A primeira questão que se faz necessário esclarecer é o termo utilizado para a tradução da expressão em inglês Dynamic Capabilities, o que é especialmente importante para trabalhos escritos em português, como este. Então, buscou-se pela tradução do termo capability, como a capacidade ou o poder de fazer algo por meio do uso de competências e habilidades (OXFORD UNIVERSITY PRESS, 2010). Buscou-se também perceber como este termo foi traduzido em outros trabalhos nacionais. Dessa forma, com a tradução da Oxford University Press e com base nos trabalhos nacionais, decidiu-se por adotar aqui a expressão Capacidade Dinâmica (CD).
conceitos para esta definição vem crescendo. Collis (1994) foi um dos pioneiros a tratar o tema, e definiu capacidade dinâmica como a capacidade da empresa em inovar mais rapidamente ou de forma melhor que o concorrente. Porém, a definição oficial foi proposta por Teece, Pisano e Shuen (1997), e afirma que a capacidade dinâmica é a habilidade de a empresa de integrar, construir e reconfigurar competências externas e internas para atender ambientes de mudança rápida. Há ainda outras definições para capacidades dinâmicas, resumidas no Quadro 3.3.
Como se pode perceber, a literatura oferece várias definições para CD. Analisando cada uma delas, é possível perceber que todas as definições falam em modificar algo interno, que na maioria das vezes são as habilidades, competências, rotinas ou recursos. A importância desse conceito reside no fato de que ele trata da capacidade adaptativa da empresa frente ao dinamismo do ambiente, ou seja, como as organizações podem alcançar e sustentar vantagens competitivas em um ambiente em mutação (NIELSEN, 2006; TEECE, 2012).
Quadro 3.3 – Definições de Capacidade Dinâmica
Autor Definição
Collis (1994) É a capacidade da empresa em inovar mais rapidamente ou de forma melhor que o concorrente. Teece, Pisano e
Shuen (1997)
São as habilidades da firma de integrar, construir e reconfigurar competências internas e externas para se posicionar em ambientes de mudança rápida. Eisenhardt e Martin
(2000)
São processos organizacionais e estratégias específicas que criam valor para as empresas dentro de mercados dinâmicos por meio da manipulação de recursos em novas estratégias de criação de valor.
Slack e Lewis (2001) São os mecanismos subjacentes que permitem que uma empresa acumule vantagem da forma como muda o que tem e o que faz. Zollo e Winter
(2002)
São um padrão aprendido e estável de atividade coletiva por meio da qual a organização sistematicamente gera e modifica suas rotinas operacionais buscando melhorar sua efetividade.
Helfat et al. (2007)
É a capacidade da organização para construir, integrar, ou reconfigurar capacidades operacionais, não só diretamente, resultando em aumento da rentabilidade, mas também significativamente, afetando o desempenho das capacidades operacionais da organização.
Fonte: Elaborado pela autora (2017)
Uma implicação fundamental das CDs é que as empresas não estão apenas competindo em sua capacidade de explorar seus recursos existentes e capacidades organizacionais, as empresas também estão competindo em sua capacidade de renovar e desenvolver as capacidades (TEECE, 2012). Essa capacidade é inerente à organização e se origina, em grande parte, da experiência adquirida, não é simplesmente uma habilidade de um único indivíduo ou uma única máquina (HELFAT; WINTER, 2011).
