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Beatriz Coelho

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Metodologia

A Pesquisa foi desenvolvida durante um período de três anos, com o apoio financeiro do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). Para sua realização, contei com a colaboração do historiador Marcos César de Senna Hill, de várias bolsistas concedidas por essas instituições2 e o apoio do Centro de Conservação e Restauração da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Como restauradora, utilizei como fonte primária os retábulos com documentos comprobatórios e retábulos com coroamentos em forma de arbaletas3de onze cidades históricas de Minas Gerais, submetendo-os a análises formais e estilísticas. A pesquisa foi iniciada por um levantamento dos documentos existentes no Arquivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), no Rio de Janeiro, e de livros e artigos que fazem referência a este importante escultor, especificamente o de Zoroastro Vianna Passos4, e de Adriano Ramos5além de outros autores, como Cônego Raimundo Trindade, Myriam Andrade Riberio de Oliveira, Germain Bazin, Judith Martins, Eduardo Pires de Oliveira além de dois novos livros, sobre o autor e região onde morou e trabalhou, lançados recentemente pela Universidade Federal de Minas Gerais6. Consultamos, também, o Anuário do Museu da Inconfidência, que traz a transcrição do seu testamento, o Arquivo da Casa de Borba Gato, em Sabará, e o Inventário de Bens Móveis e Integrados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Fizemos, especialmente, análise de retábulos sobre os quais existe documentação que assegure a execução por Servas ou que a ele são atribuídos.

1Conservadora/restauradora, pesquisadora, professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail:

[email protected]

2Moema Nascimento Queiroz, Nilza da Silva Moraes, Jeaneth Xavier de Araújo, Josefina Renata Prieto Boscán, Soraya

Lages e Tatiana Lúcia dos Santos.

3Termo usado pela historiadora brasileira, Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira (1978), para designar sinuosidade que

lembra um arco medieval e que foi empregada por Francisco Vieira Servas nos coroamentos dos seus retábulos.

4Em torno da história de Sabará(Iphan, 1940).

5Francisco Vieira Servas, escultor português em Minas Gerais(2002).

As cidades visitadas foram: Catas Altas, Caeté, Sabará, Congonhas, Mariana, Barra Longa, Belo Vale, Itaverava, Itatiaia, Nova Era, Rio Piracicaba e São Domingos do Prata. Documentamos os trabalhos estudados através de anotações, fotografias, gravações de áudio e vídeo, gráficos e desenhos e inserimos os resultados em um banco de dados informatizado, tendo empregado, para comparações, os aplicativos, Photoshop e Power Point.

A base da pesquisa foi o retábulo-mor de Nossa Senhora do Rosário, de Mariana (1770/75), e os retábulos de São Simão Stock (1778) e o da capela-mor da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, de Sabará (1806/09), todos com documentação comprobatória da autoria de Francisco Vieira Servas. Também entraram em nossos estudos os altares colaterais do Rosário, de Mariana, e o de São João da Cruz, aceitos por quase todos os estudiosos como de sua autoria. A Igreja Matriz de Catas Altas também fez parte de nossos estudos, onde Servas, comprovadamente, recebeu pagamentos como entalhador em 1753, 57 e 59, pela irmandade do Santíssimo Sacramento, responsável pela construção da igreja (MARTINS, 1974) embora, nos documentos até hoje conhecidos, não sejam especificadas exatamente as obras de sua autoria nesta matriz.

Além dos altares citados, foram examinados e documentados os retábulos da Matriz de Santo Antônio, em Itaverava, o da Matriz de São José da Lagoa, em Nova Era, o retábulo-mor da Basílica do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, dois da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Sé de Mariana e também os do Seminário Menor de Nossa Senhora da Boa Morte, e o da Confraria do Cordão de São Francisco, e o altar-mor da Igreja de São Francisco de Assis desta mesma cidade, o de Nossa Senhora da Piedade e do Sagrado Coração de Jesus, na Igreja de Nossa Senhora Mãe dos Homens, no Caraça, em Catas Altas, perfazendo, 18 retábulos.

