9.1 Internal review
9.1.3 Achievements
Em 1989 chegou uma família desana de Teresita da Colômbia para residir em Ananás. Traziam consigo uma carta do capitão da comunidade de origem como recomendação. O pessoal de Ananás recebeu a família, parentes da mãe do Max12. O primeiro a chegar foi um homem de uns vinte anos. Trabalhador e inicialmente empenhado nas atividades cotidianas, indicaram-lhe, pouco tempo depois, o espaço para que fizesse sua casa. Ele voltou, então, à Colômbia para buscar seus pais já idosos.
Havia um entendimento comum em Ananás de que famílias vindas muito tempo após o início da comunidade eram passageiras, ou seja, teriam que se mudar após um período não muito longo. Esse princípio, por sua vez, não seria um indício de que a comunidade era ponto de parada de gente que descia o Uaupés? Em caso positivo, poderíamos sugerir que Ananás veio a ser um lugar florescente constituídos de descidos do Papuri e Tiquié, o caso mais acima relatado, referente ao pajé carapanã, apoia tal hipótese, mas indica também que, ainda que florescente, o lugar facilitava a ocorrência de feitiçaria. A existência de uma regra várias décadas depois parece-me, precisamente, uma tentativa de contornar o problema. O fato é que essa regra valeu para a família colombiana e dois ou três anos após sua chegada foram avisados de que não poderiam mais ali permanecer. Um desentendimento seguiu-se a esta situação e membros do clã
Sanadepó-porã acabaram os expulsando. A família seguiu para a Comunidade do
Balaio. Passado algum tempo o jovem desana se enforcou. Seu pai haveria morrido no Balaio três anos após seu filho.
Antes de sair de Ananás, e aqui o ponto central desta história, o velho disse durante a discussão que todos abandonariam a comunidade em consequência da expulsão de sua família. Isto ocorreu em meados de 1992. Max recorda-se que, em novembro de 1993, araras invadiram a comunidade. Eram tantas e tão ferozes que comiam o pé de açaí do fruto até a raiz. Mas em que sentido esses pássaros anunciavam uma iminente tragédia? Pássaros geralmente são mensageiros de males que ocorrerão num futuro próximo, explicou Max. Embora isto não possa ser generalizado para todos os pássaros, na narrativa Oyé (idem, p. 85) temos a indicação de que alguns deles,
mirikihá, em língua tukano, são considerados Dihâri Masa, “gente que faz a vida se
encolher”, agouros de morte.
Apesar da preocupante presença das araras, a vida na comunidade seguiu. No entanto, por ocasião de uma partida de futebol, o animador - o responsável pelas atividades esportivas da comunidade - exigiu propriedade sobre a bola após o jogo. Seguiu-se uma discussão e ele levou um tiro de um homem Sanadepó-porã. O cunhado do animador, do clã Inapé-porã, revidou com outro tiro sobre o homem que havia efetuado o primeiro disparo e o matou. O animador acabou sendo salvo. Como consequência desse episódio ocorreu uma dispersão generalizada em Ananás.
Visitei a Comunidade do Balaio, uma das comunidades da TI Balaio, localizada dentro do Parque Nacional do Pico da Neblina, próximo à fronteira com a Venezuela. Essa localidade tem a especificidade de ter sido formada por pessoas que saíram de Pari-Cachoeira devido à perseguição dos missionários salesianos13. Na ocasião conheci Casimiro, um senhor com mais de noventa anos de idade, pai de Álvaro Tukano, reconhecida liderança indígena nacional. Não tive oportunidade nem intimidade para perguntar sobre a família desana de Teresita que residiu em Ananás. Para minha surpresa voltei a encontrá-lo nas ruas de São Gabriel alguns dias depois. Nesta ocasião, perguntei a ele se conhecia tal família. Muito simpático, ele contou que o velho desana morou em Yá-Mirim, comunidade vizinha ao Balaio, e teria voltado para
13 Essas perseguições se devem ao fato dos missionários salesianos terem sido denunciados no Tribunal Russel em 1980 pelo crime de etnocídio por algumas famílias desta região.
Colômbia após o suicídio do filho. Casimiro também disse que ele era bayá, cantor/dançarino, além de confirmar que sua mulher era pira-tapuia de Teresita, Colômbia.