Há dois principais elementos que abrangem essa nova forma de vantagem competitiva, a capacidade e a dinâmica, que formam a expressão principal (capacidade dinâmica). O termo capacidade se refere a um conjunto de rotinas e processos organizacionais, cujo desempenho é proporcionado pela posse de ativos específicos. O termo dinâmica se refere ao caráter de mudança rápida no ambiente, exigindo respostas estratégicas, para renovar as competências (TEECE; PISANO; SHUEN, 1997), se assemelhando a efeitos retroalimentadores na empresa. Avaliar a natureza das CDs é identificar como esses recursos são influenciados pelo dinamismo do mercado e da sua evolução ao longo do tempo (EISENHARDT; MARTIN, 2000). Tais capacidades consistem em uma estratégia específica de processos organizacionais, que auxiliam a tomada de decisões, criando valor em mercados dinâmicos, por meio da manipulação de recursos na nova estratégia de criação de valor adotada (EISENHARDT; MARTIN, 2000). Nesse sentido, o importante, na fundamentação desses recursos, é a existência de mecanismos rotineiros que permitam a reconfiguração das capacidades das empresas (ZOLLO, M., WINTER, 2002).
A trajetória da organização leva ao acúmulo de conhecimento capaz de gerar novas rotinas e processos ao longo do tempo (SAPIENZA et al., 2006), por isso, algumas capacidades internas possuem destaques, como a aprendizagem e a inovação (MCGUINNESS; MORGAN, 2000). Sob essa perspectiva, as capacidades dinâmicas são baseadas no tripé: processos (rotinas ou padrões de práticas correntes), posições (base de consumidores e relações externas com fornecedores/parceiros) e trajetória (histórico de decisões e oportunidades tecnológicas e de mercado) (TEECE; PISANO; SHUEN, 1997).
Os processos organizacionais são moldados pela posição da empresa no mercado e moldam a trajetória, a qual está relacionada às alternativas estratégicas disponíveis. Esses três aspectos determinam a essência da capacidade dinâmica da empresa e a sua vantagem competitiva, ou seja, determinam a sua competência (TEECE; PISANO; SHUEN, 1997). A Figura 3.7 ilustra as perspectivas das CDs.
Algumas CDs permitem às empresas entrar em novos negócios e ampliar os antigos por meio do crescimento interno, aquisições e alianças estratégicas, já outras ajudam a criar novos produtos e processos de produção (HELFAT et al., 2007). Para Eisenhardt e Martin (2000), o desenvolvimento de recursos e capacidades é interno à organização, já que os processos internos são as fontes principais das CDs.
Figura 3.7 – Perspectiva das Capacidades Dinâmicas
Fonte: Elaborado pela autora com base em Teece, Pisano e Shuen (1997)
Alguns autores falam da CD como um membro de uma classificação das capacidades, as quais podem ser operacionais, com foco em como as empresas ganham sua receita, ou dinâmicas, considerando como as empresas mudam suas rotinas operacionais (HELFAT et al., 2007). Outros autores falam que as CDs são resultado de uma combinação de capacidades, ou seja, o constructo capacidade dinâmica seria definido a partir de uma hierarquia de capacidades mais simples e rotinas relacionadas (COLLIS, 1994; WINTER, 2003).
Há ainda aqueles autores que defendem a existência de uma hierarquia de capacidades. Para Collis (1994), essa hierarquia é composta por: Nível 1 - Capacidades Funcionais; Nível 2 - Melhoramento Dinâmico dos Processos de Negócio; e Nível 3 - Capacidade Criativa. Para Winter (2003), tem-se: Nível 0 - Capacidades Operacionais; e Nível Superior - Capacidades Dinâmicas. Chang e Wang (2013), por sua vez, definem os níveis: Nível 0 - Recursos e Capacidades; Nível 1 - Capacidades Comuns; Nível 2 - Capacidades Chaves; Nível 3 - Capacidades Dinâmicas. A Figura 3.8 ilustra e resume as hierarquias das capacidades encontradas na literatura.
Outros autores retratam elementos intrínsecos às CDs (WANG; AHMED, 2007), que se dividem em capacidades adaptativas, capacidades absortivas e capacidades de inovação ou, ainda, capacidade de geração de ideias, capacidade de desenvolvimento de novos produtos e serviços e capacidade de desenvolvimento de novos processos (MCKELVIE; DAVIDSSON, 2009).
Figura 3.8 – Hierarquia de capacidades
Fonte: Elaborada pela autora com base na literatura (2017)