Para que o professor possa ensinar e fazer com que o aluno aprenda, deve estar motivado para tal, mas o interesse do aluno também deve estar presente na aquisição de conhecimento. Um professor desmotivado não motiva o aluno a querer aprender e um aluno desmotivado não têm interesse em aprender, nem motiva seu professor a fazê-lo, ou seja, se não há conexão de saberes e interesses de ambas as partes para o ensino, não há motivação mútua.
Não deteremos aqui nenhuma teoria sobre motivação, entretanto, ao nos reportamos a motivação, não podemos negar que estudiosos, como Chiavenato (2004), Maslow (1943),
Herzberg (1959) dentre outros, tem levantados questões sobre tudo a respeito da satisfação profissional do indivíduo.
No caso dos professores, a literatura estudada e a pesquisa de campo realizada constituição da carreira docente tem trazidos inúmeros desafios para esses profissionais, a partir das novas demandas na área educacional, já que surgem novas exigências para a função de professor e na maioria das vezes sentem-se bastante desmotivado por não ter seu trabalho reconhecido.
Ao serem indagadas se sentem seu trabalho valorizado a maioria sente essa valorização por parte dos pais, alunos e colegas. Em seus depoimentos 80% das professoras afirmam que os professores são motivados, mas referem-se a ajuda mútua entre os colegas, prevalecendo o tempo de convivência que há entre elas, sendo evidente que há certa cumplicidade no cotidiano, fazendo com que essas professoras, se apoiem umas nas outras. Entretanto, uma das professoras desabafa e demonstra um sentimento de desmerecimento de seu trabalho, em relação aos pais e quando lhe é perguntado sobre a motivação dos professores.
O trecho a seguir nos faz refletir sobre o processo de motivação dos professores, ou melhor dizendo a falta desta, e de acordo com a pesquisa desenvolvida por Codo (1999) sobre as condições de trabalho e a saúde mental do trabalhador em educação destaca que em um
cenário escolar caracterizado pelo déficit de recursos de ensino, o professor apresenta um baixo envolvimento pessoal com o trabalho. Desta forma, cria-se um senso de desvalorização profissional que pode dar origem ao sentimento de exaustão emocional, gerando doenças e faltas ao trabalho.
Assim, a gente conversa muito a respeito das condições (de trabalho). Os pais querem só largar os filhos aqui, por incrível que pareça, a gente fica desmotivada, porque quando tem algum problema, alguma situação, os pais criticam a escola. Tem pais que já falaram que se a escola está assim a culpa é nossa, a gente que é culpada pela falta de estrutura, essas questões interferem, ficamos muito chateadas, desmotivada, porque quando acontecem as coisas aqui tudo é culpa nossa (Professora Amaranto, anexo 2).
Esse trecho expressa algumas das consequências do mal-estar docente, conforme Esteve (1999), que seria o desinvestimento na profissão. Esse autor afirma que essa evolução negativa do contexto não afeta igualmente a todos os professores, já que analisando dois grupos de professores, o autor elucida que enquanto um deles busca formas criativas e inovadoras de exercer seu trabalho, outros se rendem às imposições das condições degenerativas, resultando em absenteísmo ou mesmo o abandono do trabalho.
Quanto ao nível de tensão e preocupação relatados pelas professoras, 90% disseram ficar tensas e preocupadas em relação ao trabalho; o acúmulo de tarefas e o desejo de ter um bom desempenho do seu trabalho provoca nelas um estado de tensão e preocupação, apontando entre outras questões: a preocupação com o aprendizado ao aluno e o desinteresse da família, com a organização de festas, avaliações, aprovação e reprovação, cobranças dos pais, término do contrato de trabalho, relatórios individuais dos alunos.
No conflito com a família onde se observa determinado nível de tensão, pois de um lado a escola exige sua presença, de outro a família também exige do professor dedicação e afeto para com seu filho na perspectiva de Codo (2006) denomina o estabelecimento de uma nova lógica de convivência na família, através de uma divisão de tarefas, cooperação e companheirismo contribuiria para minimizar o conflito.
