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A relação entre trabalho, felicidade e sucesso é uma discussão presente ao longo da vida adulta das pessoas. A sociedade contemporânea está mudando de uma economia centrada no dinheiro para uma economia de satisfação. As pessoas começam a tomar consciência que além da segurança, o dinheiro acrescenta pouco ao bem-estar subjetivo (SELIGMAN, 2004). Estudos da Psicologia Positiva desenvolvidos por Martin Seligman e Shawn Achor apresentam achados importantes sobre os fatores que influenciam a felicidade autêntica dos indivíduos, bem como o impacto que a felicidade tem na produtividade e no desempenho das empresas.

Segundo Achor (2010), para se ter o entendimento da relação entre trabalho e felicidade é fundamental entender a conexão entre sucesso e felicidade. O autor destaca que a maioria das pessoas foram educadas por meio da lógica de que se trabalhassem duro e se dedicassem seria suficiente para conquistarem o sucesso e, finalmente, poderiam experimentar a felicidade. Entretanto, descobertas no campo da psicologia positiva e neurociência indicam que esta fórmula é realmente ao contrário, ou seja: é a felicidade que gera o sucesso. Este fato ocorre porque quando pensamos e agimos de forma positiva, nosso cérebro se torna mais engajado, criativo e produtivo, o que impacta positivamente na vida profissional (ACHOR, 2010).

A relação da pessoa com o trabalho e com os outros aspectos da vida também é muito relevante para a experiência do bem-estar e da felicidade. Para

Seligman (2004), as pessoas podem ter três tipos de orientações para o trabalho: orientação para a tarefa, orientação para a carreira e orientação para a vocação. A orientação para a tarefa caracteriza-se quando a motivação principal do indivíduo é o pagamento no final do mês. A para carreira, por outro lado, está vinculada a um investimento pessoal mais profundo, em que as realizações são marcadas pelo dinheiro e também pelo progresso profissional, em que cada promoção representa para o sujeito mais prestígio e poder, além do aumento de salário. No momento em que não existe mais possibilidade de promoção, ou seja, quando o sujeito chegou ao topo, começam a alienação e a busca por gratificação, reconhecimento e significado em outra empresa.

A vocação é representada por um compromisso apaixonado com o trabalho (SELIGMAN, 2004). Os indivíduos que têm uma vocação percebem o seu trabalho como uma contribuição para um bem maior, ou seja, o próprio trabalho é fator de realizações, mesmo que não haja dinheiro ou promoções. Vale ressaltar que qualquer tarefa pode tornar-se uma vocação, e qualquer vocação pode tornar-se uma tarefa. O que transforma uma simples tarefa em vocação é o fato de o profissional utilizar com frequência as suas forças pessoais no trabalho, além de perceber na sua atividade um propósito para um bem maior.

O aspecto que traduz a felicidade durante o trabalho é o flow, a experiência de fluir, de sentir-se completamente à vontade dentro de si (SELIGMAN, 2004). O conceito de flow foi proposto por Csikszentmihalyi (2004), renomado professor da Peter Drucker Scholl of Bussines, para designar uma motivação intrínseca que acontece quando alguém se propõe a enfrentar desafios. O flow acontece quando os desafios que você enfrenta combinam com a sua capacidade de enfrentá-los. Assim, é fundamental, segundo a psicologia positiva, que as pessoas conheçam as suas forças pessoais e seus talentos para conquistarem a felicidade no trabalho, lembrando que as forças pessoais são compostas por traços morais, os talentos não. Conhecendo suas forças pessoais, os profissionais têm maiores chances de buscar atividades em que estas são necessárias e, com isso, elevar seus níveis de felicidade tanto no trabalho quanto nas relações sociais.

O trabalho é uma das situações em que as competências do profissional são desafiadas diariamente, através do aumento da complexidade da atividade e dos novos desafios. Na experiência do flow, as competências da pessoa defrontam-se com desafios acima do padrão normal, o que leva ao aprendizado, pois a pessoa

precisará aperfeiçoar suas habilidades para poder dar conta dos desafios e entrar em flow (Csikszentmihalyi, 2004). Portanto, o flow ocorre quando as pessoas são desafiadas ou procuram novos desafios à medida que os presentes vão se esgotando. É importante destacar que o flow não ocorre durante toda a jornada diária de trabalho, é comum os profissionais sentirem estresse, tédio e, até, situações de desespero (Csikszentmihalyi, 2004).

