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André Gorz (2005) é um dos autores que postulam que o conhecimento se tornou a principal força produtiva do capitalismo contemporâneo, defendendo a necessidade de estabelecimento de outra economia e redefinição de algumas das mais relevantes categorias econômicas: trabalho, valor e capital.

Segundo Gorz (2005), na economia do conhecimento que se institui na atualidade, o trabalho passa a incorporar um capital dito imaterial, que pode ser qualificado também como capital humano e capital conhecimento.

O capital humano representa o saber vivo e é o componente pertencente à cultura do cotidiano. Composto por conhecimentos não formalizáveis, ele é adquirido no trânsito do cotidiano e não nas escolas técnicas. São exemplos do saber vivo: "o saber da experiência, o discernimento, a capacidade de coordenação, de auto-organização e de comunicação" (GORZ, 2005, p.9). De acordo com o autor, esse tipo de saber se tornou a fonte mais importante da criação de valor, sendo considerado fator determinante para a inovação, a comunicação e a

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A abordagem de Marx sobre o trabalho não material, que ele também designa trabalho imaterial, será discutida no tópico 3.1 – O trabalho produtivo e o trabalhador produtivo.

auto-organização criativa e renovadora. Adicionalmente, a criação de valor passaria a depender cada vez mais do componente comportamental e motivacional.

Segundo Gorz (2005, p.20-21), esse saber vivo ou capital humano, que ele também designa general intellect, é recurso gratuito, uma 'externalidade' que se produz sozinha a partir de “uma cultura comum transmitida pela socialização primária e de saberes comuns”. O autor explica que esse fenômeno representa um exemplo daquilo que tem sido designado como 'externalidade positiva', que ele define como resultado coletivo que surge de interações individuais e tem sobre estas uma ação positiva. Gorz adota o termo "coro polifônico improvisado" (LÉVY, 1997) como metáfora para esse modelo que, segundo ele, está presente em todo trabalho interativo em rede, especialmente nas comunidades virtuais da Internet, onde estaria abolida a divisão do trabalho em tarefas especializadas e hierarquizadas.

Já o capital conhecimento, segundo Gorz, está identificado com o saber morto, ou seja, o conhecimento formalizável que, desde os primórdios do capitalismo, era objetivado no maquinário, nas instalações e nos processos de produção, mas agora atinge novas fronteiras. Esse conhecimento, ao se tornar passível de ser abstraído do seu suporte material e humano, bem como reproduzido e transmitido ilimitadamente pelas novas tecnologias, torna-se, nas palavras do autor, “bem comum acessível a todos”. Nessas condições, “uma autêntica economia do conhecimento corresponderia a um comunismo do saber no qual deixam de ser necessárias as relações monetárias de troca” (GORZ, 2005, p. 10).

O autor advoga que o trabalho de produção material, mensurável em unidades de produtos por unidades de tempo, foi substituído pelo trabalho imaterial, para o qual não mais se aplicam os padrões de medida clássicos, sendo, portanto, impossível de ser quantificado, estocado, homologado, formalizado e objetivado.

Gorz (2005, p.19) afirma que, na atualidade, “o coração, o centro da criação de valor, é o trabalho imaterial”. Alega ainda que o valor repousa sobre as capacidades expressivas e cooperativas que não são passíveis de serem ensinadas e sobre vivacidade presente no uso do saber que faz parte da cultura do cotidiano. O autor emprega esses termos para diferenciar o trabalhador pós-fordista do trabalhador das manufaturas e das indústrias taylorizadas.

Segundo essa perspectiva, essa mutação em curso do capitalismo contemporâneo é acompanhada por uma crise na definição e na possibilidade de medir o valor, o que, consequentemente, conduz à ruptura desse modo de produção:

A crise da medição do trabalho engendra inevitavelmente a crise da medição do valor. [...] A crise da medição do valor põe em crise a definição da essência do valor. Ela põe em crise, por consequência, o sistema das equivalências que regula as trocas comerciais (GORZ, 2005, p. 30).

Gorz (2005, p.36) segue afirmando, em sintonia com os defensores da teoria do capitalismo cognitivo12, que o conhecimento, principal força produtiva do capitalismo cognitivo, é um produto que resulta, principalmente, da subjetividade desenvolvida por meio de atividades coletivas não remuneradas. Grande parte desse conhecimento é “inteligência geral, cultura comum, saber vivo e vivido”, que não tem valor de troca, sendo passível de ser partilhado à vontade e gratuitamente por meio da Internet.

