DIRECTORA I COORDINADORA DE L’OFICINA PER A LA IGUALTAT D’OPORTUNITATS ENTRE DONES I HOMES
2008-2009 1. Història del Pensame
3.6. Activitats a les seus universitàries
Dona Joana Ferreira do Nascimento é conhecida como “a velha Joana”, “a mãe velha” ou “minha velha”. Aos seus 78 anos de idade, passa os dias cuidando dos netos, tecendo razas, fazendo suas “costurinhas” e atendendo doentes e famílias gestantes que chegam a lhe procurar em casa. Como seu próprio sobrenome o diz, ela é “DO NASCIMENTO”, desde seus dezoito (18) anos trabalha acompanhando mulheres gestantes durante o período da gravidez, no parto e pós-parto.
114 “A velha Joana” é uma das parteiras tradicionais mais conhecida e reconhecida pelos moradores do Baixo e Médio Mapuá pelo seu poder de cura com rezas, atendendo tanto famílias gestantes como qualquer tipo de doentes. No depoimento de várias pessoas que já tinham passado pelas suas mãos, se ressalta o poder de cura da benzedeira-parteira. A Clemilda, comadre dela da Comunidade Bom Jesus, já foi acompanhada durante suas duas gestações por Dona Joana, ela gosta e admira o trabalho que ela faz.
“Eu sempre quis ela do meu lado [...] Ela rezava na barriga da gente, não doía muito quando ela puxava [...] assim, para endireitar o bebê[...] Aí por isso que eu escolhi ela para ser a minha parteira [...] Ela marcava a data que era pra eu ir, eu ia lá na casa dela, ela puxava e rezava na minha barriga [...] Mas olha, ela reza em tudo quanto é doente!”. (CLEMILDA, comadre da parteira Dona Joana).
Dona Joana nasceu num braço do Rio Mapúa chamado o Mapuá Miri, onde foi criada e morou durante a infância e parte da juventude. Junto com seu núcleo familiar conformado por dois irmãos, uma irmã, pai e mãe; cresceu fazendo cerâmica e extraindo seringa dos seringais da região marajoara. Relatou em várias das nossas conversas quanto ela trabalhou junto com seu irmão, quem “era bom conhecedor dos seringais do Mapuá”.
O pai da Dona Joana era de origem cearense e chegou à Ilha do Marajó para trabalhar extraindo látex. Como muitos outros trabalhadores do mesmo ramo, trabalhava durante muitas horas provocando que ele ficasse doente (PORTO-GONÇALVES, 2008). A benzedeira-parteira lembra que ele ficava deitado na rede com muita febre e dores fortes no corpo e cabeça por causa das longas jornadas dentro da floresta coletando o leite da seringa. Ele faleceu quando ela estava muito nova, era ainda uma criança.
“Fui criada no trabalho junto com ele [irmão]. Éramos minha mãe, meus dois irmãos e duas irmãs, eu era a caçula [...] Quando meu pai morreu eu estava gitinha gitinha [...]começando engatinhar [...]”.
115 Um dos irmãos da Dona Joana dedicou-se a “trabalhar fora”, o Felício, enquanto o outro, José, ensinou elas o processo de extrair látex e trabalhavam juntos com produtos da floresta e na roça. Durante vários diálogos sobre a “vida dantes” ela ressaltou a fortaleza da sua mãe para carregar com o peso de toda a família.
“Eu já trabalhei muito [...] Eu não tinha pai, só meu irmão, mas ele quase nunca parava com nós, trabalhava assim por fora [...] Felício era meu irmão mais velho, morreu com os cabelos branquinhos branquinhos, parece que com 88 anos [...] Eu trabalhei muito, hoje em dia eu já descanso.”
A benzedeira-parteira também relatou várias lembranças com sua irmã Nazaré, com quem compartilhava o ofício de pegar criança. Ela faleceu cinco (5) anos atrás por causa de uma depressão pela morte do seu marido, segundo Dona Joana. Elas iam juntas para Breves, e suas casas foram vizinhas durante muito tempo no Rio Coqueiro.