Dados biográficos

Francisco Vieira Servas era filho de Domingos Vieira e de Teresa Vieira. Foi batizado no dia 22 de janeiro de 1720, em um lugar chamado Servas, da freguesia de Eira Vedra, conselho de Vieira, comarca de Guimarães, arcebispado de Braga, no Minho, Norte de Portugal.7Servas provavelmente chegou no Brasil antes de 17538. Esta conclusão baseia-se em documentos mencionados por Judith Martins com referência a pagamentos que Servas recebeu em 14 de outubro de 1753, por sua participação nos trabalhos da igreja matriz de Catas Altas9. De acordo com seu testamento, Vieira Servas era branco, solteiro, e morreu sem deixar herdeiros. Morou em Catas Altas e em Vila Nova da Rainha, atualmente Caeté, onde foi irmão remido da Irmandade das Almas, e também em São Miguel do Piracicaba, hoje Rio Piracicaba, onde faleceu em 12 de julho de 1811, com 91 anos10. Foi enterrado em um túmulo, “do arco cruzeiro para a frente”11 na capela principal de São Domingos do Prata, que, construída em 1768, foi demolida 1840, reconstruída e demolida outra vez em 1960, tendo sido substituída por uma igreja nova, não restando, no local, nada da antiga igreja nem do cemitério.

Servas era o dono de uma fazenda em São Miguel do Piracicaba e tinha também metade de outra fazenda em São Domingos do Prata, muito próximo ao Ribeirão de São Nicolau, que

7Documento encontrado em Portugal pelo historiador português Dr. Eduardo Pires de Oliveira. 8COELHO, Beatriz. 2001.

9MARTINS, Judith. Dicionário de artistas e artífices dos séculos XVIII e XIX em Minas Gerais.

10Testamento (09 de julho de 1809) e atestado de óbito (17 de julho de 1811) de Francisco Vieira Servas e Livro de

óbitos da freguesia de São Miguel do Piracicaba, fls. 308v. e segs. Arquivo Histórico do Museu do Ouro, Sabará, MG.

ENTRE ARBALETAS, CORAÇÕES FLAMEJANTES E SÍMBOLOS EUCARÍSTICO […]

ele compartilhou com Juliana Maria Alves citada no testamento, mas sobre a qual não temos informação. Esta fazenda era conhecida como "Fazenda do Servas" mas seu nome mudou com o passar do tempo para "do Selvas". Em março de 1997, entrevistei a senhora Anita Alves Torres, moradora em São Domingos do Prata, que foi dona dessa fazenda, tendo nela morado durante quarenta anos. Ela desconhecia completamente quem tinha sido Francisco Vieira Servas e a razão do nome da fazenda. Nessa ocasião, a placa com o nome da fazendo era “Fazenda da Selva”. O lugar corresponde exatamente à descrição feita por Servas em seu testamento e a casa ainda existe em ótimo estado de conservação, porém bastante ampliada e modificada. Não foi possível encontrar nela nenhuma talha ou objeto que confirmasse a informação de ter morado ali um entalhador e escultor.

Os retábulos

Os retábulos sobre os quais já são conhecidos recibos de pagamentos ao entalhador e escultor Francisco Vieira Servas são três: o altar-mor da capela de Nossa Senhora do Rosário, de Mariana (1770/75) (Fig. 1), o colateral do lado do Evangelho (1778) Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, de Sabará e o retábulo-mor da mesma capela. (1806/09). Os três são em estilo rococó, com predominância da verticalidade e pintura branca com elementos em dourado. O retábulo do Rosário de Mariana tem grande arbaleta com rocalhas flamejantes nas laterais e lambrequins, estando inserida em um arco pleno; apresenta quatro grandes anjos no coroamento segurando uma tarja, com o monograma, A M, e vários querubins no sacrário. Ao contrário, o colateral de São Simão Stock (lado do Evangelho) não tem elementos antropomorfos ou zoomorfos, mas tem a arbaleta com lambrequins sob uma sanefa e o retábulo-mor tem apenas alguns querubins fazendo parte dos quartelões. Cada retábulo é formado por dois quartelões e duas colunas retas com fuste estriado, sendo que o do altar-mor de Sabará tem curvas sinuosas na base. O coroamento dos três é em forma de arbaleta com lambrequins e rocalhas flamejantes (Fig. 2), inseridas em um arco pleno, mas o altar-mor de Sabará tem forma facetada, para adaptação ao teto da capela-mor.

