2. Avhandlingen
2.1. Metodisk utgangspunkt i avhandlingen
2.1.1. Adaptiv teori
Quanto ao aprimoramento técnico conquistado pela autora de Pousada do ser, Mário de Andrade, já nos anos quarenta, usa uma expressão que ainda hoje é válida para classificá-lo, tendo em vista o estado de poesia que ela atingiu com as obras da maturidade: cristalinidade de arte 11. Mantendo a ideia de leveza, que Mário sempre
reconheceu como característica da poética de Henriqueta Lisboa, valendo-se de uma imagem graciosa em que ele evoca, mais uma vez, a fragilidade de certos seres alados , numa sintaxe tão sua, ele diz:
Você está azul, numa tal cristalinidade de arte, conseguindo de tal forma revelar estados em poesia, a palavra estala de leve, como certos estalos das borboletas, uma coisa linda. 12
8LISBOA, Henriqueta. Númeno . Reverberações. In:______. Obras completas I-Poesia Geral, 1985, p. 440. 9 Id., Poesia: minha profissão de fé. Vivência poética, 1979, p. 18-19.
10 Id., ibid., p. 15.
11SOUZA, , p. carta de Reis , . 12 Id., ibid.
Dois anos mais tarde, Mário ainda reitera seu julgamento fazendo uma observação interessante quanto ao ritmo tão peculiar da lírica henriquetiana, que ela manterá até o fim, sempre aperfeiçoando seu labor de escultora do verso e, ao mesmo tempo, de musicista da palavra:
Mas não é só como estado de poesia, concisão, densidade lírica, interioridade, riqueza de simbologia, vocabulário pessoal, que você atinge a plenitude de agora. Já lhe falei em carta, a técnica também me parece que atingiu essa plenitude. O valor da palavra, o valor dos ritmos está tudo utilizado também com uma precisão admirável, já falei, é cristal. Sobretudo nos versos curtos, de poucas sílabas, medidas ou não. Você tem até um jeito de ir medindo, medindo, e de repente concluir com um verso fora do ritmo e menor que os outros, que acho uma verdadeira delícia rítmica. 13
Mário exemplificará seu comentário com versos de um poema d O menino poeta e outros d A face lívida, e o mesmo poderemos observar na composição intitulada
Cantata , do livro O alvo humano, que analisaremos na sequência. Observemos os dois exemplos de Mário:
Lua acorda, vamos brincar! Temos brinquedos Novos! ou: Água marinha cor do céu. Céu tocado com as mãos. Céu duro e pequeno com brilho efêmero de joia 14.
Por tudo que Mário aponta, a arte de Henriqueta Lisboa é cristalina , devemos concordar; é detentora de cristalinidade na transparência que consegue atingir com certos movimentos e imagens. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que, paradoxalmente, essa mesma arte absorve a densidade da noite escura, que imerge na profundeza e se esconde. Ela é pura naquilo que representa de mais autêntico, de mais
13 SOUZA, 2010, p. 275-276 (carta de 28 jan. 1944).
14O primeiro é uma estrofe de Ronda de estrelas , do livro O menino poeta, e o segundo, trata-se de Água marinha , d A face lívida. Cf. SOUZA, 2010, p. 276 (em nota de rodapé).
arduamente trabalhado — cristaliza-se —, e emerge sem sombras, sem indícios de qualquer esforço anterior, mantendo a fluidez e a leveza das imagens aéreas, aquáticas e ígneas, como estas que estão no poema Cantata 15. Aqui, desde o título, o ritmo de uma
canção se impõe:
Coluna aérea
que a matéria sustentas no alto em corola. De onde vem tua força ó Espírito,
de onde sopra a aura que acorda do outro lado do mundo as criptas?
