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Silvia Selingardi-Sampaio (2009) questiona a definição “mancha industrial” que muitos autores utilizam ao se referirem à concentração geográfica da atividade industrial no Estado de São Paulo. Esta mancha é variável no tempo e no espaço, expande-se até ocupar uma área correspondente a um raio de 200 a 250 Km de distância da metrópole paulistana, abrangendo, genericamente, sua Região Administrativa, Baixada Santista, Campinas, São José dos Campos, e Sorocaba. Para a autora, segundo suas próprias palavras, trata-se de algo vago e inadequado. Superestima uma representação gráfica, além de representar uma área industrial indiferenciada quanto à sua estrutura interna, ou seja, tenta-se mostrar uma área homogênea, o que, concordamos com ela, não ocorre. Para chegar a tais conclusões, agrega os dados por Regiões Administrativas concebidas como unidades industriais. A intenção é procurar outras formas de captar a dinâmica do espaço paulista mais industrializado mostrando sua estrutura interna, os elementos que a compõem e as relações entre eles. Constrói uma série de mapas relativos aos anos de 1950 (quando emerge o caráter acumulativo), 1960, 1970, 1980, 1996, 2000 e 2005. Também busca conteúdos sociais para explicar esta formação (SELINGARDI-SAMPAIO, 2009).

Ao longo do processo, a autora enfatiza a descoberta de teia de inter-relações da atividade industrial e/ou da vinculação desta com outros eventos. Sustenta a tese da gradativa estruturação de uma grande aglomeração espacial da indústria, hierarquizada e integrada ao aglomerado metropolitano paulista. A referida aglomeração proposta pela autora forma extenso e múltiplo complexo territorial, o que define a estruturação do, por ela

20 denominado, multicomplexo territorial industrial. Constitui-se de diversas atividades industriais, aglomerações industriais menores preexistentes, relações interindustriais (os

linkages), que estão produtivamente vinculadas, em encadeamentos para frente e para trás.

Os dados utilizados são dos Censos Industriais até a década de 1980. A ausência dos Censos Industriais na década de 1990 deixa como alternativa para a análise cartográfica o uso da variável Valor Adicionado Fiscal da Indústria – VAFI, presente nas Informações dos municípios paulistas de 1996, 2000 e 2005 disponibilizadas pela Fundação SEADE10. São utilizados indicadores relativos ao número de estabelecimentos e empregos ocupados provenientes da mesma fonte (SELINGARDI-SAMPAIO, 2009) 11.

Dentre os economistas que se dedicam ao tema em questão, imprescindível citar Wilson Cano ante a quantidade de trabalhos e anos de pesquisa dedicados ao processo de industrialização. Com trabalhos de grande riqueza histórica e análise quantitativa, o autor abrange desde o capital que origina o processo de industrialização no Brasil até as peculiaridades do parque industrial do início do século XXI. Concorda com a maioria dos autores que atribuem ao capital cafeeiro à origem da concentração geográfica industrial paulista. Entretanto, argumenta que ela não se aprimora a custa do pouco desenvolvimento de outras regiões brasileiras, como o Nordeste. Acredita numa complementaridade entre as áreas, principalmente após a década de 1950. Neste sentido, os planos econômicos voltados para a tentativa de desconcentrar a indústria nacional também falham por focar numa tentativa de industrialização exclusiva para a Região Nordeste. Aponta a qualificação de mão de obra e os investimentos em pesquisas como grandes atrativos para a localização industrial no início do século XXI, o que faz das Regiões Metropolitanas do Estado de São Paulo, principalmente as de Campinas e da Capital, grandes receptoras de indústrias de maior tecnologia, e, portanto, geradoras de bens e serviços de maior valor agregado.

10 Fundação vinculada à Secretaria Estadual de Planejamento e Desenvolvimento Regional do Estado de São Paulo.

11 A autora alerta que os dados são alterados durante a fase que elabora mapas e tabelas. Especifica que os valores monetários para as Tabelas e Mapas com a variável VAFI, produto e renda, são feitos com base no Sistema de Informações dos Municípios Paulistas – IMP, da Fundação SEADE, de 1996 a 2000. No entanto, no início de 2007, são substituídos por novos números, atualizados pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) calculados em Real de 2006. Justifica a manutenção do rigor técnico e científico do seu trabalho inserindo os novos dados em algumas tabelas. Argumenta que não há necessidade de se refazer os mapas porque a definição dos municípios representativos da indústria esta fundamentada nas proporções detidas por eles no conjunto estadual, e essas grandezas inter-relacionadas não são alteradas com a atualização dos dados.

