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3 Blameworthiness and Reasons

3.1 Moral Responsibility, Choice and Rationality

3.1.2 Acting for reasons

O Programa Superação Jovem (PSJ), um programa de Educação para o Desenvolvimento Humano (EDH) de jovens, desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna (IAS), tem como finalidade criar novas oportunidades educativas e desenvolver ações para o desenvolvimento da autonomia, solidariedade e competência dos participantes, oferecendo atividades contínuas de formação aos professores que aderirem ao programa e dando voz à juventude e espaço para ser protagonista de seu tempo, assumindo o jovem como solução, e não como problema da sociedade. O PSJ é de responsabilidade da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (CENP), órgão interno da SEESP.

De acordo com dados do endereço eletrônico oficial do Programa Superação Jovem,

a onda jovem é um fenômeno que tomou conta do país e é nas mãos dessa juventude cheia de energia e tempo pela frente, aberta e otimista, que vai estar, nos próximos anos, o leme de uma nave gigante chamada Brasil. Mas, para isso, os jovens precisam acreditar em si mesmos e precisam também que lhes deem crédito. (www.superacaojovem.org.br).

De acordo com o planejamento do PSJ, os adultos – educadores e gestores – são preparados para lidar com a juventude de uma nova maneira: olhando o jovem pelo seu potencial, criando oportunidades educativas para que esse jovem desenvolva seus potenciais e aprenda a fazer escolhas, e assumindo uma nova pedagogia de trabalho em que o protagonismo juvenil, a educação para valores e a trabalhabilidade são tomados como caminhos educativos para transformar potencial em competências.

Segundo os dados do programa, ao assumirem a causa da juventude no PSJ, os jovens são convocados para resolver problemas que afetam suas vidas, a escola ou a comunidade em que estão inseridos, o que caracterizaria a participação almejada pelo programa e o sentido de corresponsabilidade a ser inculcado nos jovens.

O PSJ tem por objetivo levar às escolas, às ONGs e aos centros esportivos e culturais uma nova maneira de educar, em que adultos e adolescentes criam juntos oportunidades de os jovens desenvolverem autonomia, solidariedade e competências para a vida.

O Programa é um trabalho fruto da aliança entre o Instituto Ayrton Senna e o Instituto VIVO13 (em todo Brasil) e LIDE/EDH – Grupo de Líderes Empresariais / Empresários pelo Desenvolvimento Humano14 (no Estado de São Paulo).

13 Desde sua criação, em julho de 2004, o Instituto Vivo investe em projetos de educação e geração de

oportunidades de trabalho e renda para jovens em todo o país. Hoje, alinhado a missão da Vivo (empresa privada de telefonia) – criar condições para que o maior número de pessoas possa se conectar, a qualquer momento e em qualquer lugar, possibilitando viver de forma mais humana, segura, inteligente e divertida –, o Instituto Vivo conecta pessoas e desenvolve redes por meio de quatro programas: Rede Vivo Educação, Rede Vivo de Inclusão Social; Rede Vivo de Voluntariado e Rede Vivo de Gestão Social. Todas as ações do Instituto VIVO estão alinhadas aos “objetivos do milênio”, criados em 2000, pela Organização das Nações Unidas (ONU) (www.vivo.com.br/institutovivo/home.php).

14 O grupo EDH – Empresários pelo Desenvolvimento Humano foi criado em setembro de 2002 após a

palestra ministrada por Viviane Senna sobre "Responsabilidade Social Corporativa", durante o Meeting Empresarial promovido por João Dória Jr., em Santiago do Chile. Na ocasião, Viviane falou da grande distância existente entre os índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, motivando, não só a criação de um movimento inédito na iniciativa privada, o EDH, como também uma aliança com o Instituto Ayrton Senna para buscar uma solução efetiva que ajude a diminuir essas distâncias que existem no Brasil. Em 2004, o EDH passa a ser o braço social do LIDE, associação destinada a fortalecer o pensamento, o relacionamento e os princípios éticos de governança corporativa no

O Instituto VIVO é representado pela área de Responsabilidade Social da VIVO. Foi criado para cuidar dos investimentos da empresa nas áreas de educação e meio ambiente e é parceiro de grandes instituições, tanto do Terceiro Setor quanto da iniciativa pública. O Instituto VIVO também apóia iniciativas declaradas em prol do bem-estar social e desenvolve o Programa VIVO Voluntário, que integra colaboradores da empresa em torno de ações de Responsabilidade Social.