Os três têm ao centro um camarim contornado por renda, trono escalonado, onde está entronizado o orago, que é a imagem principal. Entre as colunas e os quartelões há nichos para imagem menores, com mísula trabalhada e coifa em forma de elmo. As mesas do retábulo de Mariana e o de São Simão Stock têm frontal reto, mas a do altar-mor do Carmo, de Sabará, é abaulada, com curva côncavo-convexa, dividida em três partes tendo, ao centro, um medalhão, cercado por duas palmas, com rocalhas alongadas e esgarçadas nas divisões laterais. Os sacrários são ladeados também por esse tipo de rocalhas. Na porta do sacrário de Mariana há a representação do cordeiro (Agnus Dei) sobre o Livro dos Sete Selos (previsões do Apocalipse) e os de Sabará têm esculpidos um coração côncavo-convexo, envolvido por coroa de espinhos tendo, na parte superior, três pequenos tubos, à maneira de artérias, de onde saem uma cruz no meio (Cristo), no lado direito da cruz uma espada (Nossa Senhora das Dores) e no lado esquerdo um lírio (São José). Os corações estão sobre três nuvens em forma de espiral e cercados por chamas e raios. O motivo é o mesmo, mas a forma não é exatamente igual.

Fig. 1 - Retábulo-mor, Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário. Mariana.

Encomenda a Francisco Vieira Servas, 1770, entrega,1775. (Fotografia da autora)

Fig. 2 - Coroamento do retábulo-mor da Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário de Mariana.

ENTRE ARBALETAS, CORAÇÕES FLAMEJANTES E SÍMBOLOS EUCARÍSTICO […]

Os retábulos colaterais do “Beato Benedito de Palermo”12e de Santa Efigênia, da Capela de Nossa Senhora do Rosário, de Mariana e o de São João da Cruz, na Capela de Nossa Senhora do Carmo, de Sabará, são atribuídos a Francisco Vieira Servas por praticamente todos os estudiosos, embora o de São João da Cruz seja atribuído, por Myriam Ribeiro (2005), ao Aleijadinho. Não encontrei motivo para essa atribuição, uma vez que o Aleijadinho utilizou representações antropomorfas, que não se encontram nesse retábulo e não empregou arbaletas, constantes nos retábulos que pesquisamos.

Esses retábulos têm estrutura e elementos ornamentais muito semelhantes: verticalidade, predominância do dourado sobre fundo branco, elementos ornamentais fitomorfos e nenhum antropomorfo ou zoomorfo; todos possuem arbaletas e sanefas, mas as de Mariana com formato diferente das de Sabará. Os tronos são escalonados, os de Sabará com dois níveis e o de Mariana quatro, ornamentados com folhas de acanto douradas. Os de Mariana não têm colunas nem nichos laterais encontrados nos de Sabará, possivelmente, por serem mais estreitos. Os sacrários são muito semelhantes nas suas formas, mas, enquanto os de Sabará têm representação do coração em chamas, os de Mariana têm símbolos eucarísticos: três ramos de trigo (o pão) e três de uvas (o vinho). Estas últimas representações estão colocadas espelhadas e voltadas para a capela-mor. É importante frisar que, nos sacrários com representação de coração em chamas as formas são semelhantes, mas não repetitivas, o que não acontece com os de representação eucarística, bastante repetitivos, podendo ter sido feitos por auxiliares ou aprendizes. Na policromia de todos predomina dourado sobre pintura branca e no mor, de Sabará, o azul cobalto, não encontrado em outros altares estudados.

