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In document ESG-Ratings and Returns (sider 30-36)

Conforme referido, no texto sobre Artur Avila há predominância da voz de um narrador heterodiegético, isto ao consideramos isoladamente os trechos da narrativa a respeito do perfilado e nos momentos em que o narrador adota uma postura expositiva e reflexiva, discorrendo sobre a ciência matemática.

Reis e Lopes (1988, p. 121) distinguem o narrador heterodiegético, aquele que “relata uma história à qual é estranho, uma vez que não integra nem integrou, como personagem, o universo diegético em questão”, do narrador homodiegético, “que se caracteriza pelo fato de narrar uma história que conhece pela sua experiência de testemunha direta”.

Tal diferenciação é bastante elucidativa em relação aos usos de variados tipos de narrador por João Moreira Salles na concepção de seu texto. Nas cenas que compõem o perfil, sendo a construção cênica um dos principais recursos do jornalismo narrativo, Salles opta pela narração heterodiegética exatamente nos trechos formulados a partir dos relatos colhidos por meio de entrevistas. Algumas dessas cenas retratam fatos ocorridos em um tempo bem distante do período de apuração e, consequentemente, do presente da narração.

Edvaldo Pereira Lima (1987, p. 37) destaca a necessidade de prender a atenção do leitor nos momentos iniciais da narrativa a fim de que este abstraia do que o rodeia naquele instante, o que aponta como lição aprendida com a linguagem cinematográfica por seu uso frequente em tal suporte. Uma das opções na construção do texto seria “realizar um ‘aquecimento’ gradativo do espectador, jogando na tela, de início, não um momento extremamente decisivo da narrativa, mas, sim, uma sequência que antecede (ou dá continuidade) a um fato importante”, o que consideramos ser perceptível na cena utilizada por Salles.

A cena que abre a narrativa constitui-se enquanto um momento de flashback, retorno ao ano de 1999, quando Artur Avila tinha ainda 19 anos e viajava para os Estados Unidos. O narrador coloca-se apenas como observador, mas dá informações adicionais para compreendermos melhor o contexto:

A bordo de um avião da United Airlines para Nova York, o matemático Welington de Melo pediu um copo de vinho. Seu companheiro de viagem, Artur Avila, pediu outro. A aeromoça desconfiou: “Que idade você tem?” Artur tinha 19 anos, com jeito de menos, e ficou sem o vinho. Era a sua primeira viagem profissional. Havia sido confiado aos cuidados de seu orientador de doutorado, mas, em terra, sua mãe ainda não se tranquilizara inteiramente com a decisão de deixá-lo partir para os Estados Unidos. (SALLES, 2010a, p. 34).

Essa tentativa de provocar o envolvimento inicial do espectador com a narrativa também é usada em Santiago, no qual os primeiros minutos do filme servem para conquistar a atenção do receptor. Contudo, no filme, como vimos ao tratar da metaficcionalidade, o artifício não gera imersão e, sim, tem uma função inversa: reforçar a quebra da narrativa. Em crítica a respeito do documentário, Thiago Camelo (2006)46 define bem o efeito causado no espectador:

O filme já começa assim: imagem se aproximando de um retrato, lentamente, música emocionante tocando, câmera se aproximando... Entra

off: “Este seria o primeiro plano do meu filme...”. O mais curioso é que o off surge quando – é o que diz quem estava na exibição - já se está envolvido com a cena. É um soco para fora da tela, como quem avisa: Viu como é fácil te emocionar?

Logo após a cena inicial presente no texto sobre o matemático Artur Avila, o narrador segue contando sobre o objetivo da viagem do personagem perfilado, um encontro que havia sido combinado há meses com Mikhail Lyubich, codiretor do Institute for Mathematical Sciences, centro de excelência em pesquisa matemática, e trata do trabalho colaborativo entre Avila, Lyubich e o orientador de Artur, Wellington Melo, de quem utiliza o relato para descrever outro acontecimento da época:

Um dia ele e Artur foram a Nova York ouvir a palestra de um matemático. No Village, bairro conhecido pela fartura de restaurantes, saíram atrás de um lugar para comer. Melo se lembra da impossibilidade de conciliar os gostos: “Eu perguntava: ‘E esse coreano, Artur?’, e ele respondia: ‘Nunca provei.’ ‘Esse italiano?’ ‘Não conheço.’ Imagine, não conhecer comida italiana. O Artur acabou almoçando no McDonald's. Ele sabia pouca coisa do mundo”. (SALLES, 2010a, p. 34).

