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Activities within Arctic military security after Russia’s invasion of Ukraine

3.3 Military security

3.3.3 Activities within Arctic military security after Russia’s invasion of Ukraine

O fato de uma relação social entre os homens assumir a “[...] forma fantasmagórica de uma relação entre coisas” (MARX, 2013c, p. 147) nos remete à problemática da alienação e do estranhamento. Netto (1981) sustenta que “sem uma teoria da alienação é impossível pensar a problemática do fetichismo. Para Marx, o fetichismo é uma modalidade de alienação” (p. 73, destaque no original). A forma-mercadoria, ao refletir os caracteres sociais de uma forma de trabalho especificamente social como características de uma coisa, ao reificar as relações sociais, expressa o fato dessas relações ocorrem “[...] à margem dos produtores” (MARX, 2013c, p. 147). Antes de chegar na problemática do fetichismo, a qual toma forma mais definida a partir de 1857-58, o estranhamento das relações sociais, essa autonomização das forças sociais frente aos indivíduos, comparece na obra marxiana a partir do momento em que ele faz a crítica ontológica da inversão especulativa hegeliana, que apreendia família e sociedade civil como resultado da divisão do Estado, sendo o seu organismo, o ente propriamente político, o predicado do desenvolvimento da Ideia dentro de si mesma23. Marx, em 1843, critica esse “misticismo lógico, panteísta” ao constatar que “família e sociedade civil são os pressupostos do Estado; elas são os elementos propriamente ativos; mas, na especulação, isso se inverte” (MARX, 2010b, p. 30). Na especulação, “[...] a Ideia é feita sujeito, as distinções e sua realidade são postas como seu desenvolvimento, como seu resultado, enquanto, pelo contrário, a Ideia deve ser desenvolvida a partir das distinções reais” (p. 33). É necessário que se explique as ideias a partir de suas determinações reais. Na especulação,

O único interesse é, pura e simplesmente, reencontrar “a Ideia”, a “Ideia lógica” em cada elemento, seja o do Estado, seja o da natureza, e os sujeitos reais, como aqui a “constituição política”, convertem-se em seus simples nomes, de modo que há apenas a aparência de um conhecimento real, pois esses sujeitos reais permanecem

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“O importante é que Hegel, por toda parte, faz da Ideia o sujeito e do sujeito propriamente dito, assim como da “disposição política”, faz o predicado” (MARX, 2010b, p. 32).

incompreendidos, visto que não são determinações apreendidas em sua essência específica (MARX, 2010b, p. 34).

Marx pugna pelo procedimento inverso da especulação, para ele, é necessário que se parta da relação real, não da ideia abstrata, não se trata de encontrar a ideia na realidade, mas da realidade, com o desvelamento de sua essência, explicar as ideias, é necessário explicar a differentia specifica. É apenas partindo das relações reais, da materialidade, da efetividade que se pode esclarecer as diferenças específicas, o caráter concreto do real. E qual a necessidade dessa tarefa? Marx esclarece na Introdução de 1843, ao salientar a importância e o limite da crítica religiosa. Se esta pôde demonstrar que o “[...] o homem faz a religião, a religião não faz o homem” e que “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real” (2010b, p. 145), ela ainda não é suficiente. A crítica religiosa desengana o homem, mas não retira o fundamento material da necessidade religiosa, que é a autoalienação prática, real dos sujeitos.

Portanto, a tarefa da história, depois de desaparecido o além da verdade, é estabelecer a verdade do aquém. A tarefa imediata da filosofia, que está a serviço da história, é, depois de desmascarada a forma sagrada da autoalienação [Selbstentfremdung] humana, desmascarar a autoalienação nas suas formas não sagradas. A crítica do céu transforma-se, assim, na crítica da terra, a crítica da religião, na crítica do direito, a crítica da teologia, na crítica da política (MARX, 2010b, p. 146).

A autoalienação humana é resultado da própria atividade humana, a crítica religiosa consegue apontar para isso, mas não explica. Retirar as flores dos grilhões não os eliminam, exigir que os homens “[...] abandonem as ilusões acerca de uma condição é a exigência de que abandonem uma condição que necessita de ilusões” (p. 145-146). A alienação, portanto, já comparece como condição a ser desvelada a partir da essência específica das relações sociais, a crítica do aquém da verdade é o caminho a ser procedido. No Prefácio à Contribuição à crítica da economia política, de 1859, Marx esclarece essa sua conclusão.

