A professora P1, na época em que cursou o Ensino Médio, o fez com ênfase na área de Ciências Biológicas114 e, depois, concluiu o Magistério (1986). Hoje, tem Licenciatura em Pedagogia, concluído em 2011 e, apesar de lecionar há mais de vinte anos no magistério estadual, não é efetiva nem concursada. Trabalha no regime de contrato temporário e, por esse motivo, não participa do processo de atribuição de aulas nas escolas onde leciona, e tem aulas atribuídas depois do início do ano letivo na Delegacia de Ensino.
Igualmente, ela não está presente ao planejamento de ensino para o ano letivo junto com as demais professoras. Durante os anos de magistério, tem participado de cursos de capacitação (formação continuada de curta duração) somente na área de alfabetização em Língua Portuguesa. Em 2013, ela lecionou para uma turma de 2º ano como professora polivalente de Língua Portuguesa e Matemática, em virtude da grade curricular oficial.
114 Durante a década de 1980 e 1990, diversos sistemas de ensino adotaram políticas públicas, cujo modelo
de ensino ofertado no Ensino Médio (anteriormente denominado de 2º grau) era dividido em três áreas do conhecimento: Humanas, Exatas e Biológicas, sob a forma de curso Regular ou de Magistério.
118
A professora P1 acredita que, no curso de Licenciatura em Pedagogia, deveria ter uma carga maior de Matemática, pois considera insuficiente o que é oferecido pela universidade durante o curso. Entretanto acredita que, ainda assim, ele é superior aos cursos de capacitação oferecidos pela rede de ensino.
Junto (...) é claro que junto (...) com certeza (...) é o que aconteceu comigo em biológicas que eu tava te falando (...) nossa muito melhor (...) a qualidade do aproveitamento (...) assimilação do conhecimento é maior quando você está dentro da universidade, que quando você está em um curso individual, que vem depois. (P1; L. 248 - 251).
A professora P2 tem Licenciatura em Pedagogia, feita em universidade pública, está há menos de cinco anos no magistério e nunca participou de cursos de formação continuada. Ela divide as turmas de 5º ano com outra professora e leciona Matemática e Ciências para essas turmas. Por estar há menos tempo na escola, onde é professora concursada, teve suas turmas atribuídas na escola, mas não, as disciplinas. Ou seja, não foi sua escolha e, apesar de ter uma relação muito boa com a disciplina, teria optado pela área de humanas. Ela participou do processo de planejamento da escola, porém, na realidade, esse não acontece de maneira coletiva, pois o conteúdo conceitual é o que consta no livro didático – parte do Programa Nacional do Livro Didático, o PNLD – e da matriz curricular oficial, limitando o trabalho do professor em termos de organização do currículo da disciplina.
Quando questionada a respeito da ampliação da carga horária destinada ao conteúdo de conhecimento matemático oferecido na Licenciatura em Pedagogia, ela reconhece que houve um impacto significativo na formação da professora ou não, e foi categórica:
Ah, sim (...), porque o leque de possibilidades seria outro (...) eu aprenderia novas formas de abordagem (...) por que, no curso de Pedagogia, o que eu vi é muito pouco diante daquilo que o meu aluno espera, deseja e precisa ser abordado (...) então, eu acho que, se eu tivesse seguido para o específico, ajudaria sim. (P2; L. 202 - 205).
A professora P3 tem formação no Ensino Médio em Magistério e Licenciatura em Letras (incompleto), tem mais de vinte e cinco anos de atuação na rede pública de ensino, é professora concursada e efetiva na escola. Leciona para os alunos do 3º ano e
119
compartilha com outra professora as mesmas turmas. A escola faz a atribuição das turmas e as professoras fazem a opção pela divisão das turmas ou não, em áreas de conhecimento ou atuação polivalente, nesse caso, a professora optou por ensinar Matemática, pois, como ela mesma diz:
(...) olha (...), eu acho que era a matéria que eu mais tive dificuldade em todo meu ano escolar (...) minha vida escolar (...) e, depois de um tempo, eu comecei a lecionar (...). E, depois de muito tempo, eu fiz cursos de capacitação na outra escola em que eu estava (...) e a gente tinha dentro dessa escola parceria com duas empresas (...). Essas empresas pagavam a capacitação e, de repente, tudo começou a ficar muito claro (...) ficou muito simples (...) e eu via que, na verdade, eu não entendia a Matemática (...). A partir do momento que eu comecei a entender, eu comecei a gostar de ensinar. Eu ensinava, mas não com tanta facilidade, com tanto gosto. (P3; L. 19 – 26).