Por sua vez, o LIDE/EDH apresenta como um de seus objetivos trabalhar e lutar para que o mundo empresarial brasileiro ascenda a um patamar inédito de participação proativa, construtiva e solidária de contribuição para o enfrentamento do desafio social brasileiro. O grupo afirma nos documentos do PSJ que foi buscar inspiração na experiência de trabalho bem-sucedida do Instituo Ayrton Senna, a quem se aliou para atacar o problema social atuando na área da educação. Com isso, atua desde 2003 no estado de Pernambuco com os programas “Se Liga” e “Acelera” e ampliou sua área de atuação abarcando mais um programa em aliança com o IAS: o Programa Superação Jovem.

A missão do IAS seria criar oportunidades para que crianças e jovens possam desenvolver plenamente seus potenciais. Além do atendimento direto a crianças e jovens, desde 1994, o Instituto busca validar e transferir tecnologias sociais em conjunto com escolas, ONGs e universidades e mobilizar os diversos setores da sociedade para atuarem em defesa da causa infanto-juvenil.

O PSJ teve início em 2006 e pretende atender a necessidade de se oferecer aos alunos das escolas de Tempo Integral (Projeto Escola de Tempo Integral) e às escolas abertas aos finais de semana pelo Programa Escola da Família (PEF) atividades que objetivam o desenvolvimento de competências relacionadas ao empreendedorismo social com estratégia pedagógica própria e por meio da qual os jovens alunos são convidados a pensar soluções para situações que querem melhorar e, também, concretizar suas ideias.

Assim, no Estado de São Paulo, o PSJ é oferecido pela SEESP tanto nas escolas abertas aos finais de semana (PEF) quanto nas escolas de tempo integral (Projeto Escola de Tempo Integral). Seus recursos provêm da aliança estratégica com o LIDE/EDH e Instituto VIVO e o Instituto Ayrton Senna (INSTITUTO AYRTON SENNA, 2007).

Brasil. Hoje o LIDE conta com 240 empresas que representam liderança no seu segmento de mercado. Desde então, o EDH passa a denominar-se LIDE/EDH – Grupo de Líderes Empresariais/Empresários pelo Desenvolvimento Humano (www.lide-edh.org.br).

O Programa Superação Jovem, assim como o Programa Escola da Família, apóia-se nos quatro pilares da educação (definidos pela UNESCO como principais aprendizagens na educação do século XXI em relatório organizado por Jacques Delors). Os jovens, público alvo do programa, são convidados a enxergar a juventude brasileira não como alienada, mas como solução para os problemas do Brasil, pois são considerados os “protagonistas” em suas escolas e em sua comunidade, que farão do Brasil um país mais “rico, justo e solidário” (INSTITUTO AYRTON SENNA, 2008, p. 07).

Como desafio, o jovem deve pensar em como vai “viver, estudar e trabalhar” no século XXI e aprender as quatro habilidades: “ter autonomia (saber escolher seus caminhos na vida), solidariedade (saber viver junto)15, conhecimento (aprender a aprender na escola e ao longo da vida) e competência (saber fazer a coisa certa no novo mundo do trabalho)”. Para o IAS, educar para o século XXI significa:

transformar concretamente o imenso potencial que as crianças, os adolescentes e jovens trazem consigo em competências para experimentar quem são e querem ser (ser), para trabalhar pelo bem-comum (conviver), para aprender com sucesso na escola e ao longo da vida (conhecer) e para praticar as habilidades necessárias a todo profissional competente (fazer). (INSTITUTO AYRTON SENNA, 2008, p. 08).

