Os resultados das pesquisas analisadas mostram que o uso do clítico no PB mudou de maneira considerável, tanto no que diz respeito a sua posição como no que se refere ao seu progressivo desaparecimento, levando o PB a ser considerado uma língua de objeto nulo. É
sabido que a maioria das gramáticas desconsidera essa ‘evolução’ do uso / não-uso dos clíticos, fazendo uma descrição normativa mais próxima ao português europeu que ao brasileiro. Seguindo a mesma linha das gramáticas prescritivas, a escola normalmente ensina a colocação pronominal e o uso dos pronomes clíticos de acordo com a “língua padrão”, desconsiderando o real uso da língua falada –também escrita - pela maioria, e conseqüentemente da grande maioria dos alunos. Corrêa (apud Pagotto, 1993) mostra a importância que tem a escola no momento de introduzir clíticos nas gramáticas de crianças e adolescentes. Comprova que, somente após o contato formal é que as crianças passam a utilizar os clíticos em seus textos escritos. Provavelmente por causa da ausência desses elementos no sistema lingüístico adquirido na infância, há a ocorrência de usos ‘estranhos à gramática portuguesa’, a produção escrita do aluno está errada se consideramos a gramática normativa e prescritiva, no entanto está correta se consideramos o uso que o mesmo faz no sistema pronominal em sua fala, em sua língua real.
Nunes (1993:207) reforça tal posição afirmando que “... o uso dessas formas está associado ao aprendizado escolar, revela grau de instrução elevado e é identificado com língua escrita e estilo formal”. O autor salienta que, a manutenção dos clíticos acusativos de terceira pessoa no PB atual deve-se à ação normativa da escola, e que há dados estatísticos que evidenciam a relevância do nível de escolaridade dos falantes no uso de objetos diretos que se referem a algo já mencionado no discurso (objetos diretos anafóricos), como apresentam as tabelas 3 e 4.
Tabela 3 - Objetos diretos anafóricos encontrados na fala. Adaptado de Nunes (1993).
Tipo de objeto Adultos analfabetos % Série % Total % 1ª / 2ª 3ª / 4ª 5ª / 6ª 7ª / 8ª Universitários Obj. nulo 66,6 72,4 77,7 71,2 71,1 67,8 72,0 Pron. Tônico 25,6 24,1 8,6 19,1 20,1 7,1 18,2 Clíticos - - - 2,1 0,9 10,7 1,3
Tabela 4 - Objetos diretos anafóricos encontrados na escrita. Adaptado de Nunes (1993).
Tipo de objeto Série
%
Total %
Obj. nulo 57,5 65,6 52,3 53,5 9,5 51,4
Pron. Tônico 7,5 6,2 15,3 10,7 - 9,8
Clíticos - 9,3 18,4 30,3 85,7 23,3
Dos dados das duas tabelas podemos aventar algumas conclusões. Uma delas é que os clíticos constituem a variante menos utilizada para objetos diretos anafóricos (tabela 1), eles não ocorrem na fala de adultos analfabetos e começaram a aparecer na fala das crianças somente nas 5ª e 6ª séries. Por outro lado os clíticos aparecem mais expressivamente, embora ainda numa taxa baixa, na fala de estudantes universitários. Este poderia ser um importante aspecto para reflexão de professores que trabalham com o ensino de português como língua materna, pois é evidente que há dois sistemas pronominais conflitantes - o sistema da gramática normativa e prescritiva e o da gramática real utilizada pela maioria dos falantes da língua no país. A criança se depara com a missão de assimilar o uso dos clíticos, que lhe será cobrado pela escola e pelas instituições mais formais, principalmente na expressão escrita.
Na tabela 2 podemos constatar que a média geral de uso dos clíticos de terceira pessoa na escrita é bem mais alta que na fala. “Enquanto os pronomes tônicos são preferidos aos clíticos na fala, os clíticos são preferidos aos pronomes tônicos na escrita”.(Nunes, 1993: 219). Concordamos com o ponto de vista de Nunes (1993), quando diz que as crianças não precisam ser formalmente ensinadas para internalizar pronomes tônicos na posição de objeto, no entanto a aquisição de clíticos acusativos de terceira pessoa somente se dá via instrução formal. Bagno (2004:102) reforça tal posição afirmando que: “Só conhecem esses pronomes (mas nem por isso o usam) as pessoas que freqüentaram a escola e que, ali, entraram em contato (direta ou indiretamente) com os quadros pronominais da língua literária clássica e, por causa desse contato, sofrem pressão da norma-padrão conservadora”.
O autor advoga que, a retomada do objeto direto por um pronome reto, a estratégia do objeto nulo e o desaparecimento do sujeito nulo no PB, não são características presentes somente na fala das camadas menos escolarizadas da sociedade, tais manifestações também são representadas na língua falada e escrita de pessoas cultas: “na escrita contemporânea, estas regras sintáticas estão mais do que consagradas”. (Bagno, 2004:116).
Esta também é a posição de Galves (2000:147):
O clítico acusativo de terceira pessoa o/a parece ser adquirido na escola e usado somente em textos escritos e em contextos formais. Na língua falada normal, até mesmo pessoas educadas usam a terceira pessoa do pronome tônico ele ou o objeto nulo, cuja distribuição é muito menos limitada que no PE... Além disso, a forma de
dativo de terceira pessoa lhe não mais se refere a uma terceira pessoa, mas é usado como um equivalente para a forma de segunda pessoa te, funcionando como a forma oblíqua correspondente a ‘você’. O que faz parecer, conseqüentemente, que a terceira pessoa desapareceu totalmente do paradigma.
O fato de que exista no português do Brasil uma dissonância entre a norma padrão, apoiada pela gramática normativa, e uma norma ‘marginal’ a esta que, no entanto, é falada (e muitas vezes escrita) pela maioria dos brasileiros origina um grande abismo entre o falante de português brasileiro e a norma, prova disso são as correntes afirmações ‘Eu não sei português’ ou ‘Português é muito difícil’, tais afirmações podem fazer parte do discurso de pessoas não escolarizadas e também de pessoas com alto nível de instrução.
Perini (1998:22) diz que este sentimento nasce da falta de adequação à realidade da língua quando a gramática descreve ou recomenda “verdadeiras ficções lingüísticas: construções que caíram de moda há séculos, ou mesmo que jamais existiram”. E que o ensino da gramática normativa sem reflexão e sem levar em consideração a língua falada pelo aluno, além de não resultar em nada, faz com que o abismo existente entre sua produção oral (e até mesmo escrita) e a gramática normativa aumente ainda mais, dando-lhe a idéia de que não sabe falar a sua própria língua e conseqüentemente desmotivando-o.
É importante considerar que, a valorização da língua materna do aprendiz de LE, considerando também a variante por ele utilizada. O conhecimento e a reflexão sobre a sua língua poderão favorecer a aprendizagem da língua-alvo, além de ajudar na formação de falantes mais conscientes.
Nos pareceu importante para o trabalho fazer esta descrição do uso atual dos pronomes pessoais no PB, visto que, é o conhecimento lingüístico deste sistema pronominal que mais entra em contato com a LE, que é objeto dos processos de transferência e usado na construção da interlíngua dos aprendizes. O sistema pronominal descrito pelas gramáticas normativas exerce pouca influência neste processo.