21 Cano (1998, 2002) dá prioridade ao uso dos Censos Industriais e tem o cuidado de observar as atualizações metodológicas. Cita como exemplo a tentativa de se coletar dados censitários para as indústrias em 1920, no qual as especificidades e o rigor técnico são bastante diversos em relação aos Censos Industriais seguintes, principalmente devido à forma de apuração e consolidação fragmentada dos dados, ênfase ao ramo açucareiro. Os dados agregados indicam a predominância industrial de Minas Gerais.

Recorremos à publicação do Censo Industrial de 1920 (IBGE, 1924) e observamos que de fato há 12 tabelas bem distintas, duas referentes aos estabelecimentos de eletricidade, cinco ao serviço geral de iluminação (elétrica, especialmente), três ao serviço de abastecimento de água, uma ao serviço de esgoto e uma dedicada às usinas açucareiras. Ainda que boa parte destas indústrias não faça parte do escopo deste trabalho (dedicado às indústrias extrativas e de transformação), a partir desses dados é possível visualizar que o Estado de São Paulo já avança em infraestrutura necessária para deslanchar o crescimento industrial. À época, das 343 usinas elétricas, 91 estão em Minas Gerais, 78 em São Paulo, 41 no Rio Grande do Sul e 18 no Rio de Janeiro. O destaque parece estar em Minas Gerais. No entanto, a publicação censitária também informa que das 422 cidades e vilas com iluminação exclusivamente elétrica no Brasil, 137 estão em São Paulo contra 98 em Minas Gerais. Em solo mineiro também esta a maior proporção daquelas sem iluminação, 45, enquanto em São Paulo, somente 16.

De grande contribuição é o esforço de Cano (2007) para agrupar as atividades em dois dígitos a fim de possibilitar um estudo comparativo entre os dados decenais, de 1919 a 1970. Não obstante, para períodos posteriores, Cano (2008) passa a trabalhar com novas compatibilizações entre Censos Industriais e dados das Pesquisas Industriais Anuais, Contas Nacionais e Regionais, bem como em alguns momentos, Pesquisas Industriais Mensais. Para análises a partir dos anos 1990, uma estratégia do autor é trabalhar com 21 ramos industriais agregados em grupos:

Grupo I: predominantemente produtor de bens de consumo não-durável. Ramos: mobiliário, farmacêutico, perfumaria, têxtil, vestuário, produtos alimentares, bebidas, fumo, editorial e gráfica.

22 Grupo II: predominantemente produtor de bens intermediários. Ramos: metalurgia, minerais não-metálicos, madeira, papel e papelão, borracha, couros e peles, química e matérias plásticas.

Grupo III: predominantemente produtor de bens de capital e de consumo durável. Ramos: mecânico, material elétrico e de comunicações, material de transporte e diversas.

A estratégia desta classificação mostra-se útil por permitir um estudo sobre as aglomerações industriais por atividade, principalmente quando não há divulgação destas informações para os municípios nas Pesquisas Industriais Anuais.

Outro empecilho que Cano (2008) enfrenta na hora de consultar as fontes é a forma em que os dados estatísticos disponíveis são apresentados, em valores nominais. Para resolver esta questão, o autor sugere que o ideal é utilizar deflatores regionais adequados para a análise de cada ramo industrial. Entretanto, até o momento da elaboração de seus estudos, não há deflatores regionais por ramos. Com base no índice encadeado e no índice nominal do Valor de Transformação Industrial - VTI constrói um deflator implícito para a indústria de transformação no Brasil. Para Cano, não se trata de uma solução definitiva. Não é apropriada para todas as regiões brasileiras, tampouco para os três grupos que utiliza para agregar os ramos industriais. A alternativa é não deflacionar, o que pode provocar distorções ainda maiores, praticamente inviabilizando a análise do Valor da Transformação Industrial. Diante da falta de opções, utiliza o deflator implícito.

Para a década de 2000, o autor também realiza análises a partir do Valor Adicionado Fiscal – VAF. Assim, mostra que a indústria de transformação na Região Metropolitana de São Paulo continua importante diante da estrutura produtiva industrial mais diversificada do estado e do país. As demais áreas se destacam em atividades específicas. Os dados da contribuição de cada ramo ao VAFI do Estado de São Paulo em 2003 apontam que, nas áreas adjacentes ao município de Campinas, destacam-se os ramos de combustíveis predominantemente derivados de petróleo (24,7%), alimentícios (11,2%), químico (9,9%) e material de transporte (9,8%). Em São José dos Campos: combustíveis (31%) e material de transporte (25%). Na Baixada Santista: combustíveis - predominando os derivados de petróleo (46,5%), siderurgia (23,7%) e produtos químicos (22%). Ribeirão Preto: produtos alimentares (40%), álcool (21%), papel e celulose (10%), química (8%), metal-mecânica (12%). Franca: produtos alimentares e bebidas (47%), couros e calçados (19%) álcool

