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No percurso do Lógico, estamos agora diante do centro da dialética. Essa forma de pensamento lógico pretende superar a forma exterior da relação

169 HEGEL, Diferencia, 1989a, p. 20. 170 Ibidem, p. 21.

estabelecida pelo pensamento finito, do pensamento do entendimento. A reflexão dialética vê o objeto na perspectiva de um suprassumir-se das determinações finitas em sua relação de opostos.172 Este suprassumir da determinação em seus opostos constitutivos se dá por intermédio de um ultrapassar imanente em que a finitude da determinação imediata é posta como negação. A afirmação da negação transforma- se em algo positivo, justamente por representar uma determinação conceitual mais concreta.

O entendimento é uma forma limitada de pensamento. O seu limite consiste na relação restrita às finitudes, em que cada finito estabelece relação com outro finito de forma exterior, de finito em finito, cada uma em seu isolamento. Ao contrário, o método dialético especulativo tem caráter imanentista e sistêmico. Cada parte é relação com o todo. O método compreende o movimento do todo na parte e vice versa. “O método é, dessa maneira, não uma forma exterior, mas a alma e o conteúdo do conceito, do qual só difere enquanto os momentos do conceito vêm também neles mesmos, em sua determinidade, a aparecer como a totalidade do conceito”.173

Hegel procura enfrentar o problema da forma abstrativa do entendimento que ainda não alcança a fecundidade do lado negativo-racional (dialético) do lógico. A forma abstrata, meramente negativa, conduz à exterioridade do objeto concreto, levando ao ceticismo, em que a negação não alcança o nível de determinação do conceito concreto. Isso, para Hegel, configura a própria negação do conceito, enquanto mantém o momento da negação como resultado da dialética negativa. Ao contrário, a dialética plena proporciona um ultrapassar imanente das determinações finitas, elevando-as à conexão e necessidade imanente do objeto.

172 HEGEL, Enz, I, 2003, § 81. 173 Ibidem, § 243.

Nesse nível é que se dá a verdadeira elevação da forma de pensar. Sendo que, por exemplo, os conceitos de homem, natureza e espírito são correlatos, constitutivos recíprocos. A determinação de um conceito envolve a negação de sua constituição, determinação externa. O universal suprassume o particular, na medida em que as finitudes, expressas pela abstração, também constituem a verdade do objeto. Nesse sentido, Hegel diz “que a vida como tal traz em si o gérmen da morte, e que, em geral, o finito se contradiz em si mesmo e, por isto, se suprassume.”174 Essa forma de pensamento abstrato mostra que o conceito de mortalidade, atribuído ao homem, é pensado pelo entendimento como se somente o conceito de vida fosse atribuível ao conceito homem, e a morte fosse algo externo.

A finitização da forma de pensamento contrapõe externamente os momentos da unidade conceitual e não percebe que os momentos contrapostos externamente representam uma negação do verdadeiro conceito em que ambos os conceitos, vida e morte, se reúnem, em um conceito mais determinado, no conceito de homem. Nesse sentido é que a vida já traz em si o gérmen da morte, e, por isto, a morte não é algo externo à vida.

Todavia, a superação da finitude da abstração do pensamento do entendimento mostra um duplo aspecto, um negativo e outro positivo, sendo que o movimento negativo é também afirmativo. A negação é positiva enquanto conserva elevada em si a realidade abstraída.

Enquanto a dialética tem por resultado o negativo que é, justamente enquanto resultado, ao mesmo tempo, o positivo, porque contém como suprassumido em si, aquilo de que resulta, e não é sem ele. Isto, porém, é a

174 HEGEL, Enz, I, 2003, § 81 / adendo.

determinação fundamental da terceira forma do lógico, ou seja, do especulativo ou positivamente-racional.175

O momento dialético considera as coisas em si e para si e, desta forma, vislumbra as contradições do pensamento do finito, aponta a unilateralidade deste pensamento. Para Hegel, a dialética deve ser objetiva e científica. O autor também faz um resgate da História da Filosofia. Entende que, em Sócrates, a dialética tinha um caráter subjetivo, expressando-se como um pensamento irônico. Por isso, afirma: “Platão mostra, em seguida, em seus “Diálogos” rigorosamente científicos, pelo tratamento dialético em geral, a finitude de todas as determinações fixas do entendimento”.176

Já em um giro temporal até a filosofia moderna, essa forma grandiosa de tratar a dialética também pode ser encontrada na filosofia de Kant, especialmente quando trata das antinomias da Razão. Aí dialética não mais se estabelece como relação subjetiva, como um constante vai-e-vem, mas se entende a dialética como um conceito de necessidade interna.

Isso mostra que o pensamento abstrato se transforma imediatamente em seu oposto. Nesse sentido é que Hegel entende que toda a experiência se mostra dialética e que o entendimento tenta reduzir a dialética ao puro pensamento, como se este não existisse na realidade. Isto ocorre uma vez que um pensar mais reflexivo revela que o momento da dialética é constitutivo da realidade universal, tanto da linguagem, da lógica quanto do ser.177

175 HEGEL, Enz, I, 2003, § 81. 176 Ibidem, § 81 / adendo.

177 Mure afirma que a chave do método dialético (de Hegel) é compreender a unidade do pensamento

e ser como fundamento do sistema e que o movimento do método se sustenta na negação. Ainda para Mure, cabe assinalar que “Hegel concebe a lógica não como formal, senão como metafísica e ontológica” (HEGEL, Diferencia, 1989a, p. 23-4).

Há que se distinguir entre o ceticismo que duvida da verdade da finitude, mas não nega a verdade como ideal a ser alcançado, do ceticismo clássico que subjaz aos sistemas dogmáticos de filosofia. Esta forma clássica nega a verdade suprassensível e afirma o sensível – dado da impressão imediata – como aquilo que expõe a verdade. O pensamento filosófico não pode abrir mão de certo ceticismo, compreendido como a dúvida sobre o saber abstrato e empírico.

O método dialético se efetiva plenamente quando alcança o momento especulativo ou o positivamente racional. Este momento apreende os momentos do entendimento e do dialético em uma unidade relacional.

3.3 O MOVIMENTO INTERNO DO CONCEITO, PELA LÓGICA DIALÉTICO-