Conforme foi abordado no primeiro ponto deste capítulo, sobre a legalização do trabalho também houve um silenciamento. Contudo, ele ocorreu não por falta de opinião do assunto, mas demonstrou um desconhecimento do plano traçado pelo Ministério do
Trabalho e Emprego, bem como da atividade realizada por organizações que apóiam as profissionais do sexo.
Esse desconhecimento pode ser retrato de uma divulgação insatisfatória, tanto por parte do ministério, como também das organizações de apoio. Contudo, as prostitutas também não demonstram ação própria nesse sentido. Isso pode refletir uma falta de enfrentamento à situação vivida por elas na sociedade com relação ao estigma. Elas mesmas são instrumentos de reprodução do discurso contra a mulher ter direito a utilizar seu corpo como bem lhe aprouver, legitimando essa relação de poder. Isso pode ser percebido nas palavras de Ágatha, conforme se vê a seguir.
Ágatha: Olha, é uma coisa assim, pra mim, uma coisa nova que, como
eu te disse, não tinha contato... não... eu nunca me interessei a... a me aprofundar nesse assunto... entendeu?
Para Divina, era necessário saber mais para dar sua opinião. Ela queria saber qual era a proposta, como se daria a legalização e a inserção das profissionais do sexo nesse programa. Por isso, admitiu sua incapacidade de explanar sua visão sobre o assunto.
Divina: Ah... tinha que ver mais, né? Nem sei se ia ser bom isso... tem que ver como vai ser, né?
No momento em que eram esclarecidas da idéia do Ministério e do objetivo buscado pelas prostitutas que trabalham nas organizações citadas, elas proferiam, sim, suas impressões. Pode-se destacar a dificuldade de se apresentar como profissional do sexo na sociedade. O estigma ainda é muito forte e o reconhecimento de que a legalização é necessária – até para satisfazer a demanda por direitos sociais – esbarra no medo de encarar a discriminação da sociedade. Fica claro que nem todas têm a coragem que as mulheres protagonistas da profissão – representadas pelas agentes das organizações que trabalham em prol das prostitutas – demonstram nas ações por cidadania que realizam (ver Cap. 1).
5.2.4.1. Os avanços sociais são bons para as mulheres profissionais do sexo... Os discursos apontam para um reconhecimento de que a legalização seria um avanço que vai ao encontro dos desejos e das necessidades da profissional do sexo. O que se fala muito é de carteira assinada e de contribuição para a Previdência que proporcionasse segurança para a aposentadoria e seguro em caso de doença. Esses são
anseios que a prática social transforma em status para o cidadão e que se encontram reproduzidos nos discursos das participantes.
Ágatha: Como uma cidadã, eu... eu acho muito, né? Nos meus direitos de procurar... e querer também pra mim, se futuramente é
necessário... é... é... pra mim... é bom pra mim... com certeza eu quero
participar.
Ágatha reconhece que a legalização e a sua participação no programa de previdência lhe trariam cidadania e a oferta de direitos que lhe são devidos. São deveres do Estado para com o cidadão. É também uma prática social, o que é reproduzido em discursos do governo e que a família assume, divulgando para seus filhos e filhas o desejo de que possam trabalhar e ser cidadãos que cumprem seus deveres e buscam seus direitos. Ágatha vê na legalização uma forma de atender a essas prerrogativas, mesmo exercendo um papel ainda não aceito pela sociedade. Resta, então, o trabalho para que o meio em que vive veja com outro olhar sua situação.
Beatriz trabalha como garota de programa, contudo tem um trabalho em que há seu registro em carteira profissional. Ela considera isso importante, não somente a vantagem do ganho financeiro, visto que trabalhando em uma “clínica de massagem” consegue receber muito mais. O valor, portanto, que dá ao registro é notório e reflete o peso que isso tem na sociedade.
Beatriz: Comparando com outras profissões... bom... é um trabalho
bom, só que ninguém pode ficar sabendo, entendeu: É que nem, você
trabalha fichado, as pessoas sabem onde que você trabalha,
então... aqui você vive muito (..) na mentira.
Trabalhar “fichado” é uma referência para o mundo financeiro. O profissional tem um endereço que possa ser apresentado. É uma exigência e um reconhecimento do mercado para quem quer comprar a prazo, por exemplo. Isso é considerado status na sociedade em que vivemos. Beatriz também diz que “o ruim é que não é fichado porque o resto é tudo bom...”.
5.2.4.2. ...mas o estigma traz vergonha e resistência
Mesmo com o reconhecimento da necessidade de um controle da Previdência, para que a dignidade e a cidadania tragam às mulheres profissionais do sexo os direitos a elas até hoje negados, torna-se difícil para elas aceitarem ainda fazerem parte de tal programa.
Seus discursos apontam para um estigma forte, uma discriminação que não vem somente da sociedade em geral, mas também de dentro da família. O moralismo advindo do pensamento patriarcal da religiosidade judaico-cristã – inerente ao Ocidente – e o conseqüente poder exercido pelo androcentrismo que tolhe os direitos da mulher ainda são muito fortes para que essas profissionais sejam acusadas de fraqueza. A agenciação das ativistas de Davida, exemplificando dentre outras ONGs que trabalham em favor da profissional do sexo, ainda é uma exceção em nossa sociedade.
O medo e a vergonha permanecem pautando o discurso dessas mulheres, conforme se percebe no relato de Divina, falando sobre contribuir para a Previdência, em seguida.
Divina: Aí tem que assinar carteira, né? Ah... se for assim, eu quero... Logo depois, ao perceber que haverá um código com o título de “profissional do sexo” para sua catalogação, Divina continua mais reticente.
Divina: ((mmmmm))... aí eu não sei... (risos)
Eu hein... já pensou? “Profissional do sexo”... tá doido?
Ah... eu vou chegar num lugar e dizer que sou puta? Vou falar lá em casa agora que sou puta... que é meu trabalho...
Divina nega chegando a usar a expressão “tá doido?”. Aproxima essa atitude à loucura. Ir de encontro aos anseios da família e da sociedade, apesar de realizar às escondidas, é-lhe muito forçoso. Em seguida, faz uso da palavra “puta” de forma pejorativa, como não utiliza para definir sua atividade. Sabe, portanto, que essa é sua maneira de ganhar a vida, contudo não encontra caminho para trabalhar pela dignidade de seu trabalho. O medo e a vergonha estão estampados no discurso dessas mulheres. O resultado disso é a resposta direta e seca dada por Beatriz quando questionada se assinaria a carteira como profissional do sexo: “Eu não assinaria”.