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5.1 Actuation Components

Se a propaganda política, dentro do que se entende como tal, parece um fenômeno típico da contemporaneidade, em que, como definiu Guy Debord (2011), tudo está mercantilizado e envolto por imagens, suas raízes podem ser perseguidas até os primórdios da História, da Antiguidade à Idade Média.

A propaganda sempre permeou momentos em que houve qualquer tipo de confronto político ou ainda quando da presença de embate entre diferentes ideologias. Em última instância, quando existiu qualquer poder de toda ordem em disputa. Toma-se como característica comum e definidora da propaganda a questão da intencionalidade.

Desde que existem organizações religiosas e políticas estruturadas, identificam-se formas ainda incipientes de propaganda, com princípios e finalidades semelhantes aos que se reconhece nos modelos atuais.

A propaganda utilizada como motor para mudança de atitudes, de crenças ou de postura política é capaz de influenciar uma opinião ou alterar convicções. Líderes políticos e religiosos valeram-se, por diversas vezes, deste recurso, em diferentes momentos históricos. A propaganda é, enfim, indissociável da política e da ideologia.

Entre as muitas referências feitas por alguns autores, em épocas distintas, a palavra aparece com um sentido pejorativo, indicando a tentativa de persuasão através de uma argumentação falaciosa: sedução, influência, cooptação, convencimento, entre outros significados, não raro aparecem associados ao termo propaganda.

Segundo esse viés, entende Alejandro Quintero, a propaganda trataria de que, no final, quem receba a mensagem faça o que queremos que faça ou pense o que queremos que pense. Mais ainda, que acredite que o que pensa seja fruto de sua própria reflexão e o que faça, consequência de sua livre vontade (2009, p. 51).

Antes de identificar sua origem histórica, busca-se aqui uma conceituação para propaganda. De acordo com Quintero,

a propaganda, no campo da comunicação social, consiste num processo de disseminação de ideias através de múltiplos canais com a finalidade de promover no grupo ao qual se dirige os objetivos do emissor não necessariamente favoráveis ao receptor; implica, pois, um processo de informação e um processo de persuasão (2011, p. 18).

Na concepção de Norberto Bobbio, propaganda significa um esforço

consciente e sistemático destinado a influenciar as opiniões e ações de um certo público ou de uma sociedade total (1998, p. 1018).

Os primeiros registros do termo, derivado do latim propagare, podem ser encontrados na ação que a Igreja empreendeu para implementar a Contra- Reforma. Quintero descreve que sua aparição está registrada na Sacra Congregatio de Propaganda Fide ou Sacra Congregatio Christiano Nomini Propaganda, formalizada pela bula papal Inscrutabili Divine, lançada em 1622, pelo papa Gregório XV.

2.1 – A propagação da fé

O colegiado religioso, no entanto, já atuava desde 1572, quando o papa Gregório XIII, reunido com mais três cardeais, formou a primeira congregação (congregatio, no latim) para determinar ações de enfrentamento contra a Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero, em 1517.

Sob o pontificado de Clemente VIII (1592-1605), a comissão tornou-se orgão permanente. Em 1622, o grupo era composto por treze cardeais, três prelados e um secretário. Posteriormente, o papa Urbano VIII acrescentou um colégio e um seminário de missionários em sua formação. A finalidade inicial de atuar na luta da Contra-Reforma ampliou-se.

A Congregação para Propagação da Fé converteu-se, essencialmente, num instrumento para expandir o catolicismo em territórios missionários. Enfim, para divulgar – ou propagar – os princípios da Igreja, evangelizando povos nas Américas, África e Ásia.

Para Jean Domenach (1955), o termo propaganda vai conservar sua ressonância religiosa, que só será perdida em definitivo no século XX. Ele estabelece também as diferenças entre propaganda e publicidade:

A publicidade suscita necessidades ou preferências visando determinado produto em particular, enquanto a propaganda sugere ou impõe crenças e reflexos que, amiúde, modificam o comportamento, o psiquismo e mesmo as convicções religiosas ou filosóficas. Por conseguinte, a propaganda influencia a atitude fundamental do ser humano (1955, p. 12).