Em cinco outros retábulos examinados, como os de São Pedro e Santa Cecília na Catedral de Mariana, o de São Miguel e o de São José, em Itaverava, o de Sant’Ana, em Itatiaia, encontramos formas e características semelhantes, mas não idênticas. Entretanto, a estrutura geral dos de Mariana é reta, enquanto nos outros três é curva. Todos têm arbaletas com lambrequins inseridas em arcos plenos no coroamento, colunas e quartelões para sustentação, porém os dois de Mariana com colunas torsas, (fase de transição do estilo Dom João V para o rococó) e nos outros, colunas retas e estriadas. Os de Mariana sem nichos laterais, encontrados nos outros três, devendo, possivelmente, terem sido idealizados e construídos em épocas próximas, Outra semelhança importante é a policromia, com predominância de azul claro e dourado em vez do branco, notando-se, nos de Itaverava e no de Itatiaia, o aparecimento do marmorizado em vermelho; os tronos dos cinco são escalonados mas não são iguais; os sacrários são semelhantes em suas formas, porém nos de Mariana predomina a horizontalidade, tendo, no de Santa Cecília, a representação do cordeiro sobre o Livro dos Sete Selos, no de São Pedro, um cálice cercado de querubins e nos de Itaverava, ramos de trigo e de uvas como nos colaterais do Rosário de Mariana e o de Itatiaia um cálice, mas sem querubins. Os nichos laterais de São Miguel e o de São José, de Itaverava e o de Sant’Ana, de Itatiaia, têm mísulas semelhantes e coifa em forma de elmo.

A Matriz de Caeté tem um retábulo principal, de Nossa Senhora do Bom Sucesso, cujo arrematante foi José Coelho de Noronha, um dos introdutores do estilo rococó em Minas Gerais, e oito altares na nave. Dois colaterais, sendo os do lado do Evangelho o de Nossa Senhora das

12Assim está escrito no relicário que tem sobre o peito da imagem, o que indica que ela foi feita antes de 1807, ano da

Dores e no lado da Epístola, o de Nossa Senhora do Rosário e seis laterais: São Miguel, Nossa Senhora do Carmo e de Nossa da Conceição e, no lado do Evangelho e os de Nossa Senhora da Apresentação, Santo Antônio de Pádua e o de São Francisco de Paula no lado da Epístola. Ainda não foi encontrado documento que comprove a participação de Vieira Servas, mas ele morou nesta cidade e, como consta do testamento, era irmão remido da Irmandade de São Miguel desta Matriz. Concluímos, por isso, que certamente ele teria trabalhado ali.

Todos têm predomínio da verticalidade e com policromia em branco com rocalhas e motivos fitomorfos em dourado. Os de Santo Antônio, Nossa Senhora da Conceição e de São Miguel têm colunas torsas e quartelões, coroamento em arcos plenos com representação do Divino Espírito Santo na parte central, com cartela sustentada por dois anjos. Os três têm tronos escalonados e nichos laterais com fundo em seda fingida, figuras de anjos, mísulas trabalhadas com dourados e coifas em formas que lembram elmos.

Na nave, há dois retábulos com arbaletas, que são o de Santo Antônio e o de Nossa Senhora do Carmo, ambos com quartelões, porém sem colunas; nichos laterais com mísula, coifa em forma de elmo e fundo em seda fingida; cada um com esculturas fazendo parte da ornamentação. Esses dois retábulos são atribuídos a Antônio Francisco Lisboa, por OLIVEIRA (2005)13.

Mesas dos retábulos

Os retábulos de Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora da Conceição, São Francisco de Paula, São Miguel, Nossa Senhora do Carmo e Santo Antônio, da matriz de Caeté (os dois últimos com arbaleta no coroamento), têm também duas características comuns, que não foram ainda devidamente analisadas: os frontais das mesas desses altares são abaulados, com três divisões: no centro, um medalhão em baixo relevo e inscrições em dourado sobre cor branca, cercado por duas palmas. Nas divisões laterais estão entalhadas duas rocalhas alongadas e esgarçadas, também em dourado sobre fundo branco. Em alguns, as divisões são em relevo com pintura marmorizada em azul e vermelho (Fig. 3). O de Santo Antônio e o de Nossa Senhora do Carmo têm as mesmas divisões, mas são menos requintados que os demais.

Fig. 3 – Frontal da mesa do retábulo de Nossa Senhora das Dores. Madeira policromada com três divisões no

sentido horizontal. Matriz de Caeté, 1758/65. (Fotografia da autora)

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Portas dos sacrários

Todos os sacrários da Matriz de Caeté têm as portas com representação de corações côncavos e flamejantes com coroa de espinhos, tendo, na parte superior uma cruz, no lado direito da cruz uma espada e no esquerdo um lírio. O coração está colocado sobre nuvens espiraladas que lembram caracóis; em volta da representação há geralmente raios luminosos em dourado (Fig. 4). A exceção é o de o de Nossa Senhora da Conceição, que tem sacrário diferente e sem porta.