Os trechos abaixo expressam as circunstâncias que as professoras manifestam essas preocupações:
Eu me preocupo muito com as crianças, em relação a família. Hoje em dia o ensino não está mais como antes, a própria família não se preocupa mais, até porque também tem outro fator se a mãe não for trabalhar, como ela vai dar o suporte para a criança? Eu me preocupo porque as vezes as crianças faltam muito as aulas (Professora Amaranto, anexo 2).
Eu confesso para você que agora no final assim fica um ar tenso, porque ultimamente a gente já recebeu a informação de que nós vamos trabalhar até o final do mês de dezembro e depois todos nós vamos ser distratados. Então, você já pensou 2017 você não sabe se você volta ou não. Então, não deixa da gente ficar tenso, ficar preocupado pelo emprego.
Então é mais pela sua condição de servidor. E você como contratada há dez anos você sempre no final do ano fica nesta tensão e preocupação?
Só quando há troca de gestão. Durante a troca de gestão você sempre perpassa por isso, depois que gestão entra te contratam e você fica um pouquinho mais calmo (Professora Hortência, anexo 1).
É o relatório que a gente tem que fazer, principalmente quando a gente tem 200h. Agora também melhorou porque estamos fazendo semestral, mas antes era bimestral. Quem tem 200h se torna muito cansativo, eu acho um absurdo fazer aquele relatório semestral de cada aluno. Graças a Deus com os meus relatórios não tinha muitas reclamações, mas eu via colegas frustradas porque começavam a fazer e a coordenação não concordava. Às vezes tem diretor e coordenador que quer que a gente faça assim, mas quem conhece nossos alunos somos nós e tem relatório que elas não concordam com que a gente colocou, porque quer que a gente mascare o que o aluno não é. Então eu acho isso muito preocupante. As vezes temos que nos omitir de certas coisas, para fazer os relatórios, porque além de fazer, tem que refazer, digitar (Professora Liz, anexo 2).
Percebemos a angústia da professora em relação à autonomia de seu trabalho, expressando a no momento da elaboração do relatório avaliativo, já que a coordenação ou direção tem certo controle de seu trabalho, no que diz respeito a avaliação do aluno. Aqui encontramos uma outra categoria de análise, que não será base deste trabalho, mas considerando o trabalho docente e a autonomia dos professores, a categoria sobre avaliação, está intrinsicamente ligado, ao nosso entendimento ao processo da valorização do trabalho docente.
Esteve (1999), quando discorre sobre o mal-estar docente, afirma que no atual contexto social aos professores são exigidos uma série de habilidades e um acúmulo de conhecimentos, mas eles devem ser vistos como sujeitos de transformação social. Desta forma é necessário o professor se apropriar de sua existência na sociedade e o do valor de seu trabalho. De acordo com o autor,
A mudança social acelerada converteu nosso sistema educacional em uma realidade qualitativamente diferente da que se tinha há 20 anos. O professor precisa voltar a pensar no papel que representa. E não só agora. Na próxima década, o desafio tecnológico, a unidade europeia, as reformas qualitativas da educação e a inevitável ocorrência de critérios qualitativos de controle e avaliação do trabalho do professor- para citar só o mais evidente – irão supor novas mudanças ante as quais o professor não poderá deixar de se posicionar (ESTEVE, 1999, p. 13)
Analisando as condições de trabalho em que os professores realizam suas atividades a partir de dados coletados na literatura e na pesquisa de campo, percebemos estas ainda estão aquém do merecimento desses profissionais. Considerando os elementos necessários a constituição de sua carreira docente concluímos que a “profissão professor” constitui-se de um processo de desvalorização.
As condições precárias de trabalho trazem sérias consequências para a sua saúde, sendo que estes no processo de adoecimento muitas vezes se sentem desprotegidos, largados a própria sorte, por não terem um amparo pela gestão governamental.
É preciso considerar que o desgaste, desses profissionais, provocado pela falta de estrutura necessária ao desenvolvimento de seu trabalho, sejam elas materiais ou não, provocam o absentismo de sua profissão, portanto, faz-se urgente e necessário proporcionar- lhes condições favoráveis para o professor possa sentir-se valorizado e respeitado em sua profissão.