Além disso, o conhecimento formalizado, ou seja, a parte do conhecimento que não é originalmente geral nem comum, também é virtualmente gratuita, tendo em vista que pode ser reproduzida ilimitadamente e a custos desprezíveis graças à digitalização e à rede mundial de computadores. Partindo destes pressupostos, afirma que "a principal força produtiva, e principal fonte de valor, é pela primeira vez suscetível de ser subtraída à apropriação privada" (GORZ, 2005, p.37).13

Mas a verdadeira e revolucionária novidade, segundo o autor, é que o conhecimento pode exercer em si mesmo uma ação produtiva na forma de programas de computador. Ele pode

organizar e gerir as interações complexas entre um grande número de atores e de variáveis; pode conceber e conduzir as máquinas, as instalações e os sistemas de produção flexíveis; ou seja, desempenhar o papel de um capital fixo, substituindo o trabalho vivo, material ou imaterial, por trabalho acumulado (GORZ, 2005, p.37).

Partindo desse ponto de vista, Gorz (2005) entende que o conhecimento destrói muito mais valor do que cria, ou seja, economiza grandes quantidades de trabalho social remunerado e, consequentemente, diminui ou anula o valor de troca monetária de produtos e serviços, o que desafia a lógica capitalista:

O conhecimento abre então a perspectiva de uma evolução da economia em direção à economia da abundância. [...] A economia da abundância tende por si só a uma economia da gratuidade; tende a formas de produção, de cooperação, de trocas e de consumo fundadas na reciprocidade e na partilha, assim como em novas moedas. O capitalismo cognitivo é a crise do capitalismo no seu sentido mais estrito (GORZ, 2005, p. 37).

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A teoria do capitalismo cognitivo tem sido defendida por autores europeus como Yan Moulier-Boutang, Antonella Corsani, Maurizio Lazzarato, Carlos Vercellone e Enzo Rullani. Alguns autores brasileiros também têm fomentado e participado desse debate, a exemplo de Sarita Albagli, Maria Lúcia Maciel e Giuseppe Cocco, entre outros, conforme será analisado no tópico 2.6.

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Nota-se aqui que essas ideias representam desdobramos das reflexões de Arrow (1962), que destacou que, embora o custo para produzir uma informação possa ser alto, o custo para sua disseminação é, frequentemente, muito baixo ou irrisório. Portanto, a informação e o conhecimento devem ser transformados em propriedade privada e se tornarem escassos para que possam ser aproveitados economicamente, mas, no entanto, essa transformação é difícil, custosa e sem garantias. Esses argumentos são recorrentes entre os autores da Economia Política da Informação e do Conhecimento.

Por outro lado, o autor percebe que o conhecimento tem assumido caráter de mercadoria. Sua venda e aproveitamento como capital pressupõem que ele se torne propriedade privada do capitalista e seja objeto de escassez artificial por meio de políticas monopolistas. Para o capital, trata-se de se apropriar do conhecimento para impedir que ele se torne um bem coletivo e abundante, criando uma escassez artificial que é condição para a plena existência do capital imaterial.

Tratando-se de mercadorias que têm forte conteúdo imaterial, em vez de dizer que "seu valor tem seu conhecimento como fonte", será mais justo dizer que ele tem sua fonte no monopólio do conhecimento, na exclusividade das qualidades que esse conhecimento confere às mercadorias que o incorporam, e na capacidade da firma para conservar esse monopólio. Essa capacidade vai depender da rapidez com a qual a firma consegue inovar, pôr suas inovações no mercado, ultrapassar e surpreender seus concorrentes. A propriedade intelectual, mas também o segredo empresarial, tornam-se imperativos. Sem eles não há capital cognitivo (GORZ, 2005, p.45).

Nesse contexto, cada vez mais, o objetivo a ser perseguido pelas empresas passa a ser a renda de monopólio e o estabelecimento de monopólios simbólicos. Porém, Gorz alega que a monopolização de um conhecimento, de uma competência ou de um conceito é uma tarefa difícil que exige altos investimentos financeiros e não tem garantias.

No polo oposto dessa contradição, o autor coloca aqueles que defendem "o direito de acesso universal e ilimitado ao saber e à cultura; a recusa de deixar o capital de apropriar deles, e a instrumentalizá-los" (GORZ, 2005, p.27).

Passemos agora à análise dos argumentos dos autores que defendem a emergência da pós-grande indústria.