A Semana de Arte Moderna de 1922 inaugura no Brasil um período de grande importância para nossa experiência Modernista. Menos por fundar novas práticas artísticas, porém admirável como manifesto e experiência discursiva organizada.
Faz-se importante lembrar os anos que antecederam o grande evento da Semana de 22, nos quais se via uma arte de transição: enquanto os artistas franceses do final do século XIX esgotavam as possibilidades experimentais com a luz, tanto na fotografia quanto na pintura impressionista, só então no início do século XX as artes plásticas no Brasil iniciavam um período de ensaios de pequenas transgressões; vivíamos numa penumbra de passagem entre as tradições academistas e o modernismo que acenava de longe com novas proposições.
A influência dos mestres franceses na pintura era algo ainda bastante presente; a Missão Francesa era reverenciada por representar a proximidade com a tradição e com os modelos franceses de ensino. Outro fator que marca as diferenças nos contextos artísticos paulista e carioca é o isolamento entre as duas capitais até o início do século XX (AMARAL, 1998). Mesmo com os meios de comunicação de massa passando por uma grande evolução, ainda não se via integração entre Rio de Janeiro e São Paulo. O consumo era um fator ainda precoce, pois se iniciava timidamente o período de industrialização nacional. Apenas depois de deflagrada a Primeira Guerra Mundial esse panorama mudou substancialmente; nosso crescimento econômico e social era bastante promissor o que estimulou uma formidável aceitação da idéia de nação próspera, acirrando também os nacionalismos.
Depois de passada a Semana – um evento que proclamava a negação do “passadismo” antes mesmo de propor uma arte de ruptura com os padrões considerados obsoletos – prossegue um período rico em pesquisas, labor intelectual e uma produção que muito significa em nosso trajeto de busca por um sentido estético para a nação brasileira.
Fig.11: Capa do Programa da Semana de
Arte Moderna de 1922, ilustrada por Emiliano Di Cavalcanti.
Fig.12: Capa do catálogo da exposição da Semana, ilustrada por Emiliano Di Cavalcanti.
Não apenas a arte se beneficia desse período de questionamento de modelos, mas também uma produção intelectual preocupada em interpretar o Brasil segundo uma perspectiva crítica, anti-colonialista.
Assim como em outros países da América Latina, a proximidade com a industrialização e o contato com as vanguardas artísticas européias do século XX ecoaram pelo Brasil trazendo como conseqüências transformações de relevância no panorama artístico e cultural local. A Semana de 22 poderia ser lida, dessa maneira, mais sob uma perspectiva de formulação discursiva12 do que propriamente como a ruptura com a tradição e os cânones artísticos acadêmicos que sempre nos haviam servido como referência. A existência de uma produção artística que representasse a nova realidade brasileira moderna tardaria um pouco mais a ser percebida, apesar da arte já apresentar sintomas dos câmbios anunciados, antes mesmo da aclamada Semana (HERKENHOFF, 2002).
12 Organizada em torno de uma data simbólica, a Semana de Arte Moderna de 22 comemorava
os 100 anos da Independência do Brasil com relação a Portugal caracterizando este período também com tintas bastante ufanistas. Mesmo tratando-se de um momento de maior consciência de nossa dependência cultural, esta busca por identidade incorreu muitas vezes numa visão oficialesca de cultura e de cidadania vista como nacionalismo.
O Manifesto Antropófago, publicado em 1928, evidenciava o desejo de artistas e intelectuais brasileiros, engajados com as transformações da época, pelo ingresso do Brasil na Modernidade e pela busca de uma identidade cultural própria menos subserviente com relação às metrópoles européias. Esse teria sido o principal objetivo a motivar a produção artística brasileira nos anos 20: a construção de um significado para a cultura e arte nacionais. Movimentos semelhantes ocorrem em outros países da América Latina como a Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela, México, também influenciados pelas novas correntes de pensamento que, acompanhando as mudanças operadas pela ascensão das práticas capitalistas, transformavam também as práticas culturais.
Tais movimentos resultaram em grande parte do contato com idéias libertárias para a arte, dos intercâmbios com as utopias nascentes e com uma ideologia recente, moderna, que exaltava a formação do Estado-Nação. O nacionalismo como um sentimento de “identidade e lealdade” com relação a práticas simbólicas dentro de um determinado território apenas faz sentido a partir desta mudança; a transformação de impérios ou conjuntos de províncias em países projeta e define a idéia de identidade nacional. Para Stuart Hall:
“As culturas nacionais são uma forma distintivamente moderna. A lealdade e a identificação que, numa era pré-moderna ou em sociedades mais tradicionais, eram dadas à tribo, ao povo, à religião e à região, foram
transferidas, gradualmente, nas sociedades ocidentais, à cultura nacional. (...) A formação de uma cultura nacional contribuiu para criar padrões de
alfabetização universais, generalizou uma única língua vernacular como o meio dominante de comunicação em toda a nação, criou uma cultura homogênea e manteve instituições culturais nacionais, como, por exemplo, um sistema educacional nacional. Dessa e de outras formas, a cultura nacional se tornou uma característica-chave da industrialização e um dispositivo da modernidade.” (HALL, 2005:49-50)
Também os movimentos sociais e artísticos emergentes produziam questionamentos capazes de repercutir em várias frentes, fazendo com que se tornasse cada vez mais urgente repensar a produção local e adequá-la ao anseio por um futuro próspero e democrático nos trópicos – até então submetidos a uma relação de exploração colonialista com as grandes metrópoles.
O centenário da Independência foi um grande deflagrador do sentimento nutrido por parte das elites artísticas e culturais brasileiras de que a independência cultural teria tardado a ocorrer. Isto estimulou a perseguição de modelos nacionais de auto-representação e favoreceu um bom recebimento deste novo valor – o nacionalismo. Esta busca não significou de imediato a concretização dos objetivos, no entanto, criou um terreno fértil em que pudessem se desenvolver novas idéias a respeito de nossas matrizes identitárias culturais, históricas, estimulando a busca de formulações específicas para problemas específicos, brasileiros.