Minha investigação desembocou no seguinte resultado: relações jurídicas, tais como formas de Estado, não podem ser compreendidas nem a partir de si mesmas, nem a partir do assim chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas, pelo contrário, elas se enraízam nas relações materiais de vida, cuja totalidade foi resumida por Hegel sob o nome de “sociedade civil” (bürgerliche Gesellschaft), seguindo os ingleses e franceses do seculo XVIII, mas que a anatomia da sociedade burguesa deve ser procurada na Economia Política (MARX, 1982a, p. 25).

A tarefa de desmascarar a autoalineação nas suas formas não sagradas foi ser empreendida a partir da crítica da economia política, que era a ciência que desenvolvia a

análise das categorias econômicas. De acordo com Netto (1981), os Manuscritos de 1844 assinalam “[...] o primeiro confronto de Marx com a economia política” (p. 54). Nesse conjunto de rascunhos publicados postumamente, Marx procede a uma crítica filosófica imanente às categorias econômicas da economia política. Apesar dos limites dessa primeira crítica e confronto com a economia política, ao analisar a questão da alienação (Entäusserung) e do estranhamento (Entfremdung) do trabalho na sociedade burguesa, a problemática do fetichismo já apresenta alguns de seus traços. A problemática da alienação e do estranhamento no mundo do trabalho se liga diretamente à reificação.

De acordo com Costa (2005), alienação e estranhamento são categorias complementares nos Manuscritos de 1844, sendo o estranhamento consequência necessária da alienação do trabalho.

A Entfremdung, ou estranhamento, seria a realização da Entäusserung, alienação Em outras palavras, a alienação enquanto separação do homem de seu produto, sua atividade, do gênero e dos demais homens acaba por gerar a Entfremdung - o estranhamento - do homem em relação ao produto, atividade, gênero e dos homens entre si (p. 4).

A separação colocada pela mediação da propriedade entre a atividade produtora e o seu produto, entre sujeito e objeto, “[...] acaba por forjar o antagonismo entre homem e produto, invertendo a relação de tal forma que o produto e a atividade tornam-se poderosos e estranhos frente aos indivíduos” (p. 4-5). O processo se torna crítico na sociedade burguesa, dado que nessa sociedade, a produção é direcionada à venda, à troca de mercadorias. Segundo Marx (2004), na sociedade burguesa, “o trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral” (p. 80). Apesar da importante ausência da descoberta da categoria força de trabalho, fundamental para compreensão da exploração especificamente capitalista, Marx já é capaz de perceber importantes traços do processo de reificação característico da forma de alienação especificamente burguesa. Nessa sociedade, “com a valorização do mundo das coisas (Sachenwelt) aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens (Menschenwelt)” (ibidem). Tal dominação do mundo das coisas sobre o mundo dos homens é resultado decorre do caráter estranhado do trabalho. Na produção de mercadorias, “o objeto (Gegenstand) que o trabalho produz, o seu produto, se lhe defronta como um ser estranho, como um poder independente do produtor” (ibidem). Dada a divisão social do trabalho determinada pela propriedade privada, é o trabalhador, despojado das condições de efetivação

quem sofre as consequências mais deletérias dessa forma social específica de trabalho, manifesta já diretamente no estranhamento do próprio resultado do seu trabalho.

A apropriação do objeto tanto aparece como estranhamento (Entfremdung) que, quanto mais objetos o trabalhador produz, tanto menos pode possuir e tanto mais fica sob o domínio do seu produto, do capital. Na determinação de que o trabalhador se relaciona com o produto de seu trabalho como [com] um objeto estranho estão todas estas consequências. Com efeito, segundo este pressuposto está claro: quanto mais o trabalhador se desgasta trabalhando (ausarbeitet), tanto mais poderoso se torna o mundo objetivo, alheio (fremd) que ele cria diante de si, tanto mais pobre se torna ele mesmo, seu mundo interior, [e] tanto menos [o trabalhador] pertence a si próprio. E do mesmo modo na religião. Quanto mais o homem põe em Deus, tanto menos ele retém em si mesmo. O trabalhador encerra a sua vida no objeto; mas agora ela não pertence mais a ele, mas sim ao objeto (MARX, 2004, p. 81).

O estranhamento é determinado não apenas pela expropriação determinada pela usurpação do produto do trabalho pela personificação do capitalista, mas o próprio trabalho que produz mercadorias tem por efeito aumentar o domínio das coisas sobre os homens. A alienação do trabalho que se efetiva nessa específica forma de exteriorização da atividade humana é desefetivação da essência do trabalhador, empobrecimento objetivo da subjetivade do sujeito que trabalha. O caráter puramente social dessa forma de trabalho, o fato de que ele resulta não de determinações naturais, já é salientado por Marx nos Manuscritos de 1844.

