo aquela imagem e digo-lhe muito obrigada, mas não sou aquele praticante de ir à missa e tudo " (Senhor Barbosa, 50 anos, Merelim S. Pedro, 31/7/00).
91 Os emigrantes afiançam que, em Portugal, a esfera em que se sentem aceites, incluindo os não crentes, é na religião, especialmente em Fátima, o lugar de uma dupla reconciliação com "Deus e com a Pátria".
3.7.2. Acertar contas com Deus
Para obter o benefício de Deus, muitas vezes recorre-se aos seus intermediários, os Santos, e às promessas. Existe uma troca: Deus fez-me um favor, logo eu tenho de o pagar de qualquer maneira. Este pagamento pode envolver dinheiro, presentes, esforço físico ou psíquico. Pode implicar promessas ou peregrinações, com proibição de comer, falar, etc. Uma promessa é sagrada:
"Ai a Fátima bou muitas bezes, houve um ano que até foi na carreira, eles não me querio lebar, eu tinha uma promessa a pão e auga, meti-me na caminete, à semana e lá foi e lá bim, tudo correu bem. Eu promessas que prometo, bou... inda fomos estes dias ao São Bentinho" (Senhora Cremilde, 59 anos, Merelim S. Paio, 25/7/00).
Por vezes a devoção é de tal ordem que se acredita em pequenos milagres. É o caso de um emigrante que contava a sua viagem para França, a salto, onde uma parte do caminho foi feita a pé e o "homem" que os levava desapareceu. Sentiram-se perdidos, pois a viagem era para ser feita em grupo. A partir daí, orientava-se como as pombas correias. Num momento de mais aflição :
"... botei-me de joelhos e disse: Mãe da Conceição bendita eu deixei aqueles que mais amava e não os torno a ver, tende pena de mim. E atão eu recuperei uma força que eu nem posso explicar e aton fiquei bá lá, tenho a nossa Mãe do meu lado" (Senhor Armando, 60 anos, Merelim S. Pedro, 19/7/00).
São muitas as promessas pagas no tempo de férias. Se visitarmos qualquer local religioso, como Sameiro, Senhora do Alívio, Fátima, S. Bento da Porta Aberta, comprovamos que são muitos os donativos e os ex-votos.
3.7.3. Frequentar actos sócio-religiosos
As festas e os festejos têm sempre, a par do carácter religioso, uma vertente profana e lúdica. Os mais frequentes são os casamentos e os baptizados. Os preparativos
92 para a participação em casamentos, em geral, ocupam pelo menos um dia inteiro e são encarados como algo que corta o ritmo de vida das férias:
"Ui... o ano passado, todos os fins de semana houve casamentos, até um fim de semana que houve um casamento no sábado e no domingo. Tivemos um baptizado e outros três fins de semana sempre casamentos" (Senhora Palma, 36 anos, Merelim S. Pedro, 21/7/00) .
Esta Senhora queixa-se de que assim estavam sempre presos, não podiam ir para nenhum lado. Até acha "giro" as pessoas esperarem por eles para casar, mas é um transtorno que retira muito tempo.
As procissões são muito apreciadas, bem como o lado profano das festas, com os bailes, as animações e os fogos de artifício:
"Têm procissões bonitas, com fogos, aqui são muito bonitos, que lá em França não há... " (Ana Maria, 27 anos, Merelim S. Pedro, 29/7/00).
Foram muitas as festividades que alteraram as suas datas em função da presença dos emigrantes. Este fenómeno é particularmente notório em Melgaço. Nos locais em que não se procedeu a um ajustamento de datas, por exemplo em Merelim S. Paio, a festa do S. Roque faz com que muitos emigrantes prolonguem a sua estadia até ao início de Setembro, altura em que a festa é realizada.