Neste estudo constatámos a falta de indicadores atualizados de segurança e saúde do trabalho na realidade nacional, bem como pela quase total ausência dos mesmos quanto a indicadores específicos sobre doença profissional e doença relacionada com o trabalho. Em igual sentido não encontrámos na nossa realidade nenhum estudo generalizado sobre SST posterior a 2007 com base num instrumento de consulta direta aos trabalhadores. Apurámos ainda que as atividades de serviços administrativos, pese embora a sua dimensão, são sectores de alguma forma esquecidos no que se refere à SST, provavelmente devido ao facto de os indicadores de acidentes de trabalho graves serem menores que noutras atividades. Ainda assim demostrámos que existe uma sinistralidade escondida nas atividades do tipo administrativo, bem como que a promoção da SST não se esgota na prevenção do acidente de trabalho e da doença profissional, mas também tem de incidir sobre a prevenção da doença relacionada com o trabalho e do mal-estar ocupacional.
A partir da literatura consultada, definimos um quadro que nos permitiu isolar e comprovar a existência de três grandes grupos ou classes de fatores de risco em trabalho administrativo com potencial de causar DRT e MEO – perigos presentes no local e ambiente de trabalho, perigos de natureza músculo-esquelética e perigos de natureza psicossocial –, bem como identificámos um conjunto de sinais e sintomas de consequências para a saúde provocadas pelos fatores de risco em apreciação – danos de natureza física/fisiológica, psíquica/mental ou combinações de ambos.
Tendo por base o quadro de perigos e danos definido, procedeu-se à construção de um inquérito para identificação de fatores de risco com potencial de DRT e MEO e respetivos danos para a saúde, personalizado a um dos sectores onde predomina o trabalho administrativo, no caso o sector bancário. Assim, foram distribuídos cerca de 5.000 questionários através de correio eletrónico, tendo o inquérito obtido 906 respostas válidas, amostra que, para uma população de 55.485 indivíduos e um nível de confiança de 95%, apresenta um erro de 3,3% (amostras aleatórias).
A aplicação do inquérito permitiu constatar a existência de vários fatores de risco com percentagens algo elevadas nas três classes anteriormente delimitadas, encontrando-se os valores mais expressivos nas classes dos denominados riscos músculo-esqueléticos e riscos psicossociais, o que está em linha com a literatura consultada. Quanto a danos, são mais
frequentemente identificados danos de natureza predominantemente física/fisiológica do que de natureza psíquica/mental.
Procurou-se estabelecer algumas relações entre danos e perigos, tendo-se detetado relações significativas entre, por exemplo: dores músculo-esqueléticas (uma ou mais localizações), com os fatores de risco ‘posto de trabalho inadequado ou muito inadequado’ e ‘posturas incorretas ou muito incorretas’; dores músculo-esqueléticas ao nível do pescoço, ombros ou membros superiores, com os perigos ‘movimentos repetitivos’; secura, irritação ou alergias ao nível dos olhos/nariz/garganta e constipações, asma ou outros problemas respiratórios, com os fatores de risco ‘limpeza do local de trabalho’, exposição a ‘agentes irritantes’ e a ‘poeiras ou fibras presentes no ar ambiente, equipamentos ou instalações’.
As maiores relações foram, no entanto, encontradas entre perigos de natureza psicossocial e danos de natureza psíquica/mental, de onde ressaltam: danos enquadrados como ‘mal-estar, insatisfação ou redução da qualidade de vida em geral’ são fortemente associados com os fatores de risco ‘insatisfação com o trabalho’; danos ‘ansiedade’ e ‘irritabilidade ou agressividade’ (resposta a pelo menos uma das opções) são especialmente associados com ‘exigências irreais de produtividade’, ‘critérios de avaliação e recompensa desconhecidos ou pouco claros/transparentes’, ‘injustiça ou falta de equidade de tratamento (e.g., na avaliação do desempenho, no feedback dado, ou na evolução na carreira)’, ‘agressão física ou verbal (por parte de colegas ou clientes)’ e ‘intimidação/coação psicológica (bullying) ou assédio moral (mobbing)’; danos ‘desgaste mental ou dificuldades de concentração’ e ‘distúrbios no sono ou distúrbios sexuais’ (resposta a pelo menos uma das opções) são também especialmente associados com os fatores de risco ‘ritmos de trabalho sistematicamente elevados’, ‘exigências irreais de produtividade’, ‘prazos de execução habitualmente curtos/irrealistas’, ‘exigências do trabalho acima da capacidade de resposta’, ‘critérios de avaliação e recompensa desconhecidos ou pouco claros/transparentes’, ‘injustiça ou falta de equidade de tratamento’, ‘agressão física ou verbal (por parte de colegas ou clientes)’ e ‘intimidação/coação psicológica (bullying) ou assédio moral (mobbing)’.
Particularmente preocupantes foram as muito expressivas relações encontradas entre o agregado dos danos ‘depressão ou diminuição da autoestima’ e ‘pensamentos suicidas ou tentativa de suicídio’ (resposta a pelo menos uma das opções) e praticamente todos os perigos enquadrados nas subclasses ‘fatores de risco relacionados com o conteúdo e a realização do trabalho’ (tabela 4.5), ‘fatores de risco relacionados com o funcionamento organizacional e a realização profissional’ (tabela 4.6), e ‘fatores de risco relacionados com a violência’ (tabela 4.7). Realçamos que, não só as diferenças de percentagem de identificação dos fatores de risco em causa, entre os indivíduos que reportaram estes danos e a amostra total, são elevadas (quase todas diferenças superiores a 10% em valor absoluto), como os danos em apreciação são dos mais graves presentes no quadro definido de potenciais problemas de saúde.
Assim, e em resumo, em trabalho do tipo administrativo, no sector de atividade em análise, foram identificados diversos fatores de risco, bem como danos em termos de doença relacionada com o trabalho e mal-estar ocupacional, com valores expressivos que carecem de intervenção adequada por parte dos profissionais de segurança e saúde no trabalho, não sendo pois o risco displicente como, numa observação mais superficial, se poderia eventualmente supor à partida.