Tanto resistes
ao remoinho do século, persegues a sombra,
feres a opacidade da madeira para que ela transpire o segredo das cousas, em mergulho navegas mar adentro
para que se revele por filigrana ao menos o mistério da vida. [...] 16
Na seguinte estrofe, vemos, na imagem evocada pela nuvem nítida — num
enjambement aliterado —, o Espírito prestes a descer, a um só tempo, em água e fogo, simbolizando o primeiro batismo — aquele protagonizado por João Batista, pela água —, e o segundo — o prometido pelo Cristo, o batismo pelo fogo —, este pelo Espírito Santo:
[...] Ó Espírito, nuvem nítida, carregada de água e de fogo. [...] 17
15 Cantata é uma espécie lírica surgida na Itália no século XVII. E, segundo Hênio Tavares, sofreu, com o tempo, ampliações e adaptações. Apropriada ao canto, a Cantata possibilitou aos poetas maior liberdade formal. Cf. TAVARES, Hênio. Teoria literária. 4. ed. Belo Horizonte: Bernardo Alvares, 1969, p. 287.
16LISBOA, Henriqueta. Cantata . O alvo humano, 1973, p. 63-65. 17 Id., ibid.
Na sequência, as equivalências sonoras, também por aliteração, conjugam-se ao efeito cromático obtido pelo léxico escolhido, e igualmente enriquecido, semanticamente, pela imagem sugerida do fogo descendo sobre a fronte dos doze apóstolos — Pentecostes —, tradução por metonímia dos versos em línguas rubras/sobre a fronte dos Doze :
[...]
Vejo-te em véus
sobre o verde dos vales, em línguas rubras sobre a fronte dos Doze. Percebo teu clamor na febre entrecortada dos dentes.
Sei da alegria com que atinges o cerne fibra por fibra
numa pressão de dedos em teclas arrebatadas. E ascendes
todavia
do sangue para o tranquilo azul
[...] 18
Nesse poema, Cantata , embora desmembrado para fins de exposição de análise, notemos o quanto a configuração gráfica, com seus espaços em branco, versos deslocados, ora em sequência, ora isoladamente numa mesma estrofe, exemplifica aquilo que Northrop Frye chama de ritmo oracular, um ritmo meditativo, irregular, [...] essencialmente descontínuo [...] 19, conforme já referimos. Esse ritmo, segundo o autor,
seria o primeiro passo predominante da lírica 20, o ritmo da associação, que parece
reter uma conexão com o sonho 21, no que tange à união de som e sentido: [...]
Sinto-te em elos brônzeos acorrentando Prometeu à dura rocha diante Da infinitude,
para que não regresse à condição de mito
18LISBOA, Henriqueta. Cantata . O alvo humano, 1973, p. 63-65. 19 FRYE, 1973, p. 267.
20 Id., ibid. 21 Id., ibid.
e homem seja entre os homens — instrumento e penhor de novo lume. Ó cruz pesada, Espírito. A matéria carrega-te ao longo do caminho, sobe e desce colinas, ao largo dos eventos, desde a primeira vigília
para chegar a uma clareira até o agônico estertor para permanecer
nas brumas [...] 22
Ainda quanto ao estrato gráfico do poema Cantata , surpreende-nos a inserção do verso intercalado às duas últimas estrofes. Em caixa-alta, em tom sentencial, um verso isolado reforça a imagem sugerida pela estrofe que o encerra, numa sequência de um mesmo sentido. No alto, em corola, o Espírito sustenta a matéria, flor moldada em haste aérea:
Tudo é negrume em torno aquém e além de ti.
A estrela perde as esmeraldas — neutro vitral obscuro. ATÉ QUE UM DIA PREVALECES Coluna aérea
que a matéria sustentas no alto em corola. 23
As obras que encerram o quinto grupo apresentam uma unidade que, de certo modo, reflete o fundamento de todo o percurso estético-existencial henriquetiano, conforme já havíamos sublinhado inicialmente quando destacamos Pousada do ser como a obra mais representativa do estado de poesia que a Autora atingiu: um estado de uma real condensação , no sentido de uma mudança de estado da matéria poética, análoga ao fenômeno do orvalho, símbolo tão caro no imaginário da poeta.
22LISBOA, Henriqueta. Cantata . O alvo humano, 1973, p. 63-65. 23 Id., ibid.