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3 Literature review

3.2 Activity-based view

Todos os dias ao passear na praia olho da areia e vejo no mar, Alguém que sozinho lá flutuando um ser pequenino parece esperar, E na hora certa, eleva-se nas águas e fica a bailar,

Bailar sobre as ondas, ligeiras, fogosas, Correndo nas vagas, como a galopar, De dentro de um tubo espumante e bravio,

Levanta os braços dobra os joelhos, a se equilibrar. E sai vitorioso na crista da onda,

Voando e curtindo o sabor de surfar

Desafiando qualquer teoria que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, Pois naquele momento é o sal, é a água e a espuma branquinha

Até as areias da praia encontrar

E afunda na renda que a mistura formou Bordada de prata que se dissipou. E se ergue de novo, persiste a vontade,

Abraça sua prancha, braçadas ao largo de volta ao mar! Pegar nova onda, e se deleitar...

Mistura perfeita! Esse é o nome da poesia de Aurora Pacheco que tenta traduzir os significados do surfe para os jovens praticantes, do esporte- jogo e do espaço litorâneo. O surfe é deleite, é prazer, criação, dança, arte de desenhar sobre as superfícies; fluidez, leveza, rapidez, exatidão, visibilidade,

multiplicidade, mistura perfeita entre homem e natureza, arte do corpo na

O objetivo a que me propus nesse estudo foi o de perceber, compreender e explicar as múltiplas formas de apropriações e (re)significações atribuídas ao surfe por jovens que fazem desse esporte-jogo seu estilo de vida, seu modo de ser, viver e habitar o espaço urbano. As trajetórias dos jovens estudados mostram que eles se reconstroem em todo momento. A partir das experiências com o corpo e espaço litorâneo os surfistas reelaboram suas performances, práticas, valores, normas, visões de mundo, estabelecem múltiplas relações entre o estilo-surfe e seu mundo social.

Os jovens surfistas demonstraram que no seu cotidiano se relacionam com as tensões e os conflitos provocados pelos parâmetros “estruturantes” e “tradicionalmente” aceitos pela sociedade em referência as novas dinâmicas sociais que ensejam, acima de tudo, a busca pela realização pessoal. Nessa perspectiva, são inúmeras as motivações e significações atribuídas às novas práticas esportivas como o surfe: modo pelo qual os jovens passam a evidenciar suas culturas específicas, estilos de vida e sociabilidades.

O surfe como “estilo de vida” é um meio de afirmação e diferenciação na sociedade. A questão do surfista atualmente reside no confronto entre uma

realidade social existencialmente conformista e a necessidade de afirmação de um “projeto de vida” potencialmente inconformista (Neto, 2006): a superação

dos limites. A meu ver, os esportes-jogo constroem espaços singulares em que os jovens se identificam e exercitam suas motivações.

O referente da “radicalidade” atribuído a algumas expressões contemporâneas das culturas urbanas juvenis como o surfe, tem implícito a idéia de um comportamento orientado pela questão da exposição, exacerbação, experimentação e/ou superação das normatividades, limites ou convenções de ordem variada, implicando sempre em determinado tipo e grau de risco. Questão que remete à padronização crescente dos estilos de vida (familiar, escolar e social), das atitudes e comportamentos na sociedade contemporânea; conduzindo os jovens a procurarem sensações novas ou diferentes, mais centradas nos limites da exploração do seu próprio corpo em confronto com o espaço ocupado. É também, um fenômeno que se relaciona

com a própria condição juvenil, isto é, a procura de excitação, de prazer e de risco corporal, de mudança, efemeridade.

Desse modo, emergem novos modelos de corporeidade atravessados por uma idéia desnaturalizada do corpo, já não como realidade pré-definida, fixa e sagrada, mas como entidade volátil, fluída, inacabada, processual e suscetível de ser explorada sob diferentes modalidades, com sentidos, usos e efeitos sociais diferentes. Trata-se, portanto, de procurar uma vivência na

incerteza ou o investimento no incerto para uma vivência nova (Neto, 2006).

A vida dos surfistas é pautada a partir desse ponto de vista, no confronto com o desconhecido, e ao mesmo tempo, conforto e segurança oportunizados pela convivência com os amigos, pela descoberta de seus próprios limites e potencialidades. O estilo-surfe é construído pelo entrecruzamento dos vetores: lazer, consumo, estética e trabalho, sobretudo, espaço de sociabilidade, de comunicação, de exposição e “convivêncialidade”.

A construção dos picos no espaço urbano também caminha nesse sentido, lugar de conhecimento, reconhecimento e diferenciações. Espaço de descoberta de si, revelado a partir da identificação construída em relação ao estilo-surfe e o espaço litorâneo. O desenvolvimento das sociabilidades nos grupos de amigos, as relações de solidariedade edificadas no “mundo do surfe” valorizam, sobremaneira, o encontro, a troca, o convívio, a manifestação de projetos coletivos e de individuais. Assim, o surfe implica numa “filosofia própria”, em que guiado pela “adrenalina”, o ethos-surfe torna-se um modo singular de vivência, de apropriação e de ocupação dos espaços urbanos.

