• No results found

Additional publications

In document Året da demokratiet slo tilbake! (sider 57-60)

Uma das maiores tendências na investigação em psicologia relaciona-se com o papel crucial das diferenças individuais nos processos de coping e adaptação (e.g. Lazarus & Folkman, 1984 citado por Mikulincer & Florian, 1998), encontrando-se porém, em toda a literatura referente a mecanismos de coping em situação de doença crónica, poucos estudos que abordam o tema de um ponto de vista desenvolvimentista. Todavia, são vários os motivos que conferem à Teoria da Vinculação poder explicativo quanto aos fenómenos de adaptação à doença, entre os quais, a capacidade preditora deste modelo quanto à vulnerabilidade ou resiliência face a eventos stressantes, o facto de ser um sistema comportamental activado em situações de doença e o facto de ser uma área de estudo que actualmente integra os contributos sobre regulação emocional, largamente explorados por ela, e que vêm sendo integrados nas teorias sobre os processos de coping (Schmidt et al., 2002).

Uma breve revisão da literatura permite perceber alguma incipiência nos estudos que relacionam os estilos de vinculação e as estratégias coping, particularmente em situação de doença, e o resultante ajustamento à mesma. Os estudos têm, contudo, mostrado que os estilos de vinculação são relevantes para o processo de coping com acontecimentos stressantes, especialmente por influenciar a percepção e a procura de apoio (Cicero et al., 2009). Nas pacientes com cancro da mama, por exemplo, a disponibilidade percebida e a satisfação sentida quanto ao apoio dos outros associam-se a um melhor ajustamento emocional, sensação de esperança e melhor estado de humor (Ell et al., 1992, citado por Cicero et al., 2009).

Partindo das formulações feitas por Bowlby (1973) vários autores vêm defendendo que as diferenças individuais no estilo de vinculação, pelo impacto que têm nos esquemas cognitivos que organizam a experiência individual, desempenham um papel fundamental no bem-estar e na regulação emocional e coping com os acontecimentos stressantes (Mikulincer & Florian, 1998, 2012, Ognibene & Collins, 1998). Partindo desta premissa, Mikulincer & Florian (1998, 2012) conceptualizam a vinculação segura como um recurso interno que auxilia as pessoas a avaliar positivamente as experiêncas de stress, a lidar com estes acontecimentos e a aumentar o seu bem-estar e adaptação. Pelo contrário, as vinculações inseguras, do

64

tipo ansioso-ambivalente ou evitante, podem ser consideradas como factores de risco levando a pior ajustamento psicológico face a experiências dolorosas.

Tal como Bowlby advogara, para além de favorecer o estabelecimento de relações interpessoais, a vinculação segura facilita o desenvolvimento de estratégias de coping e sentimentos pessoais de auto-eficácia e valor que são indispensáveis ao confronto construtivo com os stressors e a um adequado ajustamento psicológico. Assim, o sentimento de segurança constitui-se como um recurso pessoal interno que ajuda as pessoas a lidar eficazmente com as adversidades. Experiências com um cuidador responsivo e sensível aos sinais de distress são promotoras de sentimentos de confiança no mundo e no “self” e do desenvolvimento de expectativas positivas face a acontecimentos stressantes que, apesar de dolorosos e difíceis, são percebidos como manejáveis (Bowlby, 1988; Shaver & Hazan, 1993, citados por Mikulincer & Florian, 1998). Este sentimento de segurança, possivelmente por envolver expectativas optimistas, um forte sentido de controlo e auto-eficácia e confiança nos outros, uma vez adquirido, passa a fazer parte da estrutura de personalidade e constitui-se como um factor de resiliência que favorece uma atitude construtiva perante a vida (Mikunlicer & Florian, 1998; Ognibene & Collins, 1998).

Outra implicação da teoria da vinculação diz respeito à influência que os

modelos internos de funcionamento exercem sobre a escolha das estratégias de coping perante um determinado stressor, sendo mais óbvias as diferenças entre os

diferentes estilos de vinculação na procura e uso de ajuda para gerir o stress (Mikunlicer & Florian, 1998, 2012; Ognibene & Collins, 1998).