Para isso, é proposta uma atividade, um game (jogo) – considerado pelo IAS “um jogo de cidadania” –, no qual os jovens são convidados a juntarem-se em busca de projetos individuais e coletivos, simultaneamente.

O jogo Superação, atividade do PSJ, define seu objetivo como “pura cooperação, participação, autoconhecimento, aprendizagem e „mão na massa‟ para enfrentar desafios da vida real”, por meio da “Educação para o Desenvolvimento Humano” – base de todos os programas e projetos do Instituto –, que, segundo o IAS, prepara os jovens para serem bem sucedidos no futuro, pois, além de aprenderem os conteúdos na escola, aprenderão na prática a serem pessoas melhores, a serem cidadãos capazes de decidir e participar de questões que afetam seu país, a serem estudantes que buscam conhecimento e que estão preparados para o mundo do trabalho.

15Segundo a visão do “aprender a conviver” – competência objetivada pelo IAS em seus programas –,

“viver a cidadania [...] é buscar relações de trocas solidárias com as demais pessoas e de co- responsabilidade em relação às questões que dizem respeito ao bem-comum, na comunidade, no país e no planeta” (ANDRÉ e COSTA, 2004, p. 77).

Nota-se, a partir dos pressupostos do IAS e do Programa Superação Jovem, bem como nos demais programas da SEESP objeto deste estudo, que a participação (local), a cidadania e a justiça social (esta resultado do sucesso das anteriores) são estratégias para que uma maior socialização dos “cidadãos” aconteça, o que garantiria a paz, a cooperação e a solidariedade sociais.

Como áreas temáticas para a realização de projetos, o PSJ disponibiliza aos jovens os seguintes temas: melhoria da qualidade do ensino escolar, leitura na escola e na comunidade, ações solidária na comunidade, arte na escola e na comunidade, comunicação na escola e na comunidade, esporte na escola e na comunidade, vida e saúde, meio ambiente, trabalho (neste tema é sugerido conhecer empresas, ONGs cooperativas, etc., que possam orientar os jovens em seus projetos), matemática na escola e na comunidade. Por fim, os grupos podem participar das etapas escolar, regional e estadual, a fim de trocarem experiências de sucesso com outras escolas participantes.

Ao observarmos o direcionamento que o PSJ oferece a seus jovens, compreendemos o caráter local da participação almejada pelo programa (presente nos demais programas analisados neste trabalho), pois se pretende, por meio da corresponsabilidade pelo bem-comum, convencer o jovem de seu dever no engajamento para resolução dos problemas locais que foram diagnosticados pela escola ou pelos idealizadores do programa e serão resolvidos segundo o conhecimento instrumental orientado pelos idealizadores do programa; estes ainda premiam as soluções oferecidas pelos jovens das escolas como boas (eficientes ou não).

No jogo Superação, os adolescentes são convidados a se juntarem para fazerem um projeto que, de alguma forma, resolva algum problema da escola ou da comunidade, tendo como resultado não só a solução do problema, mas “jovens mais solidários, mais competentes para estudar e para trabalhar” e com mais autonomia para suas vidas. “Mudar o mundo começa com as mudanças que estão ao nosso alcance, no nosso cotidiano e que fazem toda a diferença na hora de se relacionar com os outros, estudar, cuidar do bem-comum e trabalhar” (INSTITUTO AYRTON SENNA, 2008, p. 56).

No jogo, são propostas seis etapas (mobilização, iniciativa, planejamento, execução, avaliação e apropriação dos resultados), às quais os jovens vão se identificando, a fim de participarem do jogo.