Pioneira, ou talvez mais determinada, na utilização dos recursos de propaganda, a Igreja Católica, na Idade Média, inaugura a separação entre a esfera pública e a privada. Jürgen Habermas entende que, até então, esta divisão não pode ser comprovada sociologicamente durante a sociedade feudal. Só os religiosos é que têm, além das ocasiões civis, um local para sua

representação: a Igreja. No ritual religioso, na liturgia, na missa, na procissão, sobrevive ainda hoje a representatividade pública (2003, p. 21).

Uma associação estreita entre o que se conhece como propaganda e a necessidade inerente ao homem de divulgar e anunciar todos os seus feitos é identificada por Neusa Demartini Gomes (2010), que também aponta a dificuldade de estabelecer o registro definitivo de um princípio para o fenômeno da propaganda política.

2.2 – César e a auto-propaganda

Toma-se, assim, como marco inicial, os exemplos mencionados, a partir das iniciativas da Igreja Católica. Observa-se, porém, que, desde a Antiguidade, com os sumérios ou os egípcios, existia a intenção de registrar, para aquele momento ou para o futuro, suas façanhas, em ladrilhos, pinturas e nas suas próprias edificações.

A propaganda, desde sempre, ajuda a construir imagens e enaltecer lideranças. É consenso entre pesquisadores que o líder romano Caio Júlio César (100-44 a.C.), além de excelente estrategista político e militar, foi também um gênio da propaganda política.

As vitórias em diversos conflitos existiram realmente, mas César fazia seus triunfos serem divulgados através da palavra escrita. Seus Comentarii

rerum gestarum (Guerra das Gálias e Guerra Civil) eram conhecidos e difundidos em Roma em fascículos, antes da sua publicação (QUINTERO,

2011, p. 44). Destes, o mais importante é a chamada De Bello Gallico, em que, abertamente, César faz a apologia de si mesmo ao descrever as dificuldades para conquistar a Gália, que englobava o atual território da França, e derrotar o líder gaulês Vercingetórix:

O livro VII do De Bello Gallico trata do momento crucial da guerra: é o embate entre os dois grandes comandantes. O interessante é que não há, de forma clara, uma distinção específica entre bem e mal: ainda que haja grande intenção em apenas valorizar os feitos de César ao máximo, há também considerável respeito pelo gaulês (OLIVEIRA, 2008, p. 10).

Junto a narrativas como estas, feitas em tom quase objetivo, usando a terceira pessoa, César também se serviu de outros recursos para propaganda de seus feitos e de sua imagem, como a oratória, a cunhagem de moedas com

sua efígie e a utilização da própria imprensa, com uma equipe de redatores a seu serviço, relatando suas ações nas Acta Diurna3 e nas Acta Senatus4.

O avanço da propaganda política ocorre na medida em que a vida em sociedade também se desenvolve. Domenach (p.14) aponta dois contextos que caracterizam a evolução da humanidade no século XIX. De um lado, a formação de nações de estrutura e espírito cada vez mais unificados. De outro, o crescimento demográfico intenso e a povoação de locais ainda não tão habitados, com a migração do campo para as cidades.

A população do mundo dobrou, entre 1800 e 1900; a da Europa aumentou 165%, entre 1800 e 1932 (DOMENACH, 1955, p. 15). As pessoas começam a ter direitos e obrigações de cidadão. São convocados a votar e também a participar de conflitos.

Ainda no período da Revolução Francesa, surgira um formato mais aproximado do que seria a propaganda, tal como utilizada numa campanha política da atualidade. Não se trata apenas de uma atividade circunstancial ou passageira, mas de uma representação legítima de um processo político em movimento, com a valorização de ideias e figuras políticas. Essa manifestação, ainda incipiente, está também conectada com o aparecimento das grandes ideologias políticas, como o jacobinismo e, sobretudo, o marxismo.

2.3 – A propaganda marxista e leninista

Nas primeiras décadas do século XIX, a Europa assiste à consolidação do movimento operário. Junto a esse acontecimento, evolui também a propaganda operária, um embrião da propaganda socialista, que viria em seguida. O fenômeno é registrado ainda de forma desigual entre os países, 3 Acta Diurna é considerado o jornal mais antigo conhecido. Surgiu em Roma, cerca de 59 A.C., por

iniciativa de Júlio César. Era escrita em grandes placas brancas e exposta em lugares públicos populares, como as termas. A finalidade era informar os cidadãos sobre os principais acontecimentos sociais e políticos (Fonte: http://www.anj.org.br/a-industria-jornalistica/historianomundo/historiadojornal.pdf)

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Acta Senatus continha as deliberações tomadas nas sessões do Senado. Também eram afixadas em locais à vista do público, em alguns pontos do Senado e da periferia de Roma. (Fonte: MARSHALL, Leandro. O Jornalismo na era da publicidade. SP: Summus, 2003, p. 65, 66)

variando segundo o avanço das sociedades capitalistas e do operariado, em cada uma delas.

