3.4 Correlation Analysis
4.1.1 Accuracy of events identification
Recorrer à literatura como fonte documental no estudo de características de uma sociedade requer dois níveis de reflexão: de um lado, reconhecer a literatura como uma forma de conhecimento social e estabelecer as aproximações e convergências possíveis entre esta e outras formas de conhecimento; de outro, identificar nas construções narrativas a presença de temáticas, de personagens, de incidentes e situações, próprios de uma época, possibilitando um pensar das relações entre os discursos expressos nas obras literárias e as relações deste com o tempo histórico representado.
O ponto de partida para as reflexões teóricas relacionadas às convergências destas duas formas de conhecimento foi buscado em alguns autores vinculados ao Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), da Universidade de Birmingham. Fundado em
1964, por Richard Hoggart, como um centro de pesquisa em pós-graduação preocupado em focalizar as relações entre a cultura contemporânea e a sociedade, alguns entre seus membros adquiriam grande relevo internacional: E.P. Thompson, Raymond Willians, Richard Johnson e Stuart Hall, apenas para citar alguns nomes. Diante das alterações dos valores tradicionais da classe operária da Inglaterra do pós-guerra os pesquisadores desse Centro voltaram sua atenção sobre materiais da cultura popular e dos mass media antes desprezados, inaugurando a perspectiva que argumenta que no âmbito popular não existe apenas submissão, mas, também, resistência; por outro lado, cultura passa a ser considerada uma rede de práticas e de relações que constituem a vida cotidiana. (ESCOSTEGUY, 1999: 138-144) A preocupação no estabelecimento de relações entre o individual e o coletivo marcam uma forma particular de abordar a subjetividade não como algo dado, mas como algo produzido e por isso ponto de partida das investigações. (JOHNSON, 1999: 27)
Algumas afirmações feitas por Richard Johnson, na palestra O que é, afinal, Estudos Culturais? (sic!), de 1983, orientam alguns caminhos para o trabalho com textos literários. Depois de indicar a diversidade de textos e de gêneros atualmente existentes, aponta alguns métodos de trabalho e afirma:
Não temos, certamente, que limitar nossa pesquisa a critérios literários; outras escolhas estão disponíveis. É possível, por exemplo, adotar “problemas” ou “períodos” como critério principal. (JOHNSON, 1999: 73)
É a partir de temas e problemas, e não de critérios literários, que se pretende abordar a produção dos autores indicados, tendo como perspectiva apreender sistemas de representações presentes nos textos e os significados deles decorrentes. Nos caminhos a seguir a sugestão de Johnson se apresenta como possibilidade:
De forma mais geral o objetivo é descentrar o “texto” como um objeto de estudo. O “texto” não é mais estudado por ele próprio, nem pelos efeitos sociais que se pensa que ele produz, mas, em vez disso, pelas formas subjetivas ou culturais que ele efetiva e torna disponíveis. O texto é apenas um meio no Estudo Cultural; estritamente, talvez, trata-se de um material bruto a partir do qual certas formas (por exemplo, da narrativa, da problemática ideológica, do modo de endereçamento, da posição do sujeito, etc.) podem ser abstraídas.(JOHNSON, 1999: 75)
Neste estudo o “texto” é o texto literário, centrado em um gênero específico: o romance. O trabalho historiográfico com textos literários nos conduz à necessária reflexão sobre as transformações nas concepções de História que possibilitaram este diálogo, fato
que ocorreu apenas no momento em que foram ultrapassadas certas concepções de ciência que estabeleciam a dicotomia entre o objetivo e o subjetivo, o racional e o irracional, o real e o imaginário, o científico e o artístico, considerando as duas formas de expressão distintas e inconciliáveis. A introdução na produção historiográfica de categorias de análise como representações, imaginário, dimensões simbólicas, exigiu um repensar das relações entre os aspectos subjetivos e objetivos das práticas da sociedade.
Sandra Jatahy Pesavento apresenta um interessante panorama das transformações paradigmáticas comandadas pela contraposição entre o cientificismo e o imaginário a partir dos estudos do simbólico e do inconsciente, presentes na antropologia e na psicologia. (PESAVENTO, 1995: 12) Lembra, entretanto, que as mudanças no campo da história só vieram a ocorrer posteriormente com os marxistas ingleses e com a escola dos Annales. Entre as principais mudanças apresentadas por Pesavento encontram-se as contribuições de alguns autores como Thompson, que critica o marxismo economicista e mecanicista e o idealismo althusseriano que descarta a realidade empírica; elege a experiência, o fazer-se, como conceito chave. O historiador deve surpreender nexos entre alterações de hábitos, palavras, ações, atitudes que mudam com o tempo, para tanto é preciso encarar novas fontes: jornais, festas, processos criminais, registros policiais, etc. Estudos sobre as multidões (Rudé), sobre a cultura (Raymond Willians), análise dos subalternos, buscam compreender os significados que os homens conferem a si no mundo. (PESAVENTO, 2005: 30) Na Escola dos Annales, o estudo das mentalidades introduzido por Lucien Febvre e intensificado nas décadas posteriores, embrenhou-se nos domínios do simbólico, das atitudes mentais, do conjunto de valores partilhados, não racionais, não conscientes e não contidos no âmbito das classes, complexificou a compreensão e os estudos da realidade. (PESAVENTO, 2005: 31)
Os “novos problemas” propostos pela historiografia trazem o estudo do imaginário que deve ser compreendido como uma representação, uma tradução mental de uma realidade exterior, um discurso sobre o real, mas que não é exatamente o real. As representações mentais envolvem atos de apreciação, conhecimento e reconhecimento e constituem um campo onde os agentes investem seus interesses e bagagem cultural. (PESAVENTO, 1995: 15)
O que mais especificamente interessa nesta pesquisa é o imaginário enquanto idéias e imagens de representações que dão significado às identidades individuais e coletivas. Na leitura dos romances o foco centra-se mais em uma destas representações coletivas: a
identidade nacional, compreendida como um processo “ao mesmo tempo pessoal e coletivo, onde cada indivíduo se define com relação a um „nós‟, que, por sua vez, se diferencia dos „outros‟”. (PESAVENTO, 1998: 18) Nessas representações coletivas de identidade diversos aspectos devem ser considerados como as formas de legitimação do poder, as divisões que são estabelecidas, os modelos de conduta que são concebidos para seus membros. (PESAVENTO, 1995: 16) Representações que são historicamente construídas a partir de campos de força que se enfrentam e onde se definem as representações do real. (PESAVENTO, 1998: 20) Representações que são reconfiguradas num contexto de busca de novos padrões de referência e de novos projetos.
Buscar as representações de identidade nacional na literatura não é fazer tábula rasa dos campos do conhecimento histórico e literário, mas reconhecer as proximidades e as diferenças. Análises teóricas mais recentes da historiografia têm garantido a aproximação entre as duas formas de narrativa e, portanto, de produção de interpretações, estes pressupostos se consolidam a partir de um grande debate travado em torno da própria idéia de ser a história uma forma de narrativa.