Visando auxiliar estudantes e profissionais a encontrarem o sucesso no trabalho, Achor (2010) publicou os sete princípios da Psicologia Positiva que estimulam o sucesso e a performance no trabalho. O estudo teve como base pesquisas desenvolvidas com estudantes de graduação de Harvard e com gestores e profissionais de empresas, identificando os indivíduos "outliers positivos", ou seja, indivíduos que se destacam em termos de desempenho, criatividade, realização, produtividade, energia ou resiliência. Suas descobertas levaram-no a formular os princípios para alcançar o que o autor denomina "vantagem da felicidade". Os princípios são ações para estimular situações positivas visando mudar os padrões cerebrais e torná-los positivos e, assim, criar felicidade. O primeiro princípio é a própria vantagem da felicidade, que expõem uma lista de dicas de como treinar o nosso cérebro para capitalizar pensamentos positivos visando melhorar a produtividade e o desempenho. Os estudos desenvolvidos por Achor (2010), também identificaram fortes evidências de que as relações sociais são fundamentais para a felicidade, principalmente nos momentos de estresse onde o apoio social dos amigos, colegas, da família e de professores pode auxiliar na reversão do quadro.

Para Achor (2010), os elementos externos, como a estrutura e o ambiente de trabalho e estudo que cercam os indivíduos, não são suficientes para garantir a felicidade das pessoas. Esses elementos externos só podem previr 10% da felicidade de longo prazo, ou seja, 90% da felicidade não é prevista pelo mundo externo, mas pela maneira com que o cérebro do indivíduo processa e interpreta o mundo. Outro dado que o autor destaca é que somente 25% do sucesso profissional são previstos por QI, ou seja, 75% do sucesso profissional são previstos pelo nível de otimismo, suporte social e sua capacidade de ver o estresse como um desafio, em vez de uma ameaça. Esse fato converge com a teoria das inteligências múltiplas e inteligência emocional que são abordados nos próximos capítulos desta fundamentação teórica.

Outro aspecto que Achor (2010) questiona nos seus estudos é a forma equivocada com que as empresas em geral estimulam seus funcionários, ou seja, a maioria das empresas segue uma fórmula de sucesso que está relacionada ao pensamento: "se eu trabalhar duro serei mais bem-sucedido, e ao me tornar mais bem-sucedido, serei mais feliz". Essa lógica acaba influenciando o estilo de educação e de gestão das empresas, e acaba sendo a maneira pela qual motivamos o nosso comportamento. Porém, segundo o autor, esta lógica é cientificamente incorreta e retrógada, pois cada vez que o cérebro tem um registro de sucesso você somente alterou a regra do que é sucesso. Por exemplo, se o aluno obteve boas notas, agora deve obter notas melhores, se o profissional conquistou um bom emprego, em breve deve conseguir uma promoção ou conseguir um emprego melhor, se o trabalhador atingiu as metas na sua empresa, no próximo mês as metas serão ainda maiores. Portanto, se a felicidade está no lado oposto do sucesso, o cérebro nunca vai alcançá-la, pois sempre vai querer ir além. Dessa forma, a lógica deve ser contrária: a felicidade gera o sucesso.

Para Achor (2010), se a pessoa conseguir elevar o nível de positivismo, seu cérebro terá a experiência chamada de vantagem da felicidade, ou seja, o cérebro no positivo desempenha uma performance significativamente melhor do que no negativo, aumentando a inteligência, a criatividade e o nível de energia dedicado à tarefa. Dessa forma, os seus resultados no trabalho e, consequentemente, das empresas, melhoram. De acordo com as pesquisas desenvolvidas pelo autor, o cérebro no positivo é 31% mais produtivo, pois o pensamento positivo libera a dopamina que aciona todos os centros de aprendizagem do cérebro permitindo adaptar-se ao ambiente de forma mais rápida e eficiente.

Assim, o cérebro humano pode ser visto como um processador capaz de dedicar uma quantidade finita de recursos para experimentar o mundo ao seu redor, e, dessa forma, a felicidade humana está relacionada com a forma que escolhemos para interpretar o mundo. Portanto, devemos treinar nosso cérebro para capitalizar possibilidades, vendo o mundo através de uma lente de gratidão, esperança, resiliência e otimismo. A experiência das emoções positivas, combinada com sentimentos de significado e propósito, pode proporcionar maior prazer, engajamento e significado, tanto na vida pessoal quanto na vida profissional.

O pensamento e a atitude positiva discutidos por Seligman (2004), Csikszentmihalyi (2004) e Achor (2010) estão presentes na abordagem moderna de

competências para o trabalho. Segundo essa abordagem, as competências individuais não devem se restringir somente a aspectos cognitivos, técnicos, mas devem contemplar aspectos sociais e afetivos para a execução de um bom trabalho. No subcapítulo 5.4, é aprofundado o debate sobre o desenvolvimento da pessoa para o trabalho, tema de suma importância para a esta tese.

5.4 DESENVOLVIMENTO DA PESSOA PARA O MUNDO DO TRABALHO