Uma das primeiras situações identificadas como forma de propaganda, nesse movimento, é o chamado antimaquinismo (QUINTERO, p. 133). Não se configura ainda como uma ação propagandística, mas já surge como reação à propaganda burguesa que exaltava, à época, a mecanização e o progresso material.

Naquele período, na França e na Inglaterra, entre 1830 e 1840, o termo

socialismo começa a ser usado, ainda com várias acepções e fruto das muitas

doutrinas de reforma social do princípio do século.

Na década de 1840, as palavras comunismo e socialismo acabaram, pelo menos em parte, por indicar variações diversas do movimento que denunciava as condições dos operários no desenvolvimento da sociedade industrial, se opunha ao liberalismo político e econômico e ao individualismo, apresentava um projeto de uma reconstrução da sociedade em bases comunitárias e promovia formas associativas de vário gênero (sindicais, políticas, experiências cooperativistas e comunitárias) para realizar as novas idéias (BOBBIO, 1998, p. 1197).

Entre alguns doutrinadores que foram avançando na discussão destas questões, pode-se destacar Claude-Henri de Rouvry, Conde de Saint-Simon, um dos fundadores do Socialismo Moderno. Chamado profeta do progresso

contínuo da ciência (QUINTERO, p.134), Saint-Simon deu origem a correntes

de opinão de grande influência na França. Seus partidários, organizados em sociedades secretas, fizeram uso da propaganda, em discursos, pregações, órgãos de imprensa e cartazes.

Outro nome relevante foi Pierre Joseph Proudhon, autor da Filosofia da

miséria, e criador de um dos mais célebres e perenes lemas do movimento

operário. Seu A propriedade é um roubo, extraído de O que é a propriedade?

Pesquisa sobre o princípio do Direito e do governo, ainda hoje é citado,

imaginário popular. Mas o socialismo, até então, apesar de discutido por diversos pensadores, conservava, sobretudo, uma dimensão de linha filosófica, um ideal moral.

É com Karl Marx e Friederich Engels que a doutrina passa por grande transformação, no que eles classificariam de transição do socialismo utópico para o socialismo científico. Ou seja, o entendimento era o de que as transformações sociais não se operam apenas pela luta dos homens na tentativa de justiça social, mas são inevitáveis e fruto de um processo da própria História.

A propaganda marxista, sob essa premissa, tem um caráter diferente do que tinha aquela difundida pelos reformadores históricos anteriores. Estes apelavam a um sentimento de revolta contra a situação injusta criada pelo regime capitalista de então. Ainda que não deixasse de lado o chamado à emoção, a propaganda marxista visava o caráter mais racional, sinalizando para o inevitável desenrolar histórico que viria a substituir o capitalismo por uma sociedade socialista.

Reconhecido por seu preparo acadêmico e pela obra que produziu, Karl Marx é apontado como figura determinante na evolução da propaganda política. Sua origem de jornalista o fez reconhecer, desde cedo, a importância da comunicação e da divulgação das ideias. Essa preocupação aparece desde a escolha dos títulos de suas obras5 até sua participação em ligas secretas e grupos que desenvolviam um trabalho contumaz de propaganda das ideias socialistas.

Bobbio ressalta que, na ideologia e na práxis comunistas, a distinção entre agitação e propaganda é utilizada com frequência: Aquela é feita

sobretudo oralmente e visa a inculcar uma só ideia ou poucas ideias num grande número de pessoas; esta teria, ao contrário, como objetivo difundir muitas ideias num auditório restrito (2010, p. 1018).

5 Em 1847, lançou, em francês, A miséria da Filosofia, respondendo e polemizando com A filosofia da

miséria, escrita por Proudhon.