Apesar de o narrador também ser classificado como heterodiegético, considerando especificamente esse trecho, vê-se uma diferença evidente em relação à construção anterior, à

46 CAMELO, Thiago. O filme e o filme de João Moreira Salles. Blog Overmundo. Publicado em 11 dez. 2006.

Disponível em:

cena de abertura. Temos aqui uma referência clara à fonte de informação a partir da menção à lembrança de Melo. Essa alternância na narração, entre uma postura a partir da qual o narrador assume totalmente os dados da narrativa ou faz uso de inserções que apontam para a origem das informações do relato, ocorre também em diferentes momentos do texto.

Em outra cena, o narrador demonstra onisciência, relatando, inclusive, pensamentos do personagem:

Em janeiro de 2009, dez anos depois de Stony Brook, Artur acordou de madrugada no apartamento do Leblon que comprou com sua mulher, a economista Susan Schommer, uma moça gaúcha que faz pós-doutorado no Impa. “E agora? Tento dormir de novo ou penso um pouco?” Decidiu pensar. Ficou ali, no escuro, olhando para o teto. Do lado de fora, os últimos foliões de algum bloco pré-carnavalesco se arrastavam pela rua, cantando e caindo. Do lado de dentro, nada além de um homem parado na cama, de olhos abertos, ao lado da mulher que dormia. Contudo, havia movimento. Sem se mexer, Artur começou a girar objetos matemáticos na cabeça, como alguém que contorna uma estátua para vê-la de todos os ângulos. Estava retomando um problema que deixara de lado seis anos antes, por não saber como prosseguir. (SALLES, 2010a, p. 36).

Tal procedimento é uma reconstituição do fato com uma aparente camada de ficcionalização, o que não quer dizer, no entanto, que aquilo que é narrado não corresponda aos acontecimentos. A narração que demonstra onisciência está entre as técnicas atribuídas ao jornalismo narrativo por aqueles que participaram do Novo Jornalismo. Gay Talese (apud COIMBRA, 1993, p. 54) esclarece de que modo é possível chegar a uma narração que abarque também a subjetividade do personagem e uma descrição tão detalhada de algo não testemunhado:

Procuro seguir discretamente o objeto de minhas reportagens, observando-o em situações reveladoras, anotando suas reações e a dos outros. Tento absorver todo o cenário, o diálogo, a atmosfera, a tensão, o drama, o conflito e então escrevo tudo do ponto de vista de quem estou focalizando, revelando inclusive, sempre que possível, o que os indivíduos estão pensando nos momentos que descrevo. Essa visão interior só pode ser obtida, naturalmente, com plena cooperação do sujeito, mas se o escritor goza da confiança daqueles que focaliza, isto se torna viável por meio de entrevistas, onde a pergunta certa é feita no momento exato. É possível assim saber e registrar o que se passa na mente das pessoas.

João Moreira Salles não elimina de sua narrativa alguns elementos característicos do jornalismo mais tradicional utilizados geralmente para dar credibilidade ao relato. Constrói sua narrativa de modo diferente do que faz Consuelo Dieguez (2011), em seu texto sobre as

chuvas em Nova Friburgo47, construído predominantemente de forma tão análoga à estrutura da narrativa literária que pode passar por relato ficcional se seus fragmentos forem lidos fora do contexto da revista.

Em Artur, tais recursos deixam claro para o leitor que, apesar da opção por técnicas geralmente usadas apenas no âmbito da narrativa ficcional, trata-se de um texto ancorado no mundo histórico e, antes de tudo, uma representação do real a partir de informações coletadas por meio de entrevistas e pesquisas. Logo após a imersão proporcionada pela narração da cena, Salles complementa:

“Fiquei pensando de maneira gentil”, ele conta. [...] A sensação era a mesma de quem se concentra nas formas esfaceladas de um quadro cubista e, dando um passo para trás, quem sabe outro para o lado, consegue finalmente recompor a figura - ali está a mulher, o violão e a partitura. Tudo é uma coisa só. Ainda no escuro, Artur começou a calcular as consequências do seu novo ponto de vista e percebeu que conseguia produzir muito mais informação. “A narrativa já tinha engordado”, explica. Seu objeto, que até então não revelara muito de si, começou a gerar histórias cada vez mais fantásticas, como se ele tivesse encontrado o segredo daquelas caixinhas de surpresa hermeticamente fechadas que, a um golpe certeiro, abrem-se num festival de bandeirinhas, bonecos de mola e música de circo. Artur ficou excitado, mas voltou a dormir. “Nem anotei, não tenho medo de esquecer as minhas intuições”. (SALLES, 2010a, p. 36).

O uso das aspas é bastante característico das produções jornalísticas convencionais, porém, mais importantes são as referências ao relato feito pelo personagem, sinalizado com o uso de expressões como “ele conta” ou “explica” após o fechamento da fala. O trecho traz, portanto, um hibridismo entre técnicas de uso banalizado nos textos jornalísticos e artifícios provenientes do jornalismo narrativo.

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