3.6 Aplicación práctica
3.6.2 Diseño de actividades
3.6.2.2 Actvidad 2: “Sistemas de calidad: la prevención como solución”
A presente pesquisa caminha na direção dos conceitos antropológicos das últimas décadas. Seguindo as orientações de Murrieta (1998, p. 102), propõe-se o estudo dos “processos de mudanças dos repertórios dietéticos e da percepção das pessoas do mesmo; os mecanismos de resistência, assimilação e acomodação, e especialmente, os efeitos secundários desses processos redefinindo relações em nível de micro-escala e macro- escala”46. Entretanto, o trabalho empírico desenvolvido é o limite que nos permite dar somente um passo na direção desta dialética do cotidiano, a partir de reflexões de uma questão: O produto da pesca artesanal, ou seja, os peixes e os mariscos capturados constituem o repertório local dietético das comunidades rurais negras? Com que freqüência?
Tentando responder esta questão é que realizamos três oficinas com os grupos familiares das comunidades estudadas e ainda aplicamos um questionário em 15 famílias das comunidades de Deus Ajude e Providência, durante o mês de dezembro de 2004.
Entender a importância destes alimentos pra dieta das comunidades quilombolas é iniciar o entendimento desse processo de escolha, onde o consumo do peixe é mais do que ingerir e nutrir-se. É entender ainda a importância da manutenção dos territórios de pesca destas comunidades.
O consumo de peixe, por sua vez, está relacionado, por exemplo, com o uso do peixe onde o critério de escolha do mesmo baseia-se em fatores como: preocupação com a saúde, produção pesqueira, características morfológicas e comportamentais do peixe, entre outras (THÉ; MADI; NORDI, 2003). A base de escolha de um espécime vai “além de um conceito utilitarista”. Thé; Madi; Nordi (2003, p. 399) seguem afirmando que esta base envolve “sistemas simbólicos por meio de restrições e tabus alimentares, limitados as experiências e/ou preferências individuais ou difundidas socialmente”
O peixe está na dieta alimentar das famílias rurais negras de Salvaterra. Podemos afirmar, baseados nos relato, que um dos critérios de escolha para o consumo de um grupo de peixes é o fato de ser, este grupo, de baixo valor comercial (os chamados peixes de 5ª) como a traíra, a piranha e o bacu. Possivelmente, esta escolha está pressionada pela necessidade atual, das comunidades quilombolas de ter o equivalente monetário para consumir produtos industrializados, como arroz, açúcar, café. As trocas que outrora vigoravam na comunidade
46 Murrieta (1998, p. 102) refere-se a gênero, indivíduo, unidade doméstica e comunidades como micro-escala e como macro-escala, cita as ralações sócio-políticas regionais e comunidades.
têm diminuído e não servem mais na obtenção de produtos alimentares primordiais como açaí e a farinha (gráfico 14). AÇAÍ FARINHA DUAS VEZES P OR SEMANA 8% UMA VEZ POR
SEMANA 8% NÃO CONSOME 8% TODO DIA 76% N ÃO CO N SO ME 7% U MA VEZ P OR SEMAN A 7% TO D O DIA 86%
Gráfico 14 - Média percentual relativa do consumo de farinha e açaí nas comunidades de Deus Ajude e Providência
Fonte: Elaborado pela autora com base no censo demográfico 2003/2004
Nas comunidades de Deus Ajude e Providência47 o consumo de farinha e açaí acontece todos os dias (gráfico 14). Os grupos familiares, geralmente, produzem a farinha para o próprio consumo e a venda local.
O açaí é coletado nas margens do Igarapé Siricari, há muitas gerações, no ano de 2004, os moradores das referidas comunidades vinham percebendo o mau uso do recurso, onde cachos imaturos estavam sendo derrubados, trazendo prejuízo para todos. É possível perceber que a disponibilidade do açaí é mantida pelo manejo local, que tem garantido este consumo diário.
Voltando o olhar ao consumo do peixe chegou-se conclusão de que 80% dos entrevistados consomem este item diariamente, quer seja no inverno ou no verão relatos freqüentes sobre a dificuldade de acesso aos lagos, entre os que praticam a pesca de subsistência. Provavelmente por que, muitos lagos estão sendo arrendados ou encontram-se com volumes de água reduzido e/ou contaminados por búfalos que tem esse recurso como “bebedouro naturais” (AZEVEDO; CAMARÃO; MESQUITA; 2000, p. 17).
47 Vale lembrar que as duas comunidades mencionadas não tem a pesca como atividade principal. Ambas possuem, em seus arredores poucos territórios de pesca restringidos, como é o caso do Igarapé São José cujo uso é atualmente exclusivo dos donos da Fazenda Santa e da Fazenda Renascença e totalmente proibido aos grupos familiares de Deus Ajude, Providência e Pureza (Retiro de Mangueira). O universo trabalhado foi 15 um total de famílias.
1 2 3 4 4 5 5 3 6 6 7 7 8 9 10 11
Fotografia 5- Exemplares de peixes consumidos por uma família em um dia, na comunidade de Mangueira: 1- mandi; 2- tainha; 3- pescada; 4- acará-tapioca; 5- tucunaré; 6- apapa; 7- sardinha; 8- matrichão; 9- camurin;10-acará e o 11- piranha-caju. Foto de Cristiane Nogueira.
Na comunidade pesqueira de Mangueira (Fotografia 5) é comum depara-se com um paneiro de peixe ou então com uma duzia deles no jirau, sendo preparados para o consumo diário das famílias. Fabré e Alonso (1998, p. 51), em sua pesquisa sobre a importância dos recursos ícticos no Alto Amazonas: para as populações ribeirinhas, conclui que as populações que as mesmas, nutrem-se diariamente e em todas as refeições de peixe, principal fonte de proteínas, e farinha de mandioca.
O consumo de carne (gráfico 15), por sua vez, refere-se tanto àquela obtida com o abate de boi, quanto do búfalo. A sumarização dos questionários indicam que o consumo de ambos, pelo motivo exposto, é o mesmo. Isto quer dizer que 29% das famílias questionadas consomem carne todo dia.
D UAS VE ZE S P O R S EM A NA 7% T R ÊS VEZ ES P O R S EM AN A 13% TO D O D IA 8 0%
PEIXE CARN CARNE
DUA S V EZES POR M ÊS 21% TODO DIA 29% UM A VEZ POR M ÊS 29% UM A VEZ POR SEM A NA 7% NÃ O CONSOM E 7% DUA S V EZES POR SEM ANA 7%
Gráfico 15 - Média percentual relativa do consumo de farinha e açaí nas comunidades de Deus Ajude e Providência
Fonte: Elaborado pela autora com base no censo demográfico 2003/2004
Do ponto de vista econômico a carne possui um custo maior que o do peixe. Enquanto compra-se uma cambada por R$ 1,20, o quilo da carne pode custar até R$ 6,00 reais e este fato pode estar inibindo o consumo. Por outro lado, este consumo pode estar relacionado ao “status emanado deste alimento” Murrieta (1998, p. 120), estudando uma comunidade pesqueira na ilha de Ituqui (Pará), observou que o consumo da carne de gado possui o poder e o prestígio de camadas sócio-econômicas mais altas.
3.7 RECURSOS CONTINENTAIS: LAGOS, IGARAPÉS E RIOS SÃO “ÁGUAS DE