A obra de Marx ficou marcada pelo vigor ideológico, mas sempre com um componente polêmico e de oportunidade, e com a intenção de ser compreendida pelo maior número de pessoas. Seu texto mais importante tem este caráter: O Manifesto do Partido Comunista, escrito com Engels e lançado em 1848, define as bases da teoria materialista da História.

Dali surge também outro slogan que ainda vigora e que se consagrou como um chamamento de todo o movimento operário: Proletários do mundo

todo, uni-vos. Nada tendes a perder senão os vossos grilhões. Ao contrário da

máxima conformista enunciada por Proudhon, o lema originado do Manifesto era – e continua sendo – um apelo à ação.

Em 1867, é publicado o primeiro volume de O capital, uma de suas obras mais conhecidas. Para promovê-la junto ao público, Marx e Engels organizaram uma campanha de divulgação na Inglaterra, embora a imprensa britânica tenha praticamente ignorado a publicação. Os volumes seguintes seriam lançados em 1872, ainda corrigidos por Marx, e depois em 1883 e 1890. Estes foram organizados por Engels, após a morte do companheiro.

Para Quintero, poucas obras com esse rigor científico tiveram a transcendência propagandistíca de O capital. Foi posteriormente editado em capítulos, versões compactas e fascículos, sempre com o intuito de chegar a um número mais amplo de leitores e, assim, expandir o conhecimento em torno da doutrina marxista. Era a propaganda intrinsecamente conectada aos movimentos de revolução e de transformação.

2.4 – Palavras de ordem

Domenach atribui o poder de difusão do marxismo também ao fato de a doutrina repousar em uma dialética que pode ser reduzida à sua extrema

simplicidade, sem deformar-se substancialmente (1955, p.30). Por conta disso,

ainda segundo Domenach, o marxismo não teria sido tão amplo se Lenin não o

tivesse transformado em um método de ação política prática.

Vladimir Ilitch Lenin ou Lenine (1870 – 1924) foi chefe do Estado russo, e um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917. Comandou o Partido Comunista, e foi o primeiro presidente do Conselho dos Comissários do Povo da União Soviética. Segundo a concepção leninista, a luta de classes deve ser conduzida como uma guerra.

A propaganda assume, nessa visão, o caráter de um instrumento militar. A luta de classes, sendo uma situação permanente, aponta para o fato de que a atividade propagandística também o deva ser, com um viés de formação do proletariado.

Para Lenin, não é nos livros que o operário poderá haurir essa clara representação; não a encontrará senão nas exposições vivas, nas revelações ainda quentes acerca do que ocorre em torno, em dado momento, de que a gente fala ou e que se manifesta por este ou aquele fatot, por tais e tais algarismos, vereditos e outros. Estas revelações políticas, que abragem todos os domínios, constituem a condição necessária e fundamental para a formação das massas tendo em mira sua atividade revolucionária (DOMENACH, 1955, p. 28 e 29).

Semelhante ao entendimento que existe ainda hoje por parte de alguns governos, a propaganda não se esgotaria quando da chegada ao poder de uma corrente política. Ao contrário, a partir disso, ela deveria ser intensificada. Esse reforço, defendia Lenin, devia-se ao fato de que a construção do socialismo era outra fase da luta de classes. E era preciso estar sempre atento à contrapropaganda do inimigo.

Quintero (2011, p. 237) identifica três grandes pilares da propaganda leninista: a denúncia ou revelação política; a palavra de ordem, e a participação

na ação ou praxis. Por trás da atividade propagandística, o que estava posto

em jogo era a necessidade de desmascarar os sofismas com que as classes dominantes ocultariam seus reais interesses.

Emblemática da propaganda leninista, a palavra de ordem é um recurso que ainda mantém sua validade segundo a necessidade de sua utilização. Domenach define a palavra de ordem como a tradução verbal duma fase da

tática revolucionária. Conceito motriz, expressa o objetivo mais importante do momento, o quanto possível clara, breve e eufonicamente (1955, p.30). “Terra

e pão”, “Todo poder aos sovietes”, “Pão, paz e liberdade”, “Por um governo de ampla união democrática” são algumas das palavras de ordem usadas pela propaganda leninista para mobilizar as pessoas. Transposto para uma realidade atual e brasileira, o mote Não são só 20 centavos, que simbolizou as manifestações de junho de 2013 no país, também pode ser classificado como uma palavra de ordem.

