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2. Literature review

2.2. Adipose tissue development

Podemos afirmar que há um encadeamento entre os três temas predominantes encontrados nas crônicas: local, viagem, notícia internacional. Entendemos que a busca por novos temas o levou às viagens e a experiência da viagem à Espanha e ao Marrocos, a mais longa e única fora do continente sul-americano, direcionou seu olhar para problemas internacionais. Não percebemos nas outras viagens a importância que a experiência na região magrebina exerceu sobre sua produção e que está diretamente ligada a mudanças de sua coluna que, inclusive abandona o epíteto porteñas passando a “Tiempo presente”, onde

32 No primeiro capítulo do romance El juguete rabioso aparece o fascínio que esse tipo de literatura exercia sobre

o público adolescente nas primeiras décadas do século XX. Outro dado de interesse é o personagem do andaluz que inicia o protagonista Silvio nesse tipo de literatura: “Cuando tenía catorce años me inició en los deleites y afanes de la literatura bandoleresca un viejo zapatero andaluz [...] decoraban la frente del cuchitril las policromas carátulas de los cuadernillos que narraban las aventuras de Montbars el Pirata y de Wenongo el Mohicano.[...] Dicha literatura, que yo devoraba en las „entregas‟ numerosas, era la historia de José María, el Rayo de Andalucía, o las aventuras de Don Jaime el Barbudo y otros perillanes más o menos auténticos y pintorescos…” (ARLT, 1985, p. 87-89)

assuntos internacionais e locais se alternam. Essa série foi substituída pela “Al margen del cable”, notas escritas a partir de notícias internacionais que chegavam à redação do jornal El Mundo.

Quando retorna ao jornal, em agosto de 1936, depois de mais de um ano viajando pela Espanha e Marrocos, Arlt experimenta, durante um mês, ser cronista cinematográfico. Rose Corral (2009, p. 13) considera essa experiência como uma tentativa de reinserção no jornal, depois do longo período de ausência. Quando retorna à página seis, lugar em que tradicionalmente eram publicadas as “Aguafuertes Porteñas”, em 1937, o ciclo sobre a cidade de Buenos Aires parece haver se encerrado. Nesse ano, começa a publicar “Tiempo Presente” e “Al Margen del Cable”.

A experiência vivida na Espanha, às vésperas da Guerra Civil, e a proximidade da II Guerra Mundial direcionam o olhar do cronista para fatos internacionais que afetam a população mundial. Buenos Aires deixa de ser o foco desse olhar. Interessam-lhe os temas mais diversos. Escreverá sobre personagens famosos e gente comum, assassinatos, suicídios, sobre política e a guerra.

Tendo como ponto de partida a noticia internacional, o cronista passa a buscar o tema para sua coluna nos cabos noticiosos. Toma a nota de poucas linhas e a reveste com seu talento criativo. Descreve lugares que não conhece com a mesma desenvoltura que descrevia sua cidade natal. Transforma os protagonistas das noticias em personagens de sua crônica.

Desse modo, a notícia da trágica morte acidental de uma jovem na Morávia, transforma-se na historia de amor “Sueño de amor en Praga” que narra o estado emocional da jovem Edda Zahurtzen – identidade fictícia – na véspera da viagem para encontrar o noivo e seu trágico desfecho.

A notícia que originou a crônica ocupa uma estreita coluna de poucas linhas ao pé da página do diário, não fornece mais detalhes que as circunstancias em que se deu o acidente.33 Arlt cria uma identidade para a jovem tcheca, narra as últimas horas antes da viagem, a ansiedade da moça em encontrar o noivo, dá detalhes de seu último desjejum, em que

33“Muere trágicamente en Moravia una joven al descender del avión - Praga, 1 (Especial) – Trágico accidente

fue el sufrido por una joven empleada en la Municipalidad de Praga que utilizó un avión de pasajeros para visitar a su novio residente en Zlin, Moravia. A la llegada a dicho aeropuerto, la joven descendió del avión para saludar a su novio que la esperaba, siendo alcanzada en un descuido por la hélice lateral izquierda aun en marcha, que le ocasionó gravísimas heridas, a consecuencia de las cuales falleció poco después en el hospital.” - El Mundo, 1 de novembro de 1937.

aparecem ingredientes típicos da então Tchecoeslováquia, “un vaso de cerveza, un pedazo de pepino y un trozo de salsichón [...] con su pan negro”, e descreve o caminho do ônibus em direção ao aeroporto como se conhecesse a capital daquele país, “Atraviesa el autobús el puente de Carlos, y dejan atrás el convento de los Cruzados, y más allá Edda se persigna al pasar frente a la iglesia de San Vito y luego atraviesan la Torre de Poudriere...”(“Sueño de amor en Praga”, 03/11/1937).34

Roberto Arlt nas crônicas de “Tiempo presente” e “Al margen del cable” ficcionaliza o fato. Não se trata mais de revestir a realidade e sim de criar um mundo fictício a partir da realidade. Acosta Montoro afirma que a notícia, o fato em si e os personagens envolvidos podem ser contados pelo simples repórter, mas tudo o que rodeia os fatos devem ficar a cargo do talento de quem possa captá-los e interpretá-los, funções próprias do escritor (ACOSTA MONTORO, 1973, p. 61). Podemos acrescentar, no caso de Roberto Arlt, a função de fabulador. A operação que executa Arlt é justamente, através da captação, interpretação e fabulação, ampliar esse núcleo composto apenas pelo que e quem. Para Ricardo Piglia (2009, p. 11) o cronista é quem inventa a notícia, “no porque haga ficción o tergiverse los hechos, sino porque es capaz de descubrir, en la multitud opaca de los acontecimentos, los puntos de luz que iluminan la realidad.”

Livre da temática localista, algumas dessas crônicas puderam atravessar as fronteiras Argentinas e alcançar as páginas do jornal mexicano El Nacional. Reunidas na recente compilação El paisaje en las nubes – Crónicas en el El Mundo 1937 – 1942 aguardam a atenção da crítica.

As atividades desencadeadoras da escritura se combinam de maneira distinta nos três momentos do cronista. Na crônica local há o predomínio do caminhar, ver e ouvir, na crônica de viagem, além das já citadas, Arlt necessita perguntar, entrevistar, pesquisar. O interesse pelos fatos que ocorrem no mundo – principalmente na Europa, que vive a expectativa de uma nova guerra – e a impossibilidade de ser correspondente do jornal no exterior, o levam a estar atento aos cabos noticiosos e a ler e pesquisar sobre lugares e assuntos que lhe são desconhecidos. A leitura lhe permite fazer passeios virtuais, Arlt passa a ler o mundo através dos cabos e escreve crônicas que estão al margen del cable, textos que vão além da notícia.

... história de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história de viagem e viajante reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto, encontro nem sempre pacífico de subjectividades e objectividades José Saramago – Viagem a Portugal