Beatriz era o nome da sua mãe, nascida no Rio Mapuá, no mesmo lugar que a Dona Joana, no Mapuá Miri. Era parteira daqueles cantos e foi com quem aprendeu sobre remédios da floresta e sobre benzer. Ela se lembra dos conselhos da mãe, de como usar as plantas para melhorar a saúde e do poder de cura que ela carregava nas mãos.
”A mamona, para mamãe era o remédio dela... Ela curava muito as criança [...] Ela rezava que era uma beleza! Ela dizia que ela não era benzedeira, mas ela era procurada para todo lugar que tivesse doente [...] Era ela com Deus! Só com Deus! Quando ela botava a mão por cima daquela pessoa, ficava bom mesmo [...]”.
A Dona Beatriz era uma mulher de muita fé. Segundo a Dona Joana, sua mãe sempre ensinou para ela que “a medicina da terra vem de Deus, nosso pai velho nos cura com seu remédio”, lhe mostrando que na natureza existe a cura de todo mal. A religiosidade presente no trabalho da mãe, que, apesar de que não se identificava como benzedeira, foi herdada por ela.
Narrou sobre seus inícios como benzedeira, sendo que foi aos dezoito (18) anos, quando já estava casada com seu primer marido, Sabino Serrão. Com ele teve seus dez primeiros filhos, mas foi picado por uma cobra e faleceu quando o mais novo estava com uns oito (8) anos. Ela se lembra dos dias difíceis que passou no Mapuá Miri depois de que isso acontecera.
116 A situação fez com que ela decidira se mudar com seus dez filhos para o Rio Coqueiro, onde conheceu o segundo marido, Lucilho Fernandes. Até hoje ela é apaixonada por ele, ela teve mais quatro (4) filhos que cresceram e se criaram junto com os outros, “ele era o pai de todos”.
“Quando a caçula, a Darquinha, já estava grandinha foi que eu arrumei esse outro, mas para criar meus filhos. Ele me tirou do trabalho, aí eu não foi mais trabalhar, o menino deu conta de tudo [...]Porque é difícil arrumar uma pessoa assim [...] Eu dizia que eu não arrumava outro marido por causa dos meus filhos, aí meu cunhado diz assim: não comadre, eu conheço muito o Lucilho, ele quer lhe tirar desse trabalho do mato, a
senhora trabalha muito [...] Aí eu disse para ele: olha compadre eu posso ficar com ele,
mas se ele foi ruim com meus filhos a ele vai ter que procurar outra, porque eu não vou
consentir que tratassem mal os meus filhos [...] Mas graças a Deus ele criou todos meus
filhos, me tirou do trabalho e nunca deu nem uma palmada neles nem ralhou com eles porque ele dizia que tinha pena de crianças sem pai. Ele era pai de criação, não era pai deles [...] Mas hoje em dia é difícil achar um assim [...]”.
Ele faleceu, segundo ela, por causa de um golpe muito forte na cabeça. “Ele bebia muito” e caiu um dia numa pedra machucando a cabeça, aos dez (10) dias ele faleceu da dor. Durante os dias que estive com ela, não teve um que não mencionasse o Lucilho, ou como ela chamava “O bom Lucilho”.
“Para ele não tinha nada de ruim, tudo para ele era bom [...] Mas dizem que todo que é bom dura pouco, né? Ele adoeceu e rapidinho ele morreu. Ele bebia muito, mas foi muito bom comigo, sempre! Ele gostava muito de mim, não deixava eu fazer nadinha quando estava menstruada ou gestante [...] Ele cuidou de mim e dos meus filhos tudinho.”
Dos quatorze (14) filhos que ela teve, hoje estão vivos somente seis (6). Ela conta com muito sofrimento que eles faleceram por diferentes causas, desde picada de cobra, caída de um açaizeiro e uma das suas filhas de “doença de nascimento”. Todos eles morreram quando ela morava no Rio Coqueiro, motivo pelo qual ela aceitou a proposta do seu filho caçula, o Mundinho, de sair para a comunidade São Benedito, lugar onde mora atualmente.
117