Da mesma maneira que a professora P2, a professora P3 foi questionada com relação ao ensino dos conteúdos da disciplina de Matemática pelos cursos de formação, tanto na Pedagogia como na capacitação, pois, como havia afirmado anteriormente, esse último foi decisivo em sua formação para o magistério, quando ela reafirma que:
Não, eu acho (...) eu não fiz Pedagogia, mas, pelo que eu vejo (...), pelo que eu conheço (...), é muito mais a parte teórica do que a parte Matemática (...) se privilegia muito mais a (...) os pensamentos (...) como ensinar e a Matemática fica de lado (...) e essa professora que eu te falei que foi capacitadora na outra escola, ela dá aula na faculdade de Matemática para professores das séries iniciais. Então, eu acho assim (...) o curso que ela ministrava pra gente era uma coisa que deveria estar na Pedagogia também (...), sendo hoje a Pedagogia exigida pra (...). Por que eu fiz magistério (...), então eu tive Matemática infantil eu tive tudo ligado à pré-escola e ao ensino até a 4ª série. Então, eu vi um pouquinho mais (...). Mas quem faz a Pedagogia deveria fazer um curso como esse que essa professora ministrava, ser mais específico (...), porque a gente percebe que tem muito professor (...), como hoje não tem magistério (...), ele é bem mais inseguro que a gente e a gente já tem dificuldade e ele é bem mais inseguro, porque ele vê muito menos a prática da Matemática .
(P3; L. 194 - 206).
Nas falas das professoras, é possível perceber um distanciamento entre o que é ensinado nos cursos de Licenciatura em Pedagogia e a Matemática que é ensinada ao aluno na escola básica, visto que a representação que se faz de um conhecimento não é a mesma coisa que esse conhecimento em si.
120
As falas das professoras a respeito de sua formação, quando relacionada especificamente ao ensino da Matemática é muito clara. Segundo seu ponto de vista, as professoras constataram que a ausência do ensino da Matemática nos cursos de Licenciatura em Pedagogia e no Magistério prejudica no início de suas carreiras. Ou seja, os professores entendem que não se apropriaram suficientemente de conhecimento matemático e do modo como ele deve ser ensinado ao aluno.
Como afirmado anteriormente, é durante a formação inicial das professoras que se institui a relação dialógica entre o conhecimento matemático “aprendido” no Ensino Básico e a maneira como a professora fará uso desse conhecimento matemático para o ensino da Matemática a seus alunos. Durante sua formação inicial no ensino superior, não constavam do currículo disciplinas que ensinassem à professora conteúdos específicos de Matemática. Dessa maneira, é bem provável que a construção de sua prática de ensino de Matemática se resuma à apropriação que teve e ao diálogo que foi capaz de estabelecer entre o conhecimento matemático escolar adquirido na sua Educação Básica e a representação que faz do conhecimento matemático que deve ensinar aos alunos.
A formação continuada ofertada nas últimas décadas pela rede pública de ensino tem se concentrado na área de Alfabetização e Língua Portuguesa, e é possível que, com a supervalorização dos modelos indiciários e estatísticos, como PISA, SARESP, Prova Brasil, dentre outros, busca-se algum movimento de complementação na área de Matemática.
Dessa maneira, é possível evidenciar que as representações elaboradas por professoras a respeito do conhecimento matemático quando adquirido somente no Ensino Básico carregam dentro de si as dificuldades e provavelmente espelham as inseguranças apontadas para ensinar essa disciplina para as séries iniciais.
Sendo assim, o conhecimento matemático adquirido por professoras, com formação única em Licenciatura em Pedagogia, isto é, não são egressas do Magistério, aconteceu durante o Ensino Fundamental e Médio e esses cursos não têm como objetivo formar professoras, mas sim, oferecer conhecimentos matemáticos básicos e suficientes para a inclusão do sujeito na sociedade.
Assim, as representações que as professoras carregam sobre o conhecimento matemático foram elaboradas durante o Ensino Básico e, na sua maioria, as professoras carregam dentro de si todos os problemas decorrentes de um ensino público carente e deficiente. As professoras que fizeram o curso de Magistério tiveram uma formação diferenciada daquelas que cursaram apenas o Ensino Básico e, assim, foram
121
minimamente preparadas para o exercício da profissão de professora de 1º ciclo. Mesmo que isso não se aplique a totalidade de professoras em exercício.
Como o processo de construção e elaboração do conhecimento e das representações é singular, buscamos deixar evidente que as representações que essas professoras foram capazes de acumular, construir e compartilhar são constituídas, principalmente, a partir do vivido e do discurso entre pares. Ou, talvez, em consequência do pouco concebido que lhes foi ofertado durante todo o período de formação. Mesmo assim, há que se respeitar o trabalho feito até os dias de hoje, pois é bem capaz que o ato de ensinar se situe entre a técnica e a arte, se perpetuando ou se aprimorando ou se alternando entre sacrifício e dedicação.