Segundo Guerra (1984), a Medicina foi aos poucos incorporando conhecimentos de outras áreas no estudo deste fenômeno, ao mesmo tempo em que se integrou em trabalhos interdisciplinares.
A compreensão dessa violência, de acordo com vários estudos, leva a refletir sobre vários fatores de risco que, quando associados, principalmente com o abuso de álcool e de outras drogas, além do desemprego, provocam conflitos familiares, desencadeando um descontrole e consequente agressão contra criança, principalmente.
Mrazek e Haggerly (1994) definem fatores de risco como:
Características, variáveis ou riscos que, se presente para um dado indivíduo, tornam mais provável que ele, mais do que outro qualquer, desenvolva um distúrbio (ou problema). Para qualificar um fator de risco, no entanto, a variável deve estar profundamente associada ao distúrbio e precisa ser antecedente ao mesmo.
Os autores referem ainda que as variáveis que podem ser fatores de risco em um estádio da vida podem colocar ou não um indivíduo em risco em outro estádio do desenvolvimento. Alguns fatores de risco têm papel causal, enquanto outros marcam ou identificam o potencial para o distúrbio.
Alguns fatores de riscos talvez sejam específicos para determinado tipo de violência, no entanto, geralmente há fatores de risco comuns. Normas culturais predominantes, como pobreza, isolamento social, e fatores, como o abuso de álcool e de outras drogas, e o acesso a armas de fogo, são fatores de risco de mais de um tipo de violência (DAHLBERG; KRUG, 2007).
Segundo Tavares (2006), o isolamento social é considerado fator de risco para a violência familiar contra qualquer pessoa da família, assim como as relações estabelecidas com vizinhos, amigos, parentes e instituições próximas conforma uma rede de apoio social que os protege.
Para alguns autores, quanto mais fatores de risco uma família apresenta, maior a probabilidade de a criança vir a sofrer algum tipo de violência. Brown et al (1998), referindo a essa questão, expressam que, se a taxa de abuso de crianças for de 3% na ausência de fatores de risco, esta sobe para 24%, quando quatro ou mais fatores de risco estão presentes.
Conforme Kipper (1999, p. 2), os fatores de risco infantis para a violência incluem: crianças não planejadas; sexo diferente do desejado; crianças “diferentes”, recém-nascidos prematuros, malformados, de baixo peso ao nascer, com algum tipo de deficiência física ou mental, com doenças frequentes ou graves; crianças “difíceis”, hiperativas, apáticas, irritadiças e com distúrbios da alimentação e do sono.
Esclarece ainda que criança que está em fase difícil de desenvolvimento (cólicas do lactente, choro noturno ou treinamento dos esfíncteres); meninos (mais que meninas) até a adolescência, crianças adotadas ou sob guarda, crianças separadas da mãe ao nascer ou com falta de vínculo parental nos primeiros dias de vida, também estão incluídas em fatores de risco.
Souza e Mello Jorge (2006) referem que o consumo de drogas lícitas (álcool) e ilícitas (maconha, cocaína e outras) e o uso de armas de fogo têm relação de mão dupla com a violência que ocorre com crianças e jovens.
Bringiotti (2000) expressa que, para que a violência ocorra, torna-se necessária a presença de fatores de risco específicos à violência e vulnerabilidade, podendo-se, portanto, compreender por que em muitos casos os fatores de risco estão presentes e a violência não ocorre. Verifica-se que famílias vulneráveis podem ser protegidas por políticas sociais adequadas, prevenindo a violência.
A autora classifica os principais fatores de riscos conforme o nível em que se situam:
Fatores individuais - concernentes aos pais − história de violência na infância, agressividade, baixa tolerância à frustração, expectativas inapropriadas a respeito da idade dos filhos, imaturidade emocional, baixa auto-estima, pobres habilidades interpessoais, falta de capacidade empática, desordens psicológicas, baixa tolerância ao estresse e baixo coeficiente intelectual.
Fatores individuais - concernentes aos filhos − nascimento prematuro, baixo peso ao nascer, problemas físicos ou psíquicos, hiperatividade, temperamento difícil, passividade, enfermidades freqüentes e severas, problemas de sono e alimentação.
Interação familiar − envolvendo a relação familiar e filhos: agressividade física e verbal, técnicas de disciplina coercitivas e/ou negligentes, ciclo ascendente de conflito e agressão, problemas de comunicação.
Fatores sociais − desemprego, problemas econômicos, insatisfação com o trabalho, tensão no trabalho, isolamento social, falta de apoio social, condições de moradia inadequada, escassez de oportunidades educativas e vizinhança de alto risco (violência no bairro).
Fatores culturais − aceitação do castigo corporal dos filhos, valores e atitudes negativas à infância e à maternidade/paternidade, aprovação cultural do uso de violência.
Para a OMS (2006), os fatores de risco que contribuem para a violência resultam na interação entre a qualidade dos relacionamentos familiares e o estresse ou pressão de fatores externos sobre a família, ou características dos membros da família.
Para essa organização, os fatores relacionados à criança são: idade, gênero e outras características, como, por exemplo, crianças portadoras de deficiência. Em relação à família, cita as condições socioeconômicas dos pais, estresse e isolamento social, perda ou separação dos pais e exposição à violência do parceiro íntimo dentro do lar. Quanto aos fatores societais e culturais, refere o autoritarismo, atitudes patriarcais e o fato de pertencer a grupos de minoria étnica ou indígenas.
A violência familiar é percebida, portanto, como resultado de características individuais, contextuais e ambientais que, se presentes, aumentam os riscos.
Pires (1999) acrescenta outros fatores, como gravidez na adolescência, promiscuidade dos pais, falta de apego e multigeracionalidade.
A multigeracionalidade, segundo Caminha (1999), é um fenômeno pelo qual crianças expostas à violência doméstica, de modo repetitivo e intencional, se tornam adultos que submeterão crianças às mesmas experiências pelas quais já passaram.
A multigeracionalidade é de grande preocupação, principalmente para um país como o Brasil, onde a realidade social, incluindo a falta de assistência para crianças e famílias “vitimizadas” ou que vivem em situação de violência, o baixo nível de qualidade de vida de grande parte da população e o alto índice de violência urbana, principalmente nas grandes cidades, contribuem para o desencadeamento de tal fator.