• No results found

A linguagem, de acordo com Vygotsky (1989), pode ser entendida como um processo de transmissão de informações que emprega recursos da língua e pode se apresentar em duas formas de atividades: como transmissão da informação, ou co- municação, e como veículo de pensamento. A linguagem como veículo de informa- ção requer a participação de interlocutores, enquanto a linguagem como veículo de pensamento ocorre quando o homem fala para si. No entanto, isto não significa que a linguagem seja o único meio de pensamento. A linguagem é um meio de expres- são que, por um complexo sistema de significados é unida com o pensamento. A ontogênese da fala demonstra que a união entre palavra e pensamento ocorre atra- vés do significado. Os significados evoluem na mente da criança na medida em que esta interage com o meio social.

A conexão pensamento/linguagem tem sua origem no desenvolvimento e se torna mais estreita em seu decorrer, constituindo o pensamento verbal, ou seja, a base essencial da estrutura semântica da consciência. A linguagem admite a cons-

trução de conceitos – elementos centrais do pensamento – e a construção deste úl- timo adquire consequentemente, uma formulação lingüística, de modo que a lingua- gem se transforma em ferramenta do pensamento. Dessa forma, pensamento e lin- guagem, apesar de terem origens genéticas distintas, acabam por se fundir, dialeti- camente, ao longo do seu desenvolvimento: linguagem converte-se em pensamento e pensamento em linguagem.

Para Vygotsky (1989), as raízes pré-intelectuais da fala no desenvolvimento da criança são muito conhecidas. O balbucio e o choro da criança, mesmo suas pri- meiras palavras, são claramente estágios do desenvolvimento da fala, que não têm nenhuma relação com a evolução do pensamento. Essas manifestações geralmente têm sido consideradas uma forma de comportamento predominantemente emocio- nal. Essa situação se modifica mais ou menos aos dois anos de idade, quando as linhas de desenvolvimento entre a fala e o pensamento se encontram e um novo panorama se estabelece.

As curvas da evolução do pensamento e da fala, até então separadas, en- contram-se e unem-se para iniciar uma nova forma de comportamento [...] Esse instante, em que a fala começa a servir ao intelecto, e os pensamen- tos começam a ser verbalizados, é indicado por dois sintomas objetivos in- confundíveis: (1) a curiosidade ativa e repentina da criança pelas palavras, suas perguntas sobre cada coisa nova (“O que é isto?”); e (2) a conseqüen- te ampliação de seu vocabulário, que ocorre de forma rápida e aos saltos. (VYGOTSKY, 1989 p.37).

A partir desse encontro tem-se a impressão de que a criança descobriu a fun- ção simbólica das palavras. Vygostky (1989) ressalta que essa descoberta, só é possível quando a criança já atingiu um nível relativamente elevado do desenvolvi- mento do pensamento e da fala, ou seja, a fala não pode ser “descoberta” sem pen- samento.

Ao abordar o desenvolvimento intelectual e lingüístico das crianças, Vygotsky desenvolve o seu tema relacionado à interiorização do diálogo em fala interior e pensamento. Opõe dessa forma seu ponto de vista ao então adotado por Piaget, que considera o desenvolvimento da fala como a supressão do egocentrismo, forne- cendo, assim, tanto à psicologia quanto à lingüística, a mais profunda análise da fala interior.

Para entender a fala interior, Vygotsky (1989) parte das investigações sobre o desenvolvimento da fala e percebe que ela obedece às mesmas leis que o desen- volvimento de todas as outras operações mentais, que envolvem o uso de signos. Estabelece, a partir de então, quatro estágios para o desenvolvimento dessa opera- ção:

Figura 8: Diagrama do desenvolvimento da fala

Fonte: Formulação da autora com base em Vygotsky (1989).

Pode-se dizer que a fala interior se desenvolve mediante um lento acúmulo de mudanças estruturais e funcionais, que se separa da fala exterior das crianças ao

mesmo tempo em que ocorre a diferenciação das funções social e egocêntrica10 da

fala; e, finalmente, que as estruturas da fala dominadas pela criança tornam-se es- truturas básicas de seu pensamento.

A fim de estabelecer um panorama mais claro sobre as relações entre pen- samento e fala, Vygotsky criou um diagrama, em que torna visual sua explicação teórica.