Christine Hugh-Jones (1979) aponta que residentes de fora são em geral homens de um grupo exogâmico relacionado ao grupo de descendência local por uma ligação direta de afinidade através da esposa ou mãe. A autora também indica que eles nunca estão totalmente integrados na vida ritual da comunidade. Um dos fatores que determinariam a incorporação desses moradores é a ambição de um chefe em aumentar seus seguidores para que se tenha potencial econômico para realizar reuniões e rituais frequentes. Neste sentido, os moradores de fora teriam uma importância econômico- ritual especial para a comunidade. A incorporação de moradores extras se relacionaria, dessa forma, com a capacidade de produção de excedente econômico necessário para a promoção de festas e rituais. Mas no caso de Ananás temos observado que pode se tratar de um local estratégico de parada para os que descem, onde eventualmente poderiam se estabelecer antes de conseguir seu próprio lugar. Para verificar tal hipótese, no entanto, seria importante levantar as histórias não só de Ananás, mas de outras comunidades do baixo Uaupés.
No caso da família que passou a residir em Ananás, a esposa pira-tapuia possui relação de afinidade com o clã Inapé-porã. A mãe do Max é uma mulher pira-tapuia que residia virilocalmente na comunidade, casada com um homem tukano e parente da mulher pira- tapuia de Teresita. O velho desana, dessa forma, vale-se da ligação de sua esposa com o grupo de Ananás para estabelecer residência no local. Ou seja, os Desana são co-afins dos Tukano de Ananás. Outros elementos complementares associam-se à desejada permanência na comunidade, como a carta de recomendação emitida pelo capitão da comunidade de origem. Embora não seja possível mensurar em que medida o documento influencia a incorporação desses moradores, o que parece fundamental para garantir o espaço para a construção da casa é o empenho demonstrado pelo jovem nas atividades cotidianas da comunidade. Neste sentido, estaria subscrita a importância econômica dos moradores extras observada por C. Hugh-Jones (idem).
Embora não seja possível identificar os motivos pelos quais a família de Teresita procurava uma nova comunidade rio abaixo, muito menos o porquê escolheram Ananás, é importante observar que o movimento de descida parece perdurar
historicamente, o que se verifica pela grande quantidade de índios do alto rio Negro em Manaus, por exemplo. O desenrolar conflituoso ocorrido na comunidade envolvendo discussões, a expulsão da família e as ameaças de feitiçaria, a morte ocorrida em consequência de uma briga, bem como os acontecimentos relatados por Casimiro indicam, em minha opinião, a importância deste episódio no quadro das últimas transformações ocorridas na comunidade. Afinal, uma das consequências deste conflito diz respeito à última dispersão generalizada que esvaziou Ananás.
Se nos atentarmos para os membros envolvidos na briga ocorrida após a partida de futebol localizaremos no cerne do conflito dois homens representantes dos clãs de Ananás. O homem morto pertencia ao clã Sanadepó-porã e o assassino ao clã Inapé-
porã. O animador não era residente em Ananás, mas sim cunhado do homem Inapé- porã. Embora tenha sido atingido pelo homem Sanadepó-porã, o animador acaba
sobrevivendo, o que não acontece com seu agressor, morto por um tiro pelo membro do clã co-residente. O homem Inapé-porã ao sair em defesa de seu cunhado, o animador, acaba cometendo um assassinato. Ou seja, se o conflito envolve dois co-residentes antigos, o estopim refere-se às relações estabelecidas com um homem mais recentemente incorporado à comunidade. Não sabemos, contudo, de que etnia e ex- morador de qual comunidade pertencia o animador.
De uma maneira geral, se avaliarmos o conteúdo das ameaças do velho desana, pode-se inferir que, de certa maneira, elas se concretizaram. Quando o velho anuncia durante a discussão que todos acabariam abandonando a comunidade não é possível presumir de que forma isto se realizaria. Permeada por elementos míticos, como a presença repentina de bandos de araras, e materializada a partir de um evento peculiar – uma briga durante uma partida de futebol – , o agouro do bayá colombiano atinge justamente o ponto central da conformação sociológica estabelecida em Ananás, a co- residência estabelecida entre os dois clãs tukano. Como sugestão, é possível questionar em que sentido o atributo de baya tornaria o morador colombiano capaz de tal feito, pois Max fez uma associação direta entre a ameaça do velho e o episódio do assassinato.