Seguindo a classificação tripartida defendida por Hazan e Shaver (1987, citado por Mikulincer & Florian, 2012) a literatura sobre vinculação refere que as pessoas com vinculação segura estão mais conscientes do distress quando tentam regular o mesmo, e utilizam acções constuctivas como a procura dos outros para obter apoio instrumental e emocional. Também se pensa que são mais tolerantes às situações stressantes e aos afectos negativos suscitados por elas, sem se sentirem sobrecarregadas. Usando as formulações de Lazarus e Folkman (1984, citado por Mikulincer & Florian, 1998), as pessoas com vinculação segura parecem assim depender mais de estratégias de coping focadas nos problemas e na procura de apoio quando enfrentam situações adversas e, por esta razão, parecem perceber menores níveis de stress (Koopman et al., 2000).

Por sua vez, as pessoas com vinculação ansiosa-ambivalente possivelmente lidam com as situações de stress dirigindo a sua atenção para o distress de uma forma hipervigilante, ruminando mentalmente pensamentos negativos, memórias e emoções. Como têm acesso mais fácil a afectos negativos e memórias, ficam mais vulneráveis a

65

um elevado distress e, não sendo capazes de reprimir emoções e pensamentos negativos, desligando-se da experiência de dor, não conseguem limitar a propagação do distress a outras esferas da vida (Mikulincer & Orbach, 1995, citado por Mikulincer & Florian, 1998). As pessoas com este tipo de vinculação parecem ainda utilizar como mecanismos preferenciais de coping as estratégias focadas na emoção, passivas e ruminativas (Lazarus & Folkman, 1984, citado por Mikulincer & Florian, 1998). Num estudo com pacientes com VIH avaliados quanto ao estilo de vinculação, estilo de

coping e stress percebido, os participantes com estilo de vinculação inseguro e

altamente ansiosos pareceram ser mais propensos a perceber as suas vidas como stressantes, fornecendo evidências de que o estilo de vinculação pode determinar como são experenciados os stressors do quotidiano (Koopman et al., 2000). Indivíduos com este tipo de vinculação tendem a ser excessivamente dependentes o que, juntamente com a tendência para reportar mais sintomas somáticos, pode levar a que se tornem utilizadores frequentes de serviços médicos, criando relações de dependência com os respectivos prestadores de cuidados (Ciechanowski et al., 2002).

Por último, as pessoas com vinculação evitante parecem lidar com situações adversas impedindo a consciência do distress e adoptando o que Bowlby (1973) designa por “auto-confiança compulsiva” (Hazan & Shaver, 1993, Mikulincer & Florian, 1998). Esta característica manifesta-se na excessiva autonomia e auto-confiança, negação das fontes de stress e inibição da expressão emocional, utilizando como formas preferenciais de coping o distanciamento e evitamento (Lazarus & Folkman, 1984, citado por Mikulincer & Florian, 1998). Apesar do escudo defensivo contra o “sentir” pode encontrar-se nestas pessoas uma ansiedade de base, que reflecte o fracasso em alcançar uma “base segura” junto das figuras de vinculação (Mikulincer & Orbach, 1995, citado por Mikulincer & Florian, 1998). Ciechanowski et al., (2002) defende que em resultado do seu padrão relacional as pessoas com este estilo de vinculação podem evitar formas mais próximas de cuidados de saúde, tais como consultas frequentes em ambulatório, devido ao seu medo de intimidade, e podem optar por visitas irregulares a diferentes prestadores de cuidado. Este padrão de utilização de cuidados de saúde por parte das pessoas com vinculação evitante pode corresponder a um maior risco de adiamento da procura de cuidados médicos ou da obtenção de tratamento médico de forma inconsistente.

66

In document Året da demokratiet slo tilbake! (sider 57-60)