Quanto mais, portanto, o trabalhador se apropria do mundo externo, da natureza sensível, por meio do seu trabalho, tanto mais ele se priva dos meios de vida segundo um duplo sentido: primeiro, que sempre mais o mundo exterior sensível deixa de ser um objeto pertencente ao seu trabalho, um meio de vida do seu trabalho; segundo, que [0 mundo exterior sensível] cessa, cada vez mais, de ser meio de vida no sentido imediato, meio para a subsistência física do trabalhador. Segundo este duplo sentido, o trabalhador se torna, portanto, um servo do seu objeto (MARX, 2004, p. 81).

O duplo sentido aqui é diferente do duplo caráter do trabalho que produz mercadorias, trabalho útil e trabalho abstrato, apesar dos traços fundamentais dessa distinção estarem postos nessa análise do estranhamento. Se trata aqui do processo pelo qual o metabolismo entre homem e natureza se torna cada vez mais social, ou seja, menos determinado relativamente pelas determinações físicas da natureza do que pelas características das relações sociais estabelecidas entre os homens. Como o trabalho social é alienado e o seu resultado é estranhado, o mundo exterior sensível, cada vez mais social, se torna cada vez mais estranho, cada vez mais hostil ao trabalhador. Como são os trabalhadores que, a partir desse mundo sensível, na sociedade burguesa, produzem a riqueza social na forma de capital, esse mundo, cada vez mais capitalista, se torna cada vez poderoso frente ao trabalhador, ele se torna cada

vez mais servo do seu objeto. “O auge desta servidão é que somente como trabalhador ele [pode] se manter como sujeito físico e apenas como sujeito físico ele é trabalhador” (MARX, 2004, p. 82). Essa degradação do indivíduo a mero trabalhador, característica do estranhamento resultante da forma social específica do trabalho modo de produção capitalista, como veremos a frente, também estará presente nos Grundrisse, conjunto de textos de 1857- 1858, quando a problemática do fetichismo já está muito mais esclarecida.

Essa degradação do sujeito físico a mero trabalhador se deve também ao fato de que o estranhamento não se limita à relação do trabalhador com os produtos do seu trabalho, “[...] não se mostra somente no resultado, mas também, e principalmente, no ato da produção, dentro da própria atividade produtiva” (MARX, 2004, p. 82). O trabalhador estranha a si mesmo no ato de produção, no próprio processo produtivo. “O produto é, sim, somente o resumo (Resumé) da atividade, da produção” (ibidem). O trabalhador “[...] não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física e espiritual livre, mas mortifica sua physis e arruína o seu espírito” (p. 82-83). Essa crítica de forte tom humanista à ausência de sentido do trabalho para o sujeito que trabalha na produção de mercadorias já sinaliza a contradição fundamental entre riqueza material e riqueza social na forma-valor. A reificação das relações sociais no capitalismo decorre do caráter estranhado dos produtores já no processo de produção. O estranhamento do trabalhador e sua produção tem como consequência o estranhamento do ser genérico do homem, o que junto aos outros dois momentos conforma o estranhamento do homem pelo próprio homem. Embora a atividade degradante do trabalhador seja fruição e fonte de riqueza para outros homens, os capitalistas, a superação do trabalho estranhado não passa pela melhoria das condições materiais do trabalhador nessa sociedade ou na redistribuição dos produtos do trabalho estranhado como defendiam os proudhonistas, todos indivíduos estão encerrados nos limites dessa do estranhamento específico do modo de produção capitalista. A forma de dominação impessoal do valor, das coisas sobre os produtores, embora ainda não desenvolvida como será exposta a partir de 1857-8, já está sinalizada na crítica do estranhamento.

[...] o estranhamento aparece tanto no fato de meu meio de vida ser de um outro, no fato de aquilo que é meu desejo ser a posse inacessível de um outro, quanto no fato de que cada coisa mesma é um outro enquanto si mesma, quanto [também] no fato de que minha atividade é um outro, quanto finalmente - e isto vale também para os capitalistas - no fato de que, em geral, o poder não humano domina (MARX, 2004, p. 146).