A ideia que pretendemos expor neste trabalho não é a de que a participação dos jovens nos problemas da comunidade é algo ruim ou que este tipo de participação não

traz benefício algum à comunidade ou ao jovem; buscamos perceber como os programas da SEESP interpretam esses problemas (pressupostos) e como promovem sua política educacional por meio desses programas sociais que atuariam na resolução de problemas sociais. Diante disso, percebemos o reducionismo dos programas no trato desses problemas ao incentivar ações (participação) locais, sem nenhum sentido político (direitos de cidadania), utilizando valores morais e éticos como base de seus argumentos, o que acaba por imergir suas ações numa racionalidade instrumental com referente a valores e fins.

Os idealizadores do PSJ consideram como meio (estratégia) para o sucesso de sua atuação nas escolas a “Aprendizagem Colaborativa”, segundo a qual os jovens utilizarão as forças de seu “time de trabalho”, do professor e de seu projeto para: trazer ideias, participar das atividades, se comprometer com o próprio desenvolvimento, ouvir e valorizar a opinião dos colegas, cuidar do aprendizado dos colegas, contar com a colaboração do professor.

É o jovem protagonista quem definirá, com seu “time de trabalho” – formado por jovens que planejarão e executarão projetos – quais projetos colocarão em prática para ajudar a escola e a comunidade. Por sua vez, o professor assume o papel de responsável na colaboração ao “time de trabalho”, buscando ampliar os aprendizados dos participantes. Ao “time de trabalho”, sugere-se a divisão em líder e liderados, para cada atividade.

Especificamente, o jovem é visto no jogo como o protagonista.

Ser protagonista é tomar a frente das questões, decidir e planejar em equipe como enfrentá-las e agir corretamente – sendo o principal parceiro e interlocutor dos adultos – para melhorar a escola e a sociedade em que vivemos. (INSTITUTO AYRTON SENNA, 2008, p. 57).

Segundo Senna (2004, p. 104), o conceito de protagonismo juvenil difundido pelos Programas PSJ e PEF advém do “Paradigma do Desenvolvimento Humano” (PDH), proposto pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), segundo o qual o desenvolvimento de um país ou de uma comunidade é considerado para além do crescimento econômico, no “desenvolvimento das pessoas”. Não obstante, a autora entende que o protagonismo juvenil “traduz a concepção de viver a cidadania como forma de desenvolver-se como cidadão e, também, como pessoa e futuro profissional”. Neste caso, observamos que a concepção de cidadania apresenta o

significado de participação em projetos locais que visam o bem da comunidade, o que formaria uma boa pessoa, um bom cidadão.

O conceito de “Educação para o Desenvolvimento Humano” (EDH) que o Instituto Ayrton Senna desenvolve significa o desenvolvimento pleno dos potenciais dos jovens, ou seja, tem por objetivo estimular a geração de competências. Nesse processo, são quatro as competências definidas pelo IAS para o desenvolvimento de potenciais – as quais são sugeridas pelo relatório da UNESCO, organizado por Jacques Delors, e pelo Paradigma do Desenvolvimento Humano (PDH), organizado por Antonio Carlos Gomes da Costa, no livro de Amarthya Sen, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

O PDH propõe que a política de desenvolvimento humano deve basear-se em quatro pilares, a saber: liberdades democráticas, transformação produtiva, equidade social e sustentabilidade ambiental. Não obstante, o IAS utiliza uma pedagogia baseada em três eixos – estes ligados ao PDH: “protagonismo juvenil, educação para valores e cultura da trabalhabilidade” (ANDRÉ e COSTA, 2004, p. 51). Além disso, o PDH propõe como ética necessária para seu exercício a corresponsabilidade.

Portanto, segundo os dados sobre o Programa Superação Jovem, os jovens seriam a solução para os problemas de suas comunidades e não o problema. Quando capacitados, teriam o potencial de projetar ações para melhorar a convivência comunitária – o que constitui, neste caso, o exercício de cidadania – e quando adaptados às mudanças do mundo do trabalho, podem vislumbrar oportunidades as quais possibilitarão sua inserção nesse mundo.