Essas representações do coração em chamas são encontradas também nos retábulos de São João da Cruz (anterior a 1778), São Simão Stock (1778), no mor de Nossa Senhora do Carmo (1806/09), e de Nossa Senhora do Pilar (todos de Sabará, sendo os dois primeiros de autoria de Francisco Vieira Servas comprovada por recibos de pagamentos) e também o de São José da Lagoa, em Nova Era, o de Nossa Senhora da Piedade, na Casa do Caraça, em Catas Altas e o de São Gonçalo do Rio Acima. Em nenhum deles, com esse motivo, a representação é idêntica. A simbologia é a mesma, mas a forma tem variantes, mostrando que o artista, ou seus auxiliares, não se repetiam.

Os retábulos colaterais, como os de Nossa Senhora do Rosário, os do Seminário Menor e o da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco, todos em Mariana, e os de São Miguel e de Santo Antônio, em Itaverava, têm arbaleta, e na porta do sacrário, uma representação símbolo da Eucaristia, que são três ramos de trigo (o pão) um ramo com cachos de uvas (o vinho) amarrados por um laço de fita com uma espécie de X na frente (Fig. 5). Ainda em Itaverava o altar lateral do Bom Jesus, tem um coroamento próximo de uma arbaleta com a porta do sacrário com a mesma representação. Diferentemente dos corações em chamas, essa talha nas portas com símbolo eucarístico é bem repetitiva e pode ter sido feita por algum aprendiz. Os dois colaterais do Rosário, de Mariana, do Beato Benedito e de Santa Efigênia, como o de São José, de Itaverava, têm essas representações espelhadas, com as representações da Eucaristia voltadas para a capela-mor, porém o de São Miguel de Itaverava não está voltado para a capela-mor, e o do lado da Epístola, do Seminário Menor de Mariana, foi colocado de cabeça para baixo.

Fig. 4 (esq.) e 5 (dir)- Porta do sacrário do retábulo colateral de São Simão Stock

(1778), da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, de Sabará, com representação de coração em chamas com cruz, espada e lírio; Porta de sacrário com símbolos Eucarísticos: ramos de trigo (pão) e de uvas (vinho). Retábulo colateral de Santa Efigênia. Igreja de Nossa

Senhora do Rosário de Mariana.1770/75. (Fotografias da autora)

É importante relatar que encontramos, na Igreja Matriz de Santo Antônio, em Santa Bárbara, dois retábulos da primitiva igreja e em estilo Dom João V, com a mesma representação, porém com mais qualidade e naturalidade que os encontrados nas portas de sacrários de retábulos que são atribuídos, ou atribuíveis, a Francisco Vieira Servas. Há outro retábulo em Itaúna, portanto, fora das cidades em que ele viveu ou trabalhou, mas com representação idêntica. Que relação teria nosso entalhador com esses retábulos? A cidade de Santa Bárbara está próxima de Caeté, Catas Altas, mas Itaúna fica em outra região.

Elementos ornamentais

Além de coroamentos em forma de arbaleta são comuns a todos os retábulos analisados: colunas torsas em alguns (possivelmente os mais antigos) e retas e estriadas em outras, quartelões com volutas salientes e com rocalhas, rendas recortadas contornando camarins, lambrequins pendendo das arbaletas e, em alguns casos também na parte superior dos sacrários; nichos laterais com coifas em forma de elmos, rocalhas flamejantes e esgarçadas, elementos fitomorfos, como guirlandas verticais, cantos das mesas com relevos importantes. Em quase todos encontramos mesas abauladas com divisões mais ou menos decoradas, e portas de sacrários que se repetem nos motivos, como no caso dos corações em chamas ou com ramo de uvas e trigo, estes com formas repetitivas. A surpresa foi encontrar, no retábulo colateral de São Simão Stock, no Carmo, de Sabará, escondido por uma mesa reta, com pintura muito simples imitando uma toalha de altar, e igual a de São João da Cruz, um outro frontal, reto, porém com ornamentos em relevo, que lembram bastante os de outros frontais encontrados na pesquisa.