O estilo-surfe é para os jovens, propulsor e hospedeiro da esperança, de sonhos e desejos de uma vida melhor (Dayrell, 2005). Não somente quando o surfe se concretiza em projeto de vida, como no surfe-arte: possibilidade de realização pessoal e profissional. Mas também para aqueles que procuram por meio do surfe “carregar suas energias” para enfrentar a “batalha” da vida cotidiana. O surfe-lazer é surfe-terapia, busca de melhoria na qualidade de vida de todos aqueles que procuram vivenciar intensamente alguns “pedaços” da cidade e de “fora dela”.

Os jovens que estão na cidade revelam a realidade perversa em que vivem atualmente. Trazem a tona questões fundamentais vivenciadas pelas juventudes brasileiras: fragilidade no acesso à saúde, educação, trabalho, cultura, lazer, dentre outras fissuras da sociedade contemporânea. Se o objetivo for contribuir para a formação humana desses jovens no sentido de potencializar suas experiências de vida, um primeiro desafio é encará-los como sujeitos que interpretam seu mundo, fazem escolhas e dão sentidos as suas ações (Dayrell, 2005). Com seus limites e usos diferenciados, o estilo-surfe é para esses jovens, oportunidade de exercer suas preferências, as experimentações, o lazer, à diversão, profissão, negócio, enfim, a viver de um modo digno a sua juventude nos espaços urbanos.

Quando decidi “dropar” nas ondas do “mundo do surfe” decidi que ia fazer, porém intensamente. Busquei entender os signos e significados do

estilo-surfe para alguns jovens da cidade. Movimento em que fui guiada aos

territórios-picos do Icaraí e da Leste-Oeste, onde percebi uma pluralidade de códigos, símbolos e hierarquias que delineiam as lógicas, as dinâmicas, as diferenciações ocorridas no “mundo do surfe”, e especificamente, nos territórios-pico. Propus-me realizar o trabalho a partir de um trajeto nômade e plural, tal como a sensibilidade que os surfistas precisam ter quando pegam à linha da onda. Nesse sentido, busquei entender como e a partir de quê se realizam a multiplicidade das lógicas, a diversidade dos usos e apropriações que os diferentes sujeitos fazem do surfe e do seu espaço.

Muitos jovens do Icaraí-crowd tem na praia o seu momento-lazer, prazer, realização, jogo praticado entre corpo e espaço. Corpo a bailar nas superfícies do mar e na fluidez da linha da onda encontra o seu caminho. Regogiza-se o espírito, a “vibe-surfe” se conecta, adrenalina e endorfina: o corpo se deleita. O surfe-lazer é a finita e agradável tensão-excitação do momento. É fazer da incerteza a segurança do presente, válvula que assegura e esvaziamento de todas as “paranóias” do cotidiano urbano.

Já para grande parte dos surfistas da Leste, a praia é seu escritório. Lugar do treino e do aprendizado, possibilidade primeira de realização de um sonho: ter uma profissão, melhorar de vida, ajudar a família e ser um grande atleta profissional, são desejos comuns entre os jovens. O surfe-arte além de ser uma forma singular de uma “estética da existência”, é antes de tudo, alternativa de vida e de trabalho realizada de modo respeitoso e digno. Por meio do esforço, do investimento e da dedicação, o jovem ao dropar e “se jogar” nas ondas do surfe, ensinam motivados como viver “com emoção” sua juventude nas periferias.

Nesses tempos, de controle contínuo, de esvaziamento constante das possibilidades, de vazios construídos na relação dos jovens com a participação nos espaços públicos, de práticas com sentidos políticos ausentes, percebi que o surfe representa vetores de possibilidades para os jovens que residem na cidade. Tática de ocupação, de trânsito e de exercício do espaço urbano, sobretudo, motivação para “escapar”, desviar do controle. A partir do conhecimento e do reconhecimento do corpo, limites são vencidos, o corpo e o espaço são reinventados.

Por meio das performances realizadas, os jovens surfistas inscrevem no espaço litorâneo um jogo de indisciplinas, práticas de controle no descontrole, ações de descontrole do controle. Os surfistas ocupam intensamente a cidade, nomadizam não só o espaço, mas também a sua vida. Diferente de outros, que conforme Deleuze (1992, p. 226),

pedem estranhamente para serem “motivados”, e solicitam novos estágios e formação permanente; cabe a eles descobrir a que estão levados a servir, assim como seus antecessores descobriram, não sem dor, a finalidade das disciplinas. Os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira (Deleuze, 1992, p.226).