23 (12%). São José do Rio Preto: ramos alimentícios e bebidas (66%), álcool (4%), produtos de metal e outros ramos do complexo metal-mecânico (10,7%), móveis (6,7%). Marília: produtos alimentares (61%), metal-mecânico (22%) e álcool (7%). Assim, os dados a partir do VAF são úteis como fonte de análise pontual para mostrar que a concentração ou desconcentração das indústrias no Estado de São Paulo ocorre de maneira diversa de acordo com a atividade.

Como bem constata Alexandre de Carvalho Tinoco (2001), quando se trata do período de análise de 1985 a 1995, sem Censos Industriais e grandes alterações nas Pesquisas Industriais Anuais, há um impasse quanto ao processo de captar os dados sobre a indústria brasileira e, por conseguinte, de mensurar a concentração geográfica industrial paulista. Emerge o consenso de tendência ao espraiamento deste processo, porém com diversas explicações e graus de intensidade para o fenômeno em razão das poucas fontes disponíveis.

Para períodos mais recentes, Cano (2007, 2008) acrescenta tabulações especiais das Contas Regionais e informações das Pesquisas Industriais Mensais. Ao comparar as informações provenientes destas fontes se depara com resultados incoerentes. Segundo ele, a partir de 1989, a participação de São Paulo na produção industrial nacional se reduz de maneira mais acelerada nas Contas Regionais que nas Pesquisas Industriais Anuais. Como alternativa, constrói sua própria estimativa até 1999. Ainda assim, trabalha com a mescla de informações utilizando uma ou outra fonte conforme necessidade de sua análise. De fato, algumas divergências podem ocorrer. Cano (2008) bem observa que nas Contas Regionais é divulgado o Valor Adicionado Bruto (VAB) para estimar o valor agregado por toda a produção industrial ao produto nacional. Nas Pesquisas Industriais Anuais divulga-se o quanto as empresas industriais acrescentam a economia ao transformarem as matérias- primas, insumos e materiais auxiliares em bens e/ou serviços industriais, o Valor da Transformação Industrial (VTI).

Nossa contribuição é acrescentar que o VAB é definido a partir da produção estimada eliminando-se alguns resíduos tributários e o Consumo Intermediário, isto é, tudo que é consumido no decorrer do processo produtivo industrial, provenientes de todos os setores produtivos, o que é viabilizado mediante o cruzamento de diversas pesquisas e informações econômicas. Os dados utilizados das Pesquisas Industriais Anuais se referem

24 ao Valor da Transformação Industrial, entendido como a receita líquida com produtos e serviços industriais declarados pelas empresas industriais excluídas as variações de estoque, gastos com Matéria prima e demais custos operacionais da indústria como combustível, energia, algumas máquinas e equipamentos de produção e certos tipos de serviços de reparação e manutenção executados por terceiros, os chamados Custos Operacionais Industriais. Teoricamente, permitem trabalhar com unidades geográficas menores (municípios) por atividade, além de ser uma variável útil para estudos históricos por ser adotada em vários Censos Industriais.

Sendo o nosso foco a formação e desenvolvimento do parque industrial paulista, o que pressupõe estudo de áreas internas ao estado e dados que possibilitem avaliações históricas por atividade, decidimos usar o Valor de Transformação Industrial calculado a partir dos Censos e das Pesquisas Industriais Anuais para os estabelecimentos/unidades locais. A adoção desta estratégia metodológica justifica-se pela possibilidade das fontes estatísticas serem capazes de permitir a reflexão sobre a formação do parque industrial paulista, ainda que as referidas fontes evoluam ao logo do tempo.

Para tanto, propomos a delimitação e análise de períodos históricos, entendidos como recortes temporais que representam cada um deles, um momento particular de coerência interna forte entre as variáveis, com diferentes fatores condicionantes na formação daquele espaço nesses anos da análise. Ressaltamos, sempre que conveniente, as diferenças metodológicas que surgem e, aquilo que consideramos fundamental para um trabalho científico: a evolução dos conceitos e definições para as variáveis utilizadas na análise. Afinal, como as demais ciências, a estatística também evolui. Desta forma, a geografia e a estatística podem dar suporte à economia e à história, caracterizando nosso estudo como multidisciplinar.

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Capítulo II – Das primeiras manufaturas e fábricas à crise de 1929: uma

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