2.5 – Propaganda em tempos de guerra

É no primeiro conflito mundial (1914-1918) que os líderes aliados percebem a força da propaganda como apoio moral à atuação militar de quem estava no front. A partir disso, começam a ser criadas as primeiras unidades de estudo da propaganda e da contrapropaganda.

Ainda que antes não houvesse rigor científico na abordagem das formas de realização e de seus efeitos, não significa que até então a propaganda, suas mensagens e técnicas, fossem desenvolvidas de forma apenas intuitiva ou empírica:

Assim, nasceu, nos Estados Unidos, em 1917, o Comitê de Informação Pública e, na Grã-Bretanha, em 1918, o Departamento de Propaganda Inimiga. Porém, vai ser na Segunda Guerra Mundial, com a guerra psicológica entre os países aliados e os que formaram o eixo, que a propaganda adquiriu um caráter científico enormemente eficaz (GOMES, 2010, p. 111).

Em 1927, surge a que é considerada a primeira reflexão teórica sobre o tema. A obra de Harold Lasswell Propaganda technique in the World War apontava a propaganda como sendo um dos instrumentos mais poderosos do mundo moderno. Simultânea aos estudos sobre propaganda, ampliava-se, à

época, a pesquisa sobre a opinião pública e sobre a influência dos meios de comunicação na sociedade.

Vão aparecer, também, os primeiros estudos de psicologia social e sobre a persuasão, como modificadora de atitudes (QUINTERO, 2011). No período da Segunda Guerra, portanto, já havia um referencial teórico, e a propaganda passa a ser vista sob a perspectiva de um recurso importante e poderoso, durante o conflito.

A menção ao termo propaganda, em tempos de guerra, conduz diretamente à memória de Adolf Hitler e do movimento nazista. A célebre máxima Uma mentira repetida cem vezes torna-se verdade, que teria sido cunhada por Joseph Goebbels, Ministro de Hitler, indica a relevância que aquele regime deu a todas as formas de persuasão da opinião pública da época. Para Goebbels, a Igreja Católica se mantivera através dos séculos justamente por reforçar as mesmas ideias ao longo de dois mil anos.

Na contemporaneidade, esse fundamento da repetição permanece como um dos recursos centrais da propaganda política: é preciso que a mensagem

propagandística seja reiterada até a exaustão, porém, não de maneira monótona, mas orquestrada, isto é, adotando formas diferentes e chegando a receptores através de vários canais. (QUINTERO, 2001, p. 26). Profissionais

que lidam com propaganda política continuam defendendo que é necessário repetir conceitos e/ou ideias como forma de introjeção e assimilação da mensagem que se pretende transmitir.

2.6 – O Nazismo e a propaganda de cooptação

A base sobre o qual se forma – ou se consolida – o nazismo remonta ao fim da Primeira Guerra Mundial. Uma severa crise atinge a Alemanha, a partir de 1918, de cunho não apenas econômico, ressalta Bobbio (1998), mas, sobretudo, moral. A origem do descontentamento é a não-aceitação da derrota no conflito. Parte da população, que acreditava na supremacia militar do país,

busca entender as razões do fracasso da Alemanha na Primeira Grande Guerra.

Subjacente a esse sentimento, ou aproveitando-se do descontentamento popular, circulava uma versão sugerindo que a derrota era menos responsabilidade do exército nacional, e mais fruto de obscuras conjuras

internas e internacionais: as latentes tradições anti-semitas do povo alemão refloresceram para acreditar na idéia de que foi o capitalismo internacional hebreu o verdadeiro artífice da derrota (BOBBIO, 1998, p.43).

Este contexto foi oportuno ao Partido Nacional-Socialista, recém-criado e dirigido por Hitler, desde 1921. Seu crescimento deu-se atrelado à exploração de um ainda tênue movimento anti-semita, junto ao anti-comunismo e a um nacionalismo levado ao extremo. Hábil para encaminhar esse sentimento, o então líder partidário configura seus discursos tentando alcançar segmentos diversos da população:

Muitos ainda julgam que a ideologia nazista girou em torno do anti-semitismo por acaso, e que desse acaso nasceu a política que inflexivelmente visou a perseguir e, finalmente, exterminar os judeus. (...) O que os nazistas apresentaram como