O poder não humano domina até mesmo os relativamente privilegiados na divisão social do trabalho capitalista. Os capitalistas estão sujeitos a todas as determinações sociais da propriedade privada, sendo personificações e suportes dessas relações sociais, eles não decidem o que produzir e no que investir livremente, dependem da correta avaliação das condições de produção e mercado para continuarem a ser capitalistas. O modo mais desenvolvido desse domínio das coisas sobre os homens é expresso na vida cotidiana pela figura do dinheiro e da concorrência. Ao comparar o papel da propriedade fundiária no capitalismo com o seu papel na sociedade feudal, Marx já constata em 1844 que:

[...] é necessário que nesta concorrência a propriedade fundiária mostre, sob a figura do capital, a sua dominação tanto sobre a classe trabalhadora, quanto sobre os próprios proprietários, na medida em que as leis do movimento do capital os arrumem ou promovam. Assim, entra no lugar do provérbio medieval: nenhuma terra sem senhor (nulle terre sans seigneur), o provérbio modemo: o dinheiro não tem dono (I' argent n' a pas de maftre), no qual é exprimida a completa dominação da matéria morta sobre o homem (MARX, 2004, p. 75, destaque nosso).

O estranhamento determina diretamente ao fetichismo e à reificação das relações sociais, sendo que “o que distingue a impostação marxiana no enfoque da alienação, em 1844, da tematização ulterior do fetichismo á a concretização histórico-social a que Marx submete o objeto da sua investigação” (NETTO, 1981, p. 61). Mas é justamente na percepção marxiana da importância fundamental do estranhamento ligado à propriedade privada e da dominação impessoal expressada no fenômeno do dinheiro e da concorrência, já estão dadas as possibilidades de superação dos limites dessa análise. A problemática do fetichismo dessas categorias, embora não descoberta em seus traços específicos, já está colocada. Por isso, tem razão Netto (1981) ao afirmar a ligação fundamental entre alienação, reificação e fetichismo. A compreensão do estranhamento, processo social objetivo, torna mais claro o caráter objetivo do fetichismo, impugnando qualquer interpretação desse mecanismo como um fenômeno da consciência.

Em 1844, Marx já percebe os limites da crítica da economia política ao tomar as categorias econômicas como dadas e não explicar porque as relações sociais tomam necessariamente aquela forma24. Na primeira obra publicada de Marx sobre economia política, em 1847, A Miséria da Filosofia, Proudhon é criticado porque

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“A economia nacional parte do fato dado e acabado da propriedade privada. Não nos explica o mesmo. Ela percebe o processo material da propriedade privada, que passa, na realidade (Wirklichkeit), por fórmulas gerais, abstratas, que passam a valer como leis para ela. Não concebe (begreift) estas leis, isto é, não mostra como tem origem na essência da propriedade privada” (MARX, 2004, p. 79).

[...] não viu que os homens, ao desenvolverem suas faculdades produtivas, isto é: vivendo, desenvolvem certas relações entre si, e que o modo destas relações muda necessariamente com a modificação e o desenvolvimento destas faculdades produtivas. Não percebeu que as categorias econômicas não são mais do que abstrações destas relações reais e que somente são verdadeiras enquanto estas relações subsistem. Incorre, por conseguinte, no erro dos economistas burgueses, que vêem nestas categorias econômicas leis eternas e não históricas, válidas exclusivamente para certo desenvolvimento histórico, desenvolvimento determinado pelas forças produtivas (MARX, 1985f, p. 210-1).

A eternização e naturalização das categorias econômicas burguesas, assim como do comportamento dos indivíduos engendrados por estas relações sociais, como ocorre com a teoria da escolha racional e do valor utilidade, decorre do procedimento que não vai além de explicar o movimento destas categorias, de compreender suas características e estabelecer seus conceitos explicativos. Ao ir além desse momento, ao identificar a problemática do estranhamento na produção e reprodução social dos homens, Marx procede de modo diferente, busca, a partir das relações sociais reais, explicar porque essas categorias sociais tomam necessariamente essa forma. A partir da percepção do estranhamento generalizado na sociedade burguesa, do vislumbre de que “[...] nesta sociedade, a autonomia dos indivíduos é puramente ilusória, eles estão subordinados a mecanismos e processos que não controlam e sequer reconhecem como oriundos das suas próprias relações” (NETTO, 1981, p. 69), está aberto o caminho para, a partir do concreto, ser desvelado o complexo social do fetichismo. No modo de produção capitalista, “[...] alienação é o processo de objetivação do trabalho abstrato. Ela não leva à exteriorização de uma essência humana preexistente, pelo contrário, leva ao surgimento dos poderes não humanos na forma alienada” (POSTONE, 2014, p. 189). Essa forma específica e historicamente determinada de alienação se enraíza não apenas na propriedade privada e na divisão social do trabalho decorrente desta, mas na própria forma social do trabalho.