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Depois de dez dias de viagem navegando pelas águas do Rio São Francisco rio abaixo, chegamos à comunidade de Pau Preto, o nosso último ponto da expedição. Tivemos a oportunidade de participar de um ato de autodemarcação de território liderado pelo grupo “Vazanteiros em Movimento” (foto 17).

Encontramos com pessoas que estavam passando por um intenso processo de luta pela conquista de suas terras. Reivindicavam um lugar para morar e plantar. Vivenciamos um momento histórico para a comunidade, a afirmação dos seus limites territoriais. Trazemos abaixo o registro das falas dos líderes da Associação e o exato momento em que foi fincado o primeiro marco de autodemarcação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Pau Preto.

Meu nome é natalino, vice presidente da Associação dos Vazanteiros em Movimento – Ilha pau de Melo, e estamos apoiando Pau Preto com seu trabalho, sua auto demarcação, chamando para a nossa responsabilidade também. Por que também temos que fazer o mesmo né. Nós remarcamos e aguardamos que em poucos dias nós também estamos fazendo a

Foto 17: Grupo Vazanteiros em Movimento, comunidade Pau Preto/MG. A foto registra o momento da auto demarcação de seus territórios, com a participação ativa de todos da comunidade (homens, mulheres e crianças) cantando, dançando e emitindo palavras de ordem.

demarcação de nosso território também. Por isso nós viemos apoiar, com o propósito de formação de uma união com o irmão, sentindo a dificuldade uns dos outros. Então nós com muita dificuldade estamos lutando, fincando um marco que representa Pau Preto e ao sentar esse marco aí, nós esperamos com certeza que nosso irmão estará com sua liberdade de escolher o que tem de melhor para suas vidas.

Boa tarde a todos. Meu nome é José Antônio da Silva, mais conhecido como Zé alagoano, é eu sou o Presidente da Associação dos Vazanteiro aí de Pau Petro, Vazanteiro em Movimento né. Foi uma maravilha que logo hoje que nós achamos de fazer a auto demarcação, contar com o pessoal aí da Unimontes que chegou de viagem. Que coincidência né. O pessoal de Itacarambi. A gente agradece a presença de todos. Eu quero dizer que vocês sejam bem vindos a nossa comunidade.

Após estas falas todos os presentes se apresentam e manifestam apoio a luta dos Vazanteiros em Movimento. Logo em seguida o senhor Zé Alagoano retoma a palavra para iniciar o ato simbólico de autodemarcação.

O prazer é imenso. Eu fico emocionado não sei nem como falar do primeiro marco que nós vamos fincar com esta auto demarcação. Então, pra mim é uma emoção muito grande. A gente tá resgatando o nosso território. A gente fica emocionado que não sabe nem o que falar mais. Se a gente errar em alguma coisa vocês desculpe por que a emoção é grande. Essa é uma idéia muito sonhada, por que vem desde 2006. Nós já apresentamos cinco.... Então nós já fez cinco proposta, recebemos uma contra proposta agora em 2010. Só que aí veio as políticas, passaram as eleição, tornaram quetar, não falaram mais nada. Então agora nós achou que nós deveria tomar posse do que eles estão acabando. A nossa idéia é cuidar de umas casas que era a antiga sede da Caltela. Por isso hoje, no dia 23 para o dia 24, as quatro horas da manhã nós tomamos essa atitude e ocupamos a ex sede da fazenda Caltela. Onde a gente achou vários descaso, que nós mora em situação precária e não podemos fazer uma casa com dignidade para morar por que o IEF não deixa. O meio ambiente não deixa. A polícia do Meio Ambiente. E onde nós pegou, num lugar que tem casa boa, que vocês vão apreciar um pouco. Um criatório de porco grande. É um descaso. Então por isso que nós acho que nós deveria ocupar, e tomar providência e zelar pelo patrimônio que é nosso. Então por isso que nós vamos fincar o primeiro marco agora em presença desse povo maravilhoso que veio até aqui, fazendo esse grande esforço, para apreciar um pouco essa história. Essas são minhas palavras. Eu agradeço a todos e que vocês sejam bem vindos a nossa comunidade.

Viva os vazanteiros! Viva! Vazanteiros em Movimento viu gente! Viva!

(palmas)

Está aqui o primeiro marco da auto demarcação da RDS Pau Preto. Vazanteiro em Movimento! Vazanteiro e Quilombola! Unidos jamais serão vencidos!

Depois de fincado o primeiro marco, todos da comunidade bateram palma e tocaram tambores, em seguida cada um jogou um pouco de terra no marco, que segundo o senhor Zé Alagoano era “para dar mais energia” ao movimento, ao grupo. Na presença de todos foram lidas as principais regras de uso e ocupação do território. Caminhamos até o ponto do segundo marco, onde o ritual foi repetido.

Depois desse momento os integrantes da comunidade se deslocaram para a sede da fazenda ocupada e a nossa equipe de pesquisadores retornou para a barca Tainá. A noite fomos convidados a nos juntar novamente ao grupo para participar da festa de comemoração. Rezou-se um terço como forma de agradecimento aos santos, logo em seguida distribuíram comida para todos os participantes e começou um alegre batuque, ao toque de tambores e sapateados.

Esse foi mais um grande exemplo de força e garra dos povos do rio que batalham para seguirem vivendo perto de suas terras e águas.

Passamos a noite acampados em uma crôa localizada bem próxima a comunidade de Pau Preto. Na manhã do dia seguinte retomamos de barco até a cidade de Manga onde encerramos a nossa expedição.

Cada pesquisador seguiu por terra até o seu destino de origem levando na bagagem as lembranças de dias inesquecíveis. Ficou a certeza de que vivemos e conhecemos pessoas únicas que jamais poderíamos ter encontrado em qualquer outra situação de pesquisa. Foi o Rio São Francisco que conduziu a nossa viagem. Agora é tempo de tecermos reflexões sobre tudo o que vimos, coletamos, vivenciamos e anotamos.

Afinal, a grande viagem é a volta.