“Podemos imaginar o pensamento e a fala como dois círculos que se cru- zam. Nas partes que coincidem, o pensamento e a fala se unem para pro- duzir o que se chama de pensamento verbal. O pensamento verbal, entre- tanto, não abrange de modo algum todas as formas de pensamento ou fala. Há uma vasta área do pensamento que não mantém relação direta com a fala. O pensamento manifestado no uso do instrumento pertence a essa á- rea, da mesma forma que o intelecto prático geral.” (Vygotsky, 1989 p.41)

Figura 9: Diagrama das relações entre pensamento e fala. Fonte: Formulação da autora com base Vygotsky (1989 p.41).

É no significado da palavra, que o pensamento e a fala se unem em pensa- mento verbal. Se o significado das palavras se altera em sua natureza intrínseca, então a relação entre pensamento e a palavra também se modifica.

Segundo Vygotsky (1989 p. 108), a relação entre pensamento e a palavra não é uma coisa, mas um processo, um movimento contínuo de vaivém do pensamento para a palavra e vice-versa. Nesse processo, a relação entre o pensamento e a pa- lavra passa por transformações que, em si mesma, podem ser consideradas no de- senvolvimento funcional. O pensamento não é simplesmente expresso em palavras; é por meio delas que ele passa a existir. Cada pensamento tende a relacionar algu-

10 Fala egocêntrica ou discurso egocêntrico é o discurso da criança quando dialoga alto consigo pró- pria, quando “fala sozinha” (ou pensa alto). É também o ponto de divergência teórica entre Vygotsky e Piaget. (Oliveira, 1997)

FALA PENSAMENTO

PENSAMENTO VERBAL

FALA

ma coisa com outra, a estabelecer uma relação entre coisas. Cada pensamento se move, amadurece e se desenvolve, desempenha uma função, soluciona um proble- ma. Esse fluxo de pensamento ocorre como um movimento interior através de uma série de planos.

Portanto, “para compreender a fala de outrem não basta entender as suas pa- lavras – temos que compreender o seu pensamento. Mas nem mesmo isso é sufici- ente – também é preciso que conheçamos a sua motivação”. (Vygotsky, 1989 p.130, grifo meu)

Nessa teoria, o ensino representa, o meio através do qual o desenvolvimento avança. Em outras palavras, os conteúdos socialmente elaborados do conhecimento humano e as estratégias cognitivas necessárias para sua internalização são evoca- dos nos aprendizes segundo “seus níveis reais de desenvolvimento”. Uma aplicação particularmente imaginativa desse princípio foi observada nas campanhas de alfabe- tização desenvolvidas por Paulo Freire, que adaptou seus métodos educacionais ao contexto histórico e cultural de seus alunos, possibilitando a combinação de seus conceitos “espontâneos” (aqueles baseados na prática social) com os conceitos in- troduzidos pelos professores na situação de instrução. (Steiner e Souberman IN: Vygotsky 1991)

1.2.3.2. Vygotsky e Freire uma relação possível

Embora Vygotsky e Freire tenham vivido em tempos e hemisférios diferentes, a abordagem de ambos enfatiza aspectos fundamentais, relativos à mudanças soci- ais e educacionais que se interpenetram. Um princípio básico das duas obras é a- quele da educação como uma prática ético-política. Alguns pontos de aproximação são percebidos entre as duas obras como: a concepção de sujeito histórico-cultural subjacente às duas teorias, a perspectiva interativa dos dois autores, a proposição da educação como um ato dialógico, a noção da construção do conhecimento de ambos e a concepção de educação. Enquanto Vygotsky enfoca a dinâmica psicoló- gica, Freire se concentra no desenvolvimento de estratégias pedagógicas e sociais e na análise da linguagem.

VYGOTSKY FREIRE EDUCAÇÃO COMO UMA PRÁTICA ÉTICO-POLITICA CONCEPÇÃO DO SUJEITO HISTÓRICO- CULTURAL CONCEPÇÃO DE EDUCAÇÃO PARA A LIBERTAÇÃO CONCEPÇÃO INTERATIVA DE DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL E SOCIAL CENTRALIDADE DO DIÁLOGO NA AÇÃO PEDAGÓGICA EDUCAÇÃO COMO UM ATO DIALÓGICO CONHECIMENTO CIENTÍFICO COMO PONTO DE CHEGADA NECESSIDADES POPULARES CONHECIMENTOS ESPONTANEOS ESCOLA COMO FUNÇÃO PARA TRANSFORMAR A SI MESMO E Á SOCIEDADE

Figura 10: Diagrama das relações teóricas entre Vygotsky e Freire Fonte: Formulação da autora com base em Marques e Oliveira (2